LGBTI sob ataque na Polónia: “Se acontece na Europa, pode acontecer em qualquer lado”

A retórica contra a comunidade LGBTI tem contribuído para galvanizar os movimentos nacionalistas na Polónia e uma governação ultraconservadora. Mi Lekler, Mariusz Kurc e Duarte Peralta contam ao P3 como este discurso tem alimentado ódios, fomentado o medo e incitado à violência.

“A minha mãe queria comprar um saco com as cores do arco-íris para a minha irmã, que tem 16 anos, mas acabou por não comprar porque teve medo que ela fosse espancada.”A polaca Mi Lekler, de 27 anos, vive desde 2018 em Portugal, mas acompanha incrédula o que se passa no seu país, onde deixou a família e os amigos.

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Foto: A polaca Mi Lekler tem 27 anos e vive há dois anos em Portugal DR / publico.pt

No último ano, cerca de um terço das localidades do país declararam-se como “zonas livres de ideologia LGBT”, uma medida que, embora não tenha qualquer efeito legal, alimenta e incentiva o discurso contra estas pessoas.

Em Setembro, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avisou que estas declarações não têm lugar na União Europeia.

“Sermos nós próprios não é a nossa ideologia. É a nossa identidade. E ninguém nos pode tirá-la. Zonas livres de LGBTI são zonas sem humanidade”,

sublinhou no seu discurso sobre o Estado da União.

A mais de 2500 quilómetros de casa, Mi começou a sentir que não é bem-vinda no seu país. Os amigos falam-lhe de medo e perseguições. A mãe, que em adolescente lutou contra o comunismo, teve medo de comprar o tal saco colorido. “É duro, porque falamos de solidariedade. Mas ainda existe um problema de solidariedade na Polónia”,refere, invocando o movimento que ajudou a derrubar a ditadura comunista.

“Eu não quero parecer uma avó”, avisa Mi, “mas considerem como um aviso aquilo que está a acontecer na Polónia. A Polónia faz parte da União Europeia. Se pode acontecer na União Europeia, então pode acontecer em qualquer lugar.”

O medo alimentado pela Igreja Católica

Mariusz Kurc vive em Varsóvia. É editor da revista Replika, uma publicação direccionada para a comunidade LGBTI. A capital da Polónia é uma cidade “grande e liberal”, descreve numa videochamada com o P3, mas para o activista o cenário actual é “surreal”. Há carrinhas a percorrer várias cidades da Polónia a debitar por um altifalante propaganda anti-LGBTI.

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Foto: KACPER PEMPEL/REUTERS

 

“Desses altifalantes saem coisas bastante homofóbicas, por exemplo, que a homossexualidade está relacionada com a pedofilia”, descreve.

“E não são só carrinhas. Às vezes há só grandes colunas em lugares movimentados, como as entradas do metro, por onde eu passo todos os dias.”

Na Polónia, o discurso homofóbico é, até, alimentado pela Igreja.

Em 2019, o arcebispo de Cracóvia, Marek Jedraszewski, comparou a homossexualidade ao comunismo, considerando-a uma “praga”:

Nós sabemos também que, felizmente, o nosso país já não está afectado pela praga vermelha, o que não quer dizer que não há uma nova [praga] que quer controlar a nossa alma, os nossos corações e a nossa mente. [Essa praga] não é marxista ou bolchevique, mas nasceu do mesmo espírito, neo-marxista. Não é vermelha, é um arco-íris.”

Mariusz Kurc teme que este discurso torne ainda mais difícil a vida dos jovens polacos LGBTI, sobretudo aqueles que não vivem nas grandes cidades, onde há comunidades e clubes que os podem apoiar. Mesmo assim, a insegurança existe.

Um colega da revista foi preso no início de Agosto, enquanto filmava uma manifestação de apoio à causa LGBTI. No dia a seguir, Mariusz saiu à rua num protesto contra a brutalidade policial. Os amigos aconselharam-no a levar escrito na mão o número de um advogado.

“Eu pensei: como é que chegámos a este ponto? Em que vamos a uma manifestação e estamos a preparar-nos para ser presos? Nós fazemos parte da União Europeia.”

Homofobia como arma política

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Foto: Cartaz a convocar para a manifestação no Dia da Independência da Polónia FONTE: FACEBOOK

A pandemia veio complicar a luta pelos direitos LGBTI. Com os polacos confinados, a rua perde a voz. Mas, aqui e ali, foram aparecendo bandeiras arco-íris nas janelas. Duarte Peralta, informático de 41 anos, a viver há 15 anos na Polónia, colocou uma na sua janela há cerca de um mês para apoiar a comunidade.

“Preocupa-me a maneira como a política hoje em dia é feita à custa da causa anti-LGBTI”, diz.

Duarte considera “assustador” que o Governo tenha conseguido obter o apoio da maioria das pessoas, mesmo com este discurso homofóbico

 “Há um Governo que faz estas coisas, então [julga-se que] nas próximas eleições ninguém vai votar para eles continuarem lá. Mas depois não é assim.” 

Em Julho, o Presidente ultraconservador Andrzej Duda ganhou as eleições presidenciais por uma margem mínima e Duarte conta que teve uma “minidepressão”pós-eleitoral e chegou a sugerir à mulher que mudassem de país.

  • Casado com uma polaca, pai de dois filhos com 10 e 12 anos,
  • Duarte inquieta-se com o ambiente em que eles estão a crescer.
  • Também ele já se cruzou com as carrinhas que espalham a mensagem anti-LGBTI.

“Tenho medo desta influência da sociedade e da escola.”

Aproxima-se o dia 11 de Novembro, o Dia da Independência da Polónia. Todos os anos há grandes manifestações na rua nesta data, que se foram tornando cada vez mais nacionalistas e dominadas pela extrema-direita.

Duarte partilha com o P3 o cartaz que promove a celebração deste ano.

  • No centro da imagem, está um cavaleiro polaco vestido como um hussardo, um membro da elite militar do século XVI.
  • O cavaleiro está inclinado para baixo, segura a espada acima da cabeça e empurra-a para baixo, o joelho no chão apoia o movimento.
  • O golpe é desferido numa estrela partida em bocados. Uma metade é vermelha, a outra é arcoíris.

Teresa Abecasis - Renascença

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Teresa Abecasis

Fonte:  https://www.publico.pt/2020/11/10/p3/noticia/lgbti-ataque-polonia-acontece-europa-acontecer-qualquer-lado-1938115

 

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