Bispos dos EUA, por favor, suprimam o culto a “São” João Paulo II

 

 

Statue of St. John Paul II by Chas Fagan at the entrance to the St. John Paul II National Shrine in Washington, D.C., pictured July 18, 2019. (CNS/Elizabeth Bachmann)

Equipe Editorial do NCR – 13 de novembro de 2020

Estátua de São João Paulo II por Chas Fagan na entrada do Santuário Nacional São João Paulo II em Washington, DC, retratada em 18 de julho de 2019. (CNS / Elizabeth Bachmann)

 

 

De muitas maneiras, o Papa João Paulo II foi um homem admirável. As últimas décadas do século 20 foram imensamente enriquecidas

  • por seu hábil uso da política papal para amplificar as vozes dos povos oprimidos em toda a Europa Oriental,
  • por suas várias iniciativas para o diálogo inter-religioso
  • e por seu testemunho pessoal da dignidade do envelhecimento.

Mas como revela o relatório sem precedentes do Vaticano sobre a carreira do infame ex-cardeal Theodore McCarrick, com detalhes chocantes, a primeira década do século 21 será para sempre marcada pela calamitosa e cruel tomada de decisões de João Paulo II.

É hora de um difícil ajuste de contas.

  • Este homem, proclamado santo católico pelo Papa Francisco em 2014,
  • colocou em risco deliberadamente crianças e jovens adultos na Arquidiocese de Washington, D.C., e em todo o mundo.

Ao fazer isso,

  • ele também minou o testemunho da Igreja global,
  • arruinou a sua credibilidade como instituição
  • e deu um deplorável exemplo aos bispos, ao ignorar os relatos de vítimas de abuso.

Como todo o santo, João Paulo tem um culto vibrante – pessoas do mundo todo celebram a sua memória encorajando a devoção a ele, colocando seu nome em igrejas e escolas e acolhendo procissões e desfiles na sua festa litúrgica.

El cardenal Theodore McCarrick, arzobispo de Washington entre 2000 y 2006

Cardeal Theodore McCarrick, arcebispo de Washington entre 2000 e 2006 0 pedófilo que enganou ou subornou João Paulo II com generosas ofertas em dinheiro para o Vaticano.

 

Dado o que sabemos agora sobre as repercussões duradouras das tomadas de decisão de João Paulo II,

  • os bispos dos Estados Unidos, reunidos na próxima semana para a sua conferência anual,
  • deveriam considerar seriamente se os católicos americanos podem continuar com tais práticas.
  • Eles também deveriam discutir o pedido para que o Vaticano suprima formalmente o culto a João Paulo II. As vítimas de abuso não merecem menos.

Como mostra claramente o relatório devastador do Vaticano, a decisão do falecido papa de nomear McCarrick como arcebispo de Washington em 2000 veio apesar das severas advertências dos seus conselheiros do mais alto nível de ambos os lados do Atlântico.

A carta, de 28 de outubro de 1999, do cardeal John O’Connor de Nova York, que pela primeira vez foi revelada,

  • dificilmente poderia ter sido mais inquietante.
  • McCarrick,  advertiu O’Connor, havia sido alvo de denúncias anônimas
  • e era conhecido por convidar seminaristas para dormir na mesma cama com ele.

Sobre a possibilidade de promover McCarrick para um posto acima do então ocupado como Arcebispo de Newark, New Jersey, O’Connor escreveu:

“Lamento ter que recomendar fortemente contra tal promoção”.

O’Connor, que enviou a carta em 28 de outubro de 1999, por estar sofrendo de câncer no cérebro que o levaria à morte apenas sete meses depois,

  • também disse que tinha “sérios temores” sobre a possibilidade da promoção
  • e do “grave escândalo”
  • que  isso poderia causar à igreja.

 

Juan Pablo II

João Paulo II / Daqui –  “Devem discutir o pedido de que o Vaticano suprima formalmente o culto de João Paulo. Vítimas de abuso merecem nada menos”

 

Leia isso novamente. Esta não era uma simples luz vermelha piscando. Era um boletim com todos os alertas, o ato final de uma das figuras mais importantes da igreja global.

  • Apesar disso, e apesar das preocupações de O’Connor  serem reiteradas posteriormente pelo embaixador do Vaticano nos Estados Unidos e pelo prefeito da Congregação do Vaticano para os Bispos,
  • João Paulo II acabaria acreditando nas negativas de McCarrick sobre o seu comportamento e faria a nomeação de qualquer maneira.

 

Além do mais, para fazer isso,

  • o papa teve que pôr pessoalmente isso sob a sua asa – instruindo de maneira insólita o Secretário de Estado do Vaticano a mandar a congregação dos bispos adicionar o nome de McCarrick à  lista de padres considerados para o cargo,
  • e depois (mandar) a Congregação para a Doutrina da Fé dispensar a verificação padrão sobre a adesão de McCarrick à doutrina católica.

Isso é ainda mais devastador se se considerar que a decisão foi tomada durante o mesmo período em que o Vaticano foi informado das acusações de abuso por parte do padre Marcial Maciel Degollado, o mexicano fundador dos outrora poderosos Legionários de Cristo, cujas vítimas somam no mínimo dezenas e possivelmente centenas.

 

Wojtyla y Maciel

O papa João Paulo II abençoa o padre Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo e reiterado pedófilo, no Vaticano em 2004. MACIEL, como Cardeal Theodore McCarrick, também era um generoso carreador de milhões de dólares para os cofres vaticanos. (CNS / Reuters / Tony Gentile)

 

Os jornalistas Jason Berry e Gerald Renner trouxeram a público, pela primeira vez, o abuso de seminaristas por Maciel em 1997. Em 1998, oito ex-legionários levaram o seu caso contra Maciel à congregação da Doutrina da Fé.

João Paulo continuaria a elogiar o homem publicamente pelo resto de seu papado.

  • Maciel não foi punido publicamente até 2006, após a morte de João Paulo II,
  • quando o Papa Bento XVI impôs ao padre uma vida de penitência.

Não há mais como escapar da verdade. João Paulo, um homem admirável sob muitos aspectos, era deliberadamente cego para o abuso de crianças e jovens.

Suprimir o culto do falecido pontífice não significaria dizer às pessoas que elas precisam jogar fora suas relíquias ou medalhas – as pessoas poderiam ainda praticar uma devoção privada a ele. Mas para as vítimas de abuso, para os seus advogados e para muitos outros, a memória de João Paulo II não é mais uma bênção. Não deveria ser celebrada em público.

Equipe Editorial do NCR

Fonte: https://www.ncronline.org/news/accountability/editorial-us-bishops-please-suppress-cult-st-john-paul-ii

 

 

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