FRATELLI TUTTI. 2: Uma outra Economia

Fratelli tutti (2). Uma outra economia

Anselmo Borges – 17 de Outubro de 2020  – Ilustração: Victor Higgs

 

1. – Ninguém é uma ilha. Só somos uns com os outros e precisamos de amor e de reconhecimento.

Que importa a existência

  • se ninguém nos reconhecer,
  • se não valermos para alguém?
  • Não é desse reconhecimento que todos andam à procura?

Só o valer para alguém é que justifica a existência. E, quando se descobre que valemos para Deus, que Deus nos dá valor e nos reconhece, então a vida está salva, encontrando a plenitude de sentido.

Um dos pressupostos na nova encíclica— “Todos irmãos e irmãs” — é exactamente esta verdade fundamental:

“Ninguém pode experienciar o valor de viver sem rostos concretos a amar. Aqui reside um segredo da verdadeira existência humana.”

E daqui arranca a revolução de Francisco, a da dinâmica da fraternidade universal. Este é um ponto de partida, porque esta experiência, se autêntica, irradia e torna-se contagiante, num contágio bom de felicidade: começa-se por baixo, por um, pela família, e vai-se

  • “pugnando pelo mais concreto e local, até ao último recanto da pátria e do mundo. Mas não o façamos sós, individualmente.
  • Todos, retomando a parábola do bom samaritano, somos responsáveis pelo ferido que é o próprio povo e os povos todos da Terra.”

Quem na vida foi meu próximo e de quem é que eu fui e sou próximo? Vai-se dando assim o encontro entre o concreto local e o universal, evitando tanto um localismo individualista fechado como um universalismo abstracto, homogeneizante e dominador. Realiza-se, pelo contrário, aquele ideal do poliedro, tão caro a Francisco: a unidade que floresce na variedade da riqueza de perspectivas, do tesouro de cada cultura, um mundo com

“o seu colorido variado, a sua beleza e, em última análise, a sua humanidade”.

Outro pressuposto é a dignidade sagrada de cada ser humano. Aqui, vamos tocar a transcendência.

  • Onde assenta a dignidade da pessoa, que é fim e não meio?
  • Certamente, o ser humano é finito e mortal, mas tem algo de infinito nele. O quê?

A pergunta ao Infinito pelo Infinito, se quisermos, a pergunta a Deus por Deus. Independentemente da resposta que se lhe dê, positiva ou negativa, todos os seres humanos são confrontados com esta pergunta, que revela neles o Infinito. Ora, o que é que há para lá do Infinito? Nada. Por isso, o ser humano é fim em si mesmo e não pode ser tratado como simples meio.

  • As coisas são meios e, por isso, dirá Kant, têm um preço,
  • o ser humano é fim e, por isso, não tem preço, tem dignidade.
  • É livre, autopossui-se na liberdade e só é verdadeiramente no encontro com outras liberdades.

Por isso, desde o início, a Bíblia diz que o ser humano foi criado à imagem de Deus, é imagem de Deus, e esta imagem está viva na liberdade e no reconhecimento de todo o ser humano como humano, digno.

A dignidade da pessoa humana é inviolável, e isso não por simples convenção ou convicção subjectiva, ela tem um fundamento real, de ser, transcendendo, portanto, as condições de nascimento ou as fronteiras…, como escreve Francisco: a dignidade da pessoa

“não se fundamenta nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro nem para a fraternidade nem para a sobrevivência da Humanidade”.

 

“… hoje ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém.” – Imagem: Daqui

 

2. – O que fica dito e a consciência mais aguda que nos é dada pela pandemia de que

“hoje ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém — a pobreza, a decadência, os sofrimentos de um lugar da Terra são um silencioso caldo de cultura de problemas que acabarão por afectar todo o planeta” —

  • obrigam à conversão a uma nova Economia, que não nega o lucro justo, mas que diz
  • ‘Não’ “ao lucro a qualquer preço”,
  • fazendo do Dinheiro um ídolo absoluto.

A dignidade da pessoa humana, de todas as pessoas, exige, em ordem à sua realização, esta conversão urgente.

“O mundo existe para todos, porque todos os seres humanos nascem nesta Terra com a mesma dignidade.”

Aqui, Francisco retoma João Paulo II:

  • “Deus deu a Terra a todo o género humano para que ela sustente todos os seus habitantes, sem excluir nem privilegiar ninguém.”

Por isso, arremete contra

  • “o direito absoluto e intocável à propriedade privada”.
  • “O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados.”

Ninguém pode ficar excluído.

“O direito de alguns à liberdade de empresa e de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos, nem da dignidade dos pobres, nem do respeito pelo meio ambiente.”

 

3.-  O Papa Francisco não é economista nem escreve como tal: anuncia o Evangelho e denuncia o ter de viver na indignidade.

De qualquer forma, neste domínio, ergue-se, inevitavelmente, uma questão de suma complexidade, que tem que ver com o conflito da eficiência e da equidade na Economia. Pessoalmente, quando tenho de falar sobre o tema, dou um exemplo:

  • estão aqui 300 pessoas, partamos de zero, eu vou dar a cada uma 1000 euros;
  • passado algum tempo, uns ainda têm 1000 euros, outros já têm 10 ou 20 mil e alguns terão dívidas.
  • Sim, o liberalismo quer a liberdade, também de possível exploração, mas já vivi num regime comunista e lá nem liberdade nem justiça, só fome para a quase totalidade da população.

Como pôr a Economia a funcionar, salvaguardando a dignidade de todos?

Exige-se uma política sã. Em que sentido?

 

***

Este será o tema da próxima crónica. Entretanto, sobre este magno problema, aconselho uma obra recente, Deus e o Mercado, com um diálogo provocador entre José César das Neves e o P. Vítor Melícias.

Fonte: FRATELLI TUTTI. 2 – Uma outra Economia

 

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Anselmo Borges

Fonte: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/17-out-2020/fratelli-tutti-2-uma-outra-economia-12926786.html?target=conteudo_fechado

 

 

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