Por Thomas Piketty, no Le Monde Diplomatique, traduzido pelo A Terra é Redonda – 16/10/2020  – Foto: Daqui

Os trilhões emitidos pelos bancos centrais na pandemia irrigaram as elites e os cassinos financeiros. Este “resgate” produzirá desigualdade obscena. Há alternativa: como no pós-guerra, criar dinheiro para o Comum e taxar pesadamente as fortunas

 

Como os Estados enfrentarão o acúmulo de dívidas geradas pela crise da Covid-19?

Muitos já ouvem a resposta:

  • os bancos centrais assumirão em seus balanços uma parcela crescente das dívidas,
  • e tudo será resolvido.

Na verdade, as coisas são mais complexas.

  • O dinheiro faz parte da solução, mas não será suficiente.
  • Mais cedo ou mais tarde, os mais ricos deverão dar sua contribuição.

Recapitulemos.

A criação de dinheiro tomou proporções sem precedentes em 2020.

  • O balanço do Federal Reserve saltou de 4,159 trilhões de dólares em 24 de fevereiro para 7,056 trilhões em 28 de setembro, perto de 3 trilhões de dólares de injeção monetária em sete meses, o que jamais foi visto.
  • O balanço do Eurossistema (a rede de bancos centrais dirigida pelo Banco Central Europeu, BCE) passou de 4,692 trilhões de euros em 28 de fevereiro para 6,705 trilhões em 2 de outubro, uma alta de 2 trilhões.

Em relação ao PIB da zona do euro,

  • o balanço do Eurossistema, que já tinha passado de 10% para 40% do PIB entre 2008 e 2018,
  • saltou para perto de 60% entre fevereiro e outubro de 2020.

Para que todo este dinheiro?

  • Em tempos normais, os bancos centrais contentam-se em conceder empréstimos de curto prazo a fim de garantir a liquidez do sistema.
  • Como as entradas e saídas de dinheiro nos diferentes bancos privados nunca se equilibram exatamente a cada dia,
  • os bancos centrais emprestam por alguns dias somas que os estabelecimentos reembolsam depois.

Após a crise de 2008,

  • os bancos centrais começaram a emprestar dinheiro com prazos cada vez mais longos (algumas semanas, depois alguns meses, ou mesmo vários anos)
  • a fim de tranquilizar os atores financeiros, paralisados com a ideia de seus parceiros de jogo irem à falência.

E havia muito o que fazer, pois, na falta de regulação adequada, o jogo financeiro tornou-se um gigantesco cassino planetário ao longo das últimas décadas.

Todos começaram a emprestar e tomar emprestado numa escala sem precedentes,

  • se bem que o total de ativos e passivos financeiros privados detidos pelos bancos, empresas e famílias ultrapassa hoje 1.000% do PIB nos países ricos (inclusive sem incluir os derivativos),
  • contra 200% nos anos 1970.

O patrimônio real (isto é, o valor líquido dos imóveis e das empresas)

  • também aumentou, passando de 300% para 500% do PIB, mas bem menos intensamente,
  • o que ilustra a financeirização da economia.

De certa forma, os balanços dos bancos centrais apenas seguiram (com atraso) a explosão dos balanços privados, a fim de preservar sua capacidade de ação diante dos mercados.

O novo ativismo dos bancos centrais permitiu-lhes igualmente

  • recomprar uma parte crescente dos títulos da dívida pública,
  • enquanto reduz as taxas de juros para zero.

O BCE já detinha 20% da dívida pública da zona do euro no início de 2020, e poderia possuir perto de 30% daqui até o final do ano. Uma evolução similar ocorre nos Estados Unidos.

Como é pouco provável que o BCE ou o Fed decidam um dia remeter estes títulos aos mercados ou exigir o reembolso deles, poderíamos desde agora decidir não mais contabilizá-los no total das dívidas públicas.

  • Se desejamos inscrever esta garantia no mármore jurídico, o que seria preferível,
  • então isto arriscaria levar um pouco mais de tempo e de debates.

A questão mais importante é a seguinte:

  • devemos continuar neste caminho, e podemos considerar que os bancos centrais detenham no futuro 50% e depois 100% das dívidas públicas,
  • aliviando ainda mais a carga financeira dos Estados?

De um ponto de vista técnico, isto não representaria problema algum. A dificuldade é que,

  • resolvendo a questão das dívidas públicas com uma mão,
  • esta política cria outras dificuldades a mais, especialmente em matéria de crescimento das desigualdades de riquezas.

Na verdade, a orgia da criação monetária e de compra de títulos financeiros

  • leva ao aumento dos preços das ações e imóveis,
  • o que contribui para enriquecer os mais ricos.
  • Para os pequenos poupadores, as taxas de juros nulas ou negativas não são necessariamente uma boa notícia.

Mas,

  • para os que possuem meios de emprestar a baixas taxas
  • e que dispõem de competência financeira, legal e fiscal permitindo encontrar os investimentos corretos,
  • é possível obter excelentes rendimentos.

Segundo a revista Challenges,

  •  as 500 maiores fortunas francesas
  • passaram de 210 a 730 bilhões de euros entre 2010 e 2020 (de 10% para 30% do PIB).
  • Uma tal evolução é social e politicamente insustentável.

 

Seria diferente se a criação monetária,

  • no lugar de alimentar a bolha financeira,
  • fosse mobilizada para financiar um verdadeiro impulso social e ecológico,
  • isto é, assumindo uma forte criação de empregos e aumentos salariais nos hospitais,
  • nas escolas, na renovação térmica, nos serviços locais.

Isto permitiria aliviar a dívida ao mesmo tempo em que se reduzem as desigualdades, investindo nos setores úteis para o futuro e deslocando a inflação dos preços dos ativos para os salários e para os bens e serviços.

Para tanto, não seria o caso de uma solução milagrosa.

  • Assim que a inflação retornasse novamente a níveis substanciais (de 3% a 4% ao ano),
  • seria necessário atenuar a criação monetária e regressar à arma fiscal.

Toda a história das dívidas públicas mostram: o dinheiro sozinho não pode oferecer uma solução pacífica para um problema desta magnitude, pois, de um modo ou de outro, envolve consequências distributivas descontroladas. Foi recorrendo a taxas excepcionais sobre os mais ricos que as grandes dívidas públicas do período pós-guerra foram extintas, e que o pacto social e produtivo das décadas seguintes foi reconstruído. Vamos apostar que o mesmo se passará no futuro.

Thomas Piketty

 é diretor de pesquisas na École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor na Paris School of Economics. Autor, entre outros livros, de O capital no século