A internacional do ódio

 

Chega de ódio - ISTOÉ Independente

Frei Bento Domingues, O.P. – 15/11/20 – Foto: DAQUI

Nesta era de extremismos, à esquerda e à direita, reafirma-se a tentação de responder ao ódio com mais ódio. São outros os caminhos da política da justiça e da paz.

 

1. Nós existimos, nós perseveramos no que somos a partir da palavra e do desejo do outro. Tornar-se humano é tornar-se solidário, não apenas com o seu grupo identitário — isso também fazem as formigas — mas exactamente com o estranho, aquele que caiu em desgraça e sobrevive abandonado [1]. É esta observação que guiará esta crónica.

A UNESCO declarou 10 de Novembro Dia Mundial da Ciência para a Paz e o Desenvolvimento. O Conselho Português para a Paz e Cooperação divulgou um texto, de Federico Carvalho, para marcar esta data importante:

“Às mulheres e homens que trabalham em Ciência, os trabalhadores científicos,

  • cabe a particular responsabilidade de agir no seio da sociedade em que se integram, mas também como cidadãos do mundo,
  • para que as aplicações do conhecimento científico sejam postas ao serviço do progresso social,
  • que compreende o desenvolvimento económico e cultural, no quadro de uma utilização sustentável dos recursos naturais do planeta.

São objectivos que exigem a abolição da guerra nas relações entre Estados e nações e o fim de conflitos internos, com o estabelecimento de uma paz duradoura. Não se trata de uma escolha entre alternativas, trata-se da sobrevivência da humanidade. […]

  • Nos nossos dias, graças à evolução dos meios técnicos de transporte e de comunicação, as ligações entre países, regiões, continentes, estabeleceram-se a um nível sem precedentes, facilitando a mobilidade de pessoas e bens.
  • Esta realidade é responsável pela rápida propagação da pandemia que, ao contrário do que aconteceu no passado com outras situações pandémicas, hoje estende-se a todo o planeta, atingindo, em maior ou menor grau, o conjunto da população.” [2]

 

2. Escrevo esta crónica no dia de S. Martinho (316-397). Na tradição popular, é o dia de provar o vinho novo.

Martinho era um militar, não por vontade própria, mas por imposição do seu pai, que era tribuno romano. Tornou-se catecúmeno cristão e, durante essa iniciação, percebeu o essencial da nova fé: ao ver um pobre ao frio e esfarrapado, cortou a sua capa ao meio e deu metade a esse mendigo. Era a marca do seu itinerário.

Este domingo, no calendário litúrgico, é o 33.º do Tempo Comum. O Papa Francisco, no encerramento do Ano da Misericórdia (2017), proclamou-o Dia Mundial dos Pobres.

Pode parecer estranho, pois já existia o Dia Mundial da Erradicação da Pobreza, a 17 de Outubro, promulgado pela ONU, por influência do padre católico Joseph Wresinski (1917-1988). Ele não era, apenas, a voz do povo da miséria, ele pertencia a esse povo, assumiu a sua causa e fundou a Associação ATD Quart Monde.

O Papa Francisco assumiu a tradição inventiva, de homens e mulheres que, desde os Actos dos Apóstolos, passando pelo humor surrealista do diácono S. Lourenço (século III), se tornaram, em todas as épocas até aos nossos dias, a voz dos sem-vez e sem-voz.

Existem várias obras sobre a erradicação da pobreza, cujas promessas parecem sempre adiadas. Seria absurdo, no entanto, dar esses trabalhos por inúteis, quer a nível nacional, quer internacional [3].

Pergunta-se: o que acrescenta o Dia Mundial dos Pobres ao Dia Mundial da Erradicação da Pobreza?

  • Uma coisa é a investigação, o mais rigorosa possível, das causas sociais, culturais e políticas da pobreza.
  • Outra é a atenção personalizada aos que são vítimas da pobreza imposta.
  • Exige o encontro interpessoal, concreto, afectivo, com os pobres, nossos irmãos esquecidos ou desprezados.

O filósofo e político António Frederico Ozanam (1813-1853) lutava, no Parlamento, pela erradicação da pobreza. Compreendeu, no entanto, que era preciso mobilizar a consciência de cristãos e não-cristãos para a situação concreta dos pobres.

  • Não eram, apenas, uma categoria social, cultural e política, objecto das ciências humanas.
  • Eram pessoas que precisavam de ser reconhecidas e socorridas.
  • Não eram números ou categoria sociais abstractas.
  • Precisavam de calor humano num encontro fraterno.

Foi ele o fundador das Conferências de S. Vicente de Paulo. Com o tempo, muitas delas esqueceram-se da sua genuína vocação.

 

3. São muitos os cidadãos dos EUA que demoram a aceitar o resultado das recentes eleições presidenciais. É uma situação perigosa. Serve para alimentar extremismos e focos incendiários de ódio.

É certo que o discurso de Joe Biden procurou mostrar que a sua presumível vitória se destinava a unir todos os norte-americanos:

  • “Prometo ser um Presidente que não busca dividir, mas unir, que não vê Estados vermelhos e azuis, mas os Estados Unidos;
  • prometo trabalhar para conquistar a confiança de toda a população.
  • Os meus conterrâneos americanos são o povo deste país que nos deu uma clara vitória, uma vitória convincente.
  • Orgulho-me da campanha que fizemos e conduzimos. Estou orgulhoso da coligação que formamos, a mais ampla e diversificada da história:
  • democratas, republicanos e independentes, progressistas, moderados e conservadores, jovens e velhos, urbanos, suburbanos e rurais, gays, héterossexuais, transgéneros, brancos, latinos, asiáticos, americanos nativos.”

O teólogo espanhol J. J. Tamayo sustenta que

  • os partidos políticos e as organizações da extrema-direita mundial e os movimentos cristãos fundamentalistas
  • formam uma aliança cada vez mais sólida e eficaz na conquista do poder, em todos os âmbitos,
  • fomentando o discurso das práticas de ódio, difundindo uma internacional do ódio.

Uma das pessoas que mais contribuíram para esse discurso e para essas práticas foi o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante os quatro anos do seu mandato.

  • Contou não apenas com o Partido Republicano,
  • mas também com um sector muito importante e influente do movimento evangélico integrista, os Evangélicos por Trump.

Com as sagradas Escrituras, judias e cristãs,

  • sustentou a sua política belicista, antiecológica, patriarcal, xenófoba, sexista
  • e a separação dos pais e filhos entre os imigrantes.

O apoio veio também de grupos católicos ultraconservadores e de importantes personalidades da Igreja Católica como o cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova Iorque [4].

Nesta era de extremismos e de tendências extremistas, à esquerda e à direita,

  • reafirma-se a tentação de responder ao ódio com mais ódio, à violência com mais violência.
  • É o caminho da mundialização da guerra, de que fala o Papa Francisco.

São outros os caminhos da política da justiça e da paz.

 

NOTAS:

[1] Cf. José Augusto Mourão, Quem vigia o vento não semeia, Pedra Angular, 2011, p.7

[2] Transcrevi, apenas, um parágrafo desse texto. Merece uma leitura integral

[3] Cf. uma obra fundamental de Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, A Economia dos Pobres. Repensar de modo radical a luta contra a pobreza global, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2012

[4] Cf.: www.other-news.info/noticias/2020/11/tras-elecciones-en-ee-uucomo-deconstruir-el-discurso-y-laspracticas-de-odio

 

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Frei Bento Domingues

 

Fonte:  https://www.publico.pt/2020/11/15/opiniao/opiniao/internacional-odio-1938994

 

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