Sobre a “corrida” para a santidade. Uma reflexão

 

 

giovanni paolo

Thomas Reese – 19 de novembro de 2020 – Foto:  João Paulo II  / DAQUI

O recente relatório detalhando a resposta do Vaticano ao escândalo em torno do ex-cardeal Theodore McCarrick mostra por que é um erro canonizar rapidamente papas (ou qualquer outra pessoa) após sua morte. De acordo com o relatório do Vaticano publicado na semana passada, o Papa João Paulo II recebeu alertas sobre McCarrick de autoridades do Vaticano e do cardeal de Nova York John O’Connor em 1999. Dois anos depois, McCarrick foi empossado como arcebispo de Washington, D.C.

João Paulo II foi beatificado em 2011, seis anos após sua morte. Três anos depois (2014) foi declarado santo.

 

 

Não só os papas

A Igreja precisa de mais tempo para examinar a vida de qualquer pessoa.

  • O povo argentino, por exemplo, queria canonizar Eva Peron imediatamente após sua morte em 1952.
  • Na época, felizmente, o período de espera obrigatório para que o processo de canonização pudesse começar era de 50 anos.
  • Embora ela ainda seja reverenciada por muitos argentinos, a reputação de Evita foi manchada nos últimos anos por acusações de que ela e o seu marido deram refúgio aos nazistas após a Segunda Guerra Mundial.

João Paulo II reduziu o período de espera de 50 para cinco anos, porque queria canonizar figuras ainda significativas para seus contemporâneos. O seu sucessor, Bento XVI, também derrogou este limite justamente no caso de João Paulo II e fez isso em reposta ao clamor popular.

Por esta razão,

  • quando João Paulo foi canonizado apenas nove anos após sua morte,
  • os historiadores independentes ainda não tinham tido acesso aos arquivos secretos do Vaticano;
  • portanto então era impossível para outros que não o Vaticano julgar a sua causa.

E hoje, à medida que mais informações se tornam conhecidas, surgem questionamentos sobre a sua atuação.

 

Política eclesiástica

Canonizar papas é uma questão particular porque diz respeito à política eclesiástica mais do que à santidade.

Aqueles que desejam fortalecer o legado do “seu” papa fazem pressão pela canonização.

  • É uma escolha pela continuidade, contra a mudança, já que elevar um papa à honra dos altares torna mais difícil pôr em discussão e modificar as suas posições.
  • Politicamente, é difícil opor-se à canonização de um papa porque a oposição é denunciada como um gesto de deslealdade.
  • Aqueles que se opõem à canonização geralmente são defensores da mudança.

Como forma de compromisso, às vezes dois papas são declarados santos juntos: em 2014, por exemplo, João XXIII foi canonizado junto com João Paulo II. Os progressistas amavam João, ao passo que os conservadores gostavam de João Paulo.

  • Tal costume, que visava acalmar os atritos entre as facções internas, remonta ao século III, época da  disputa entre o Papa Calisto e Hipólito (o primeiro antipapa).
  • Diz a lenda que os dois, cujos partidários se enfrentavam abertamente nas ruas de Roma, se reconciliaram depois de serem enviados para as  minas de estanho da Sardenha pelas autoridades romanas.
  • Ambos foram honrados como santos pela Igreja no intento de restaurar a unidade.

De modo semelhante, a canonização conjunta de João XXIII e de João Paulo II reuniu correntes internas que estavam em desacordo desde o Vaticano II, o Concílio querido e iniciado pelo Papa João. Eu não me surpreenderia em ver Francisco e Bento XVI canonizados no mesmo dia, 10 anos após a morte deles.

 

Modelos imitáveis

Deixando de lado a questão política,

  • os santos devem ser modelos para os católicos e para outras pessoas.
  • Mas como pode um cristão comum tomar verdadeiramente como modelo um papa,
  • a não ser  que ele seja um cardeal que quer tornar-se papa?

Os meus candidatos à canonização seriam leigos, especialmente os casais de esposos e os jovens. Eu gostaria de canonizar as estudantes da Escola Católica de Nyange, em Ruanda, que foram espancadas e mortas pelos militantes hutus em 1997 quando se recusaram a separar-se em grupos de hutus e tutsis. O seu testemunho contra o genocídio e pela solidariedade seria muito mais significativo para os jovens do que qualquer papa.

Estas jovens eram perfeitas? Improvável. Mas não é necessário que o fossem ter sido: os santos não eram pessoas perfeitas; eles foram também, como todos, pecadores. Basta lembrar que São Pedro negou conhecer Jesus.

  • Mas quando escândalos como o de McCarrick vêm à luz,
  • as pessoas acabam por pôr em dúvida todo o sistema das canonizações.

Coisa que, em si, não é totalmente negativa.

Quando Josemaría Escrivá, o controverso fundador do Opus Dei, foi canonizado em 2002, um trocista jesuíta exclamou:

“Bem, isto mostra que todos vão para o céu”.

 

 

Tygodnik Powszechny

 Thomas J. Reese 

 é  padre jesuíta católico americano,  escritor e jornalista. Ele é analista sênior do Religion News Service , ex-colunista do National Catholic Reporter e ex -editor-chefe da revista católica semanal America .

Artigo reproduzido com permissão do National Catholic Reporter

 Fonte:  http://www.settimananews.it/papa/corsa-santita-una-riflessione/

 

 

 

1 comment to Sobre a “corrida” para a santidade. Uma reflexão

  • José William Barbosa Costa

    Desculpe-me, mas a informação da redução de 50 para 5 anos foi de Paulo VI, no calor da reformas pós conciliares.

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