Descontente com Bolsonaro, cúpula militar volta a se articular em torno de Mourão

O vice-presidente Hamilton Mourão e o presidente Jair Bolsonaro, em um evento no Palácio do Planalto em 9 de novembro.

AFONSO BENITES – Brasília – 14 NOV 2020 – 

Foto: O vice-presidente Hamilton Mourão e o presidente Jair Bolsonaro, em um evento no Palácio do Planalto em 9 de novembro – EVARISTO SA / AFP

Vice-presidente, ministros e comandante do Exército se queixam que se tornaram motivo de chacota após declaração do presidente que insinuava um conflito contra os EUA. Acostumado a ver teorias da conspiração por todos os lados, o presidente volta a mirar seu número dois

 

Militares da cúpula das Forças Armadas, da reserva e com assento cativo na Esplanada dos Ministérios voltaram nesta semana a fazer algo que era comum no início do ano:

Antes, os encontros ocorriam quando o mandatário

  • ostentava seu lado mais passional
  • e participava de protestos a favor do fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.

Agora, foram motivados

Ao menos dois encontros entre os militares ocorreram ao longo desta semana. Nos dois, a reclamação principal é que eles viraram motivo de chacota por causa do discurso de Bolsonaro de enfrentamento contra os EUA em defesa da Amazônia.

No mais recente, na noite de quinta-feira passada,
  • Bolsonaro descobriu que a reunião acontecia, apareceu de surpresa onde estavam informalmente quatro generais do Exército ―o vice-presidente Hamilton Mourão, os ministros Luiz Eduardo Ramos e Walter Braga Netto (Casa Civil), além do comandante do Exército, Edson Leal Pujol.
  • Queria saber o que passava.
  • Quando o mandatário entrou no mesmo recinto, todos se despediram de Mourão, a quem chamaram de presidente.
O quarteto tenta demonstrar unidade dos militares contra os arroubos presidenciais, a favor de Mourão. Ainda querem demonstrar o descontentamento com a postura de Bolsonaro que, em um único dia,
  • comemorou uma suposta falha na vacina contra o coronavírus produzida pelo Instituto Butantan e pela Sinovac,
  • ameaçou usar pólvora contra os Estados Unidos para defender a Amazônia
  • e disse que o Brasil precisava deixar de ser um “país de maricas”no combate à covid-19.
Aliados de Bolsonaro desde a época da campanha eleitoral,

Por esta razão, mesmo com o presidente desautorizando Mourão a falar em seu nome, o vice-presidente seguiu concedendo entrevistas.

  • Na mais recente, à rádio Gaúcha, disse que seu sentimento pessoal era de que a vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos “está cada vez mais sendo irreversível”.
  • Bolsonaro é um dos poucos líderes mundiais que não reconheceram ainda a derrota de seu ídolo Donald Trump.
  • Na mesma ocasião, Mourão endossou o que o general Pujol havia dito no dia anterior. “Não admitimos política nos quartéis”.

Pujol é um general discreto. Pouco fala publicamente.

  • Ficou marcado por fazê-lo no início da pandemia, quando contrariou Bolsonaro e disse que o coronavírus era, sim, uma preocupação dos militares.
  • Nesta semana, ele deu duas declarações que chamaram a atenção. Ambas em debates públicos.

Na quinta-feira, durante um evento do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, Pujol afirmou que “militares não querem fazer parte da política nem querem que a política entre nos quartéis”.

Na sexta-feira, em um seminário sobre Defesa Nacional, das Forças Armadas, Pujol repetiu algo que deveria ser óbvio: que a instituição pertence ao Estado, não ao Governo.

“Não somos instituição de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil. Independente de mudanças ou permanências em determinado governo por um período longo, as Forças Armadas cuidam do país, da nação. Elas são instituições de Estado, permanentes. Não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar e como cumprir nossas missões.”

Se não bastassem os discursos públicos,

  • Ramos, um contemporâneo que Bolsonaro escolheu para fazer a articulação política de seu Governo,
  • traçou uma linha demonstrando o quanto de interferência admitirá em seu trabalho.

Na semana passada

  • ele comandava uma reunião com alguns ministros
  • quando o primogênito do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) entrou na sala, no Palácio do Planalto, sem ser convidado.
  • Ramos pediu para ele se retirar.

O parlamentar disse que era um senador e participaria do encontro.

  • Ao que o ministro respondeu que
  • ali era o Executivo,
  • o Legislativo era do outro lado da praça dos Três Poderes.

Flávio deixou o local.

Bolsonaro, que costuma se vangloriar que tem o apoio dos militares, tem cada vez mais encontrado resistência entre seus antigos pares. Acostumado a ver teorias da conspiração por todos os lados, ele voltou a mirar seu vice-presidente, que tem construído pontes com o empresariado e com diplomatas estrangeiros.

Se a eleição presidencial fosse hoje, uma certeza ele teria, seu vice, não seria Mourão.

Esse desquite poderia servir de justificativa para os militares abandonarem de vez o ex-capitão que trouxe os fardados de volta ao protagonismo político no Brasil.


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Afonso Benitez

 

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-11-14/descontente-com-bolsonaro-cupula-militar-volta-a-se-articular-em-torno-de-mourao.html

 

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