‘Francisco desafia a ideia – central no Estado-nação moderno – de que um país tem um direito absoluto sobre seus próprios recursos e territórios’. Artigo de Timothy Radcliffe

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Timothy Radcliffe – 06 Novembro 2020 –  Foto: Vatican Media

A Fratelli tutti se dirige a uma sociedade que se encontra diante de um desafio imaginativo radical.

Como podemos começar a ver não estranhos ameaçadores, mas sim irmãos e irmãs? Acima de tudo, as nossas mentes devem ser libertadas do medo da diversidade. Toda cultura humana só é viva se consegue interagir de modo fecundo com aquilo que é diferente.

A opinião é do frade inglês Timothy Radcliffe, ex-superior da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) de 1992 a 2001.

O artigo foi publicado em L’Osservatore Romano, 04-11-2020.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Os seres humanos já são irmãos e irmãs ou é isso que eles devem se tornar? No centro desta importante encíclica, está a convicção de que a fraternidade é tanto a nossa identidade presente mais profunda quanto a nossa vocação futura.

Somos convidados a nos tornarmos irmãos e irmãs em Cristo de um modo que dificilmente conseguimos imaginar agora.

“Amados, desde agora já somos filhos de Deus, embora ainda não se tenha tornado claro o que vamos ser. Sabemos que quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é” (1João 3,2).

Trata-se, em parte, de uma aventura da imaginação.

  • Por imaginação, não me refiro ao “imaginário”, a fantasia,
  • mas sim uma transformação de como somos no mundo.
  • A imaginação cristã é o poder do Espírito Santo que nos conduz para dentro de toda a verdade. É “o pensamento de Cristo” (1Coríntios 2,16).

Ainda no Gênesis, está em ação uma imaginação fraterna que nos leva

  • da rivalidade fraterna homicida entre Caim e Abel,
  • passando pelas tensões entre Isaac e Ismael, Esaú e Jacó, Lia e Raquel,
  • até a reconciliação de José com os seus irmãos.

Ser irmãos ou irmãs não é apenas e simplesmente uma questão de descendência biológica, mas também um crescimento na responsabilidade mútua, construindo a casa comum.

Somos levados da pergunta do Senhor a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?” (Gênesis 4,9) até o abraço de José aos seus irmãos:

“Eu sou José, o irmão de vocês, aquele que vocês venderam para o Egito. Mas agora, não fiquem tristes nem se aflijam porque me venderam para este país, pois foi para lhes preservar a vida que Deus me enviou na frente de vocês” (Gênesis 45,4-5).

O Gênesis lança o fundamento da existência de Israel conduzindo-nos ao triunfo da fraternidade sobre a rivalidade.

Em Cristo, a história de Israel se torna o drama constante da humanidade. Já pertencemos uns aos outros, mas estamos apenas no início de imaginar o que isso significa. “Quando chegar o último dia e houver a luz suficiente na terra para poder ver as coisas como são, não faltarão surpresas!” (Fratelli tutti, n. 281).

O papa parte da proclamação de São Francisco de Assis de um amor “que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço” (Fratelli tutti, n. 1).

Na verdade, como mostrou a Laudato si’, ele se estende ao Irmão Sol e à Irmã Lua e a toda a criação. O século XIII estava pronto para essa visão da fraternidade universal.

  • As velhas hierarquias feudais estavam desmoronando;
  • os mercadores, como o pai de Francisco, viajavam por todo o mundo conhecido:
  • havia novas formas de comunicação e um novo senso do valor do indivíduo.

O uso feito por São Francisco e por São Domingos dos primeiros títulos cristãos de “irmão” e “irmã” continha um valor utópico, a promessa de um mundo em que os estrangeiros que lotavam as novas cidades seriam abraçados.

A Fratelli tutti se dirige a uma sociedade que se encontra diante de um desafio imaginativo igualmente radical.

  • No nosso planeta digital, as velhas instituições e hierarquias perderam a sua autoridade; o futuro é incerto.
  • Como nos tempos de São Francisco, o encontro entre cristianismo e Islã é potencialmente perigoso.
  • São Francisco pôs-se em viagem para encontrar o sultão Malik-al-Kamil (cf. Fratelli tutti, n. 3). Agora, o Papa Francisco estende a mão ao Grão-Imã Ahmad Al-Tayyeb.

O sonho da fraternidade universal tem menos influência sobre o imaginário coletivo do que no passado.

“Reacendem-se conflitos anacrônicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, uma certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais” (Fratelli tutti, n. 11).

O papa nos desafia corajosamente a imaginar outro modo de pertencermos uns aos outros. Ele rejeita a atual legitimação do direito absoluto à propriedade privada: “A tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada” (Fratelli tutti, n. 120).

O nosso mundo se tornou um imenso centro comercial. Desde o século XVII, a falsa ideia de que tudo está à venda capturou o imaginário comum: terra, água, até os seres humanos com a explosão do tráfico de escravos. O meu corpo é uma propriedade minha, que eu posso dispor como quiser, desde a concepção até a morte. Os órgãos dos seres humanos são ceifados para o mercado.

O mais extraordinário é que o Papa Francisco desafia a ideia – central para o Estado-nação moderno – de que um país tem direito absoluto aos seus próprios recursos e ao seu próprio território:

  • “Se toda a pessoa possui uma dignidade inalienável, se todo o ser humano é meu irmão ou minha irmã e se, na realidade, o mundo pertence a todos,
  • não importa se alguém nasceu aqui ou vive fora dos confins do seu próprio país.
  • Também a minha nação é corresponsável pelo seu desenvolvimento, embora possa cumprir tal responsabilidade de várias maneiras” (Fratelli tutti, n. 125).

Essa afirmação é incrivelmente contracultural. Ela subverte o pressuposto essencial da política contemporânea. Para alguns, ela pode parecer ingênua ou, no limite, desastrosa. Como isso pode fazer sentido quando, em todo o mundo, constroem-se muros e patrulham-se fronteiras?

No entanto, a imaginação cristã nasce do poder transformador da cruz e da ressurreição de Cristo. Na cruz, Cristo derrubou “o muro da separação” (Efésios 2, 14). Uma imaginação pascal está destinada a parecer “loucura para os pagãos” (1Coríntios 1,23) e a ser rejeitada por muitos.

Isso não significa que ela deva flutuar em um espaço incorpóreo. Ela exige ser encarnada nas estruturas políticas. Uma nova ordem mundial fraterna terá que prever

  • “instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre governos nacionais e dotadas de poder de sancionar.
  • Quando se fala de uma possível forma de autoridade mundial regulada pelo direito,
  • não se deve necessariamente pensar numa autoridade pessoal” (Fratelli tutti, n. 172).

As Nações Unidas devem ser reformadas.

Da mesma forma,

  • ao tornar o caminho sinodal fundamental para o governo da Igreja,
  • o papa convida os católicos a se reimaginarem como uma comunidade de irmãos e irmãs.
  • Somente com base em tal transformação cultural é que o vertiginoso convite da Fratelli tutti abraçar o estrangeiro como nosso irmão e irmã, membro da nossa família –
  • aparecerá não como uma aterrorizante subversão de tudo o que nos é caro, mas sim como o caminho para a casa comum pela qual tanto ansiamos.

Nunca na história humana houve tantas pessoas em movimento, fugindo da violência e da guerra. Especialmente no Ocidente, vigiam-se os muros contra o imigrante e o estrangeiro que, teme-se, minarão as nossas comunidades locais, a nossa identidade e até a nossa segurança.

Como podemos começar a ver não estranhos ameaçadores, mas sim irmãos e irmãs?

Acima de tudo, as nossas mentes devem ser libertadas do medo da diversidade. Toda cultura humana só é viva se consegue interagir de modo fecundo com aquilo que é diferente.

  • Cada um de nós deve a sua própria existência individual à diferença fecunda entre masculino e feminino.
  • Se nos fecharmos hermeticamente ao estrangeiro, as culturas locais que trazemos no coração morrerão.
  • A árvore na frente da nossa janela cresce porque, das suas raízes mais profundas até o topo dos seus galhos,
  • desenvolve-se uma troca constante e vivificante com o ar, o solo, a água e inumeráveis insetos e bactérias.

O isolamento é mortificante.

É preciso um salto da imaginação para ver a fraternidade universal e a solidariedade local como fatores que se reforçam mutuamente.

“Não há abertura entre povos senão a partir do amor à terra, ao povo, aos próprios traços culturais. Não me encontro com o outro, se não possuo um substrato onde estou firme e enraizado, pois é a partir dele que posso acolher o dom do outro e oferecer-lhe algo de autêntico” (Fratelli tutti, n. 143).

A fecunda interação com o meu irmão ou a minha irmã desconhecidos só é possível se eu aprender a olhar para eles com um olhar transfigurado, vendo a sua humanidade, a sua vulnerabilidade e a sua beleza. A comunicação digital abstrai da nossa particularidade física. As mídias digitais expõem as pessoas a uma

  • “perda progressiva de contato com a realidade concreta, dificultando o desenvolvimento de relações interpessoais autênticas.
  • Fazem falta gestos físicos, expressões do rosto, silêncios, linguagem corpórea e até o perfume, o tremor das mãos, o rubor, a transpiração, porque tudo isso fala e faz parte da comunicação humana” (Fratelli tutti, n. 43).

Jesus lê o rosto de cada pessoa. “Pois ele conhecia o homem por dentro” (João 2,25).

Se aprendermos a olhar uns aos outros com prazer, o desafio radical do papa não parecerá mais um ideal impossível, mas sim o único caminho para a alegria.

 

Por fim, uma “imaginação fraterna” implica que falemos aos outros como irmãos e irmãs.

O papa entende o diálogo como muito mais do que uma troca de ideias.

É o processo ascético por meio do qual

  • buscamos imaginar o que significa ser essa outra pessoa,
  • ser formados pela sua cultura,
  • sentir o seu sofrimento e a sua alegria.

Em uma conversa entre irmãos ou irmãs, buscamos juntos novas palavras, abrimos um espaço imaginativo no qual as barreiras desmoronam. É aquilo que Tomás de Aquino define como “latitudo cordis”, alargamento do coração.

Essas conversas nos levam para além das trocas típicas das mídias sociais,

  • “uma troca febril de opiniões nas redes sociais, muitas vezes pilotada por uma informação mediática nem sempre fiável.
  • Não passam de monólogos que avançam em paralelo, talvez impondo-se à atenção dos outros pelo seu tom alto e agressivo.
  • Mas os monólogos não empenham a ninguém, a ponto de os seus conteúdos aparecerem, não raro, oportunistas e contraditórios” (Fratelli tutti, n. 200).

São também muito diferentes do discurso da nossa vida pública e política, que incita à desconfiança em relação aos outros e ao desprezo pelas suas opiniões.

A Palavra de Deus nos convida a falar e a escutar uns aos outros, para que comece a se abrir um espaço imaginativo em que os filhos do Deus único se sintam em casa uns com os outros e na vida divina.

 

What are you here for?' asks Timothy Radcliffe as he nears 75

 

Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/604402-fratelli-tutti-uma-leitura-artigo-de-timothy-radcliffe

 

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