A oligarquia financeira prepara sua revanche

Por Luke Savage, na Jacobin | Tradução: Simone Paz – 16/10/2020 

Agora, até as tímidas medidas de “auxílio” adotadas na quarentena estão ameaçadas. Volta o discurso do “aperto dos cintos” e abre-se uma encruzilhada: ou ataque inédito das elites ao Comum, ou ruptura com o neoliberalismo

 

Como a maioria das grandes convulsões econômicas, a crise de 2008–2009 produziu uma sensação momentânea de possibilidades.

Arrancados de um sono complacente pelo súbito colapso do sistema financeiro global, até os governos de centro-direita pareciam fazer o impensável. O Fim da História tinha acabado. A ditadura da dívida havia passado e o keynesianismo estava de volta — pelo menos é o que a história contava. Mesmo a nacionalização, essa “ferramenta anacrônica do estatismo” do pós-guerra, não estava mais fora de alcance.

  • Quando uma votação esmagadora elegeu Obama, que muitos esperavam fazer o governo mais à esquerda desde os anos 1930, nos Estados Unidos,
  • parecia possível submeter o consenso político-econômico, vigente desde a queda do Muro de Berlim, a uma revisão abrangente e potencialmente radical.

O que aconteceu na sequência já é bem conhecido.

  • Após resgatar os ícones da alta finança do precipício, em total segurança,
  • a maioria dos governos adotou rapidamente uma restrição fiscal.
  • Depois de imensos gastos para proteger os mercados e evitar o colapso econômico total,
  • os Estados liderados por conservadores, liberais e social-democratas começaram a impor o ônus financeiro a suas populações
  • e fizeram tudo o possível para concentrar riqueza para cima, por meio de uma farra de cortes de impostos e privatizações.

A equiparação das contas dos Estados às de uma família passou a ser a conversa política da moda, uma metáfora redutora e falsa que, no entanto, funcionou para justificar todas as tendências da alquimia neoliberal. Com notável agilidade, ideólogos de direita e devotos de Milton Friedman em todo o mundo

  • transformaram com sucesso uma crise do capitalismo financeiro,
  • numa “crise de setores públicos inchados e gastos excessivos dos governos”.

Ainda sentíamos as implicações dessa vitória, quando a pandemia do coronavírus nos atingiu.

Embora todas as crises sejam diferentes entre si, a recessão global que acompanha a Covid-19 já tem ao menos um paralelo imediato com a de 2008–2009. De maneira igualmente abrupta, a atividade econômica, em muitos países, entrou em colapso em uma escala que seria impensável apenas algumas semanas antes. Como Sam Gindin observou em abril, o que aconteceu em seguida representou uma reversão verdadeiramente notável no discurso político dominante.

Ninguém menos que o francês Emmanuel Macron — menino de ouro das reformas neoliberais, que certa vez prometeu reerguer o país transformando-o numa “startup”

  • de repente, passou a defender a medicina socializada e o Estado de bem-estar
  • como “recursos preciosos, vantagens indispensáveis quando o destino colide conosco”.

Bozos de direita,

Por um breve instante, muitos se perguntaram novamente se essa ruptura no consenso político produziria algo novo. A Covid, ao que parecia, havia dilacerado velhos pressupostos políticos e aberto novos horizontes a serem explorados, para melhor ou para pior.

Com as súbitas transferências de renda em dinheiro para os trabalhadores,

  • será que uma direita populista remodelada emergiria, significando o fim do conservadorismo do Estado mínimo?
  • Será que o candidato a presidente do Partido Democrata, um conservador de longa data, se reformaria como um Presidente Roosevelt do século XXI?
  • Com as instituições centrais do próprio capitalismo momentaneamente abaladas em suas bases, outras empresas transformadoras, como uma revolução industrial verde, de repente, viriam a ocupar o mainstream?

Mas bastaram alguns meses após o início da pandemia para que grande parte desta conversa já pareça ridícula.

  • Os governantes, de fato, agiram rapidamente e tomaram medidas extraordinárias para combater a crise.
  • Mas muitos agora parecem igualmente decididos em seu desejo de restaurar o equilíbrio pré-Covid
  • firmes na convicção de que o funcionamento normal do capitalismo é sagrado demais para ser rompido por muito tempo.

A não ser que algo extraordinário aconteça, é quase certo que o relaxamento das quarentenas e a reabertura em fases sejam seguidos de um novo espírito de crise —

  • especialmente, quando os governantes determinarem que o vírus foi contido na medida suficiente
  • para desviar a atenção para suas consequências econômicas.

Se 2009 serve como algum parâmetro, a retórica dos últimos meses — a das medidas extraordinárias, da nostalgia da guerra e da solidariedade social em face do desastre — logo dará lugar a outra.

Será o discurso do realismo político obstinado (com apelos coletivistas substituídos por um léxico de

  • apertar o cinto,
  • escolhas difíceis,
  • “encontrar eficiências”
  • e “viver dentro de nossas possibilidades”).

Em junho, o Banco Mundial projetou

  • “uma contração de mais de 5% da economia global neste ano,
  • com a maior parte das economias entrando em recessão
  • e a renda per capita despencando no maior número de países desde 1870”.

Em julho,

  • o governo dos Estados Unidos registrou seu maior déficit mensal da história.
  • O Canadá projeta seu maior déficit orçamentário desde a Segunda Guerra Mundial,
  • e a mesma dinâmica parece ser a regra em muitas economias.

Embora a causa da crise atual seja reconhecidamente diferente, o simples fato de haver grandes déficits, em conjunto com a pressão dos interesses financeiros, pode ser suficiente para empurrar muitos governos novamente para a ortodoxia e a “austeridade”. Esta última foi a principal razão pela qual as lideranças os governantes buscaram políticas fiscais deflacionárias após o colapso de 2008.

Como escreve Sam Gindin:

Havia uma razão muito concreta pela qual qualquer estímulo econômico era visto de forma tão cautelosa. Para que as economias capitalistas baseadas em financiamento privado funcionem, é essencial ter a confiança das instituições financeiras.

Isso implicava

  • resgatar e consolidar bancos
  • e obrigar outros (os trabalhadores), a pagar por isso — por meio de perda de renda e, se necessário, de empregos.
  • Ou seja, “austeridade” em vez de expansão econômica direta.

E mesmo quando os bancos voltaram a ter bases sólidas,

  • a mesma preocupação de não perturbar a “comunidade” financeira
  • significava que os governos estavam propensos a aceitar os “alertas” da oligarquia financeira,
  • para quem os estímulos levariam à inflação e à erosão dos ativos dos sistemas financeiros.

Essa mesma pressão, ou pelo menos uma versão preliminar dela, já está surgindo.

Como o New York Times noticiou na semana passada,

  • alguns executivos corporativos estão pedindo a Joe Biden
  • que abandone os principais compromissos relacionados a mais impostos para os ricos e mais gastos públicos.

Um destes personagens argumentou, durante um encontro de arrecadação de fundos, que novos programas públicos devem ser combinados com cortes de gastos.

Dada sua história política,

  • é exatamente o tipo de retórica que Biden está preparado para levar a sério
  • e, na ausência de pressão significativa de outra fonte, agir sem pensar duas vezes.

Muitos governos de direita sequer enfrentarão essas possíveis contra-pressões, pois o capitalismo de catástrofe e a obsessão por cortes já estão em seu DNA político. Nos EUA, uma eventual reeleição de Trump, seria pretexto para uma agenda de segundo mandato macabra. Praticamente o mesmo pode ser dito sobre governos liderados por gente como Jair Bolsonaro e Narendra Modi.

Se a história recente nos ensina algo,

  • uma nova e brutal fase da crise pode perfeitamente surgir
  • à medida em que a emergência sanitária seja transformada, gradualmente,
  • num discurso público sobre Estados inchados e gastos governamentais sem limites.

Confirmando o alerta emitido por Naomi Klein em março,

  • a fase mais recente do capitalismo de catástrofe já começou
  • — e se assume a forma de presentes fiscais às corporações e aos super-ricos.

A menos que ocorra uma mobilização política muito bem-sucedida no ano que vem, estamos prestes a ser atingidos por um segundo grande choque.

 

Luke Savage

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LUKE SAVAGE

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