Brasil: a crise da nossa civilização

 

Uma tentativa de visão aprofundada da atual gravíssima crise brasileira cujas raízes são antiga, mas que só com este governo pôde mostrar o que realmente é. E os governos do PT, pelas suas alianças espúrias, também não aparecem como inocentes.

 

Flávio Lazzarin – 13/10/2020 – Brasil em chamas. Foto: Daqui

“Estamos mais uma vez diante da incapacidade de qualquer autocrítica e da reconstrução deformada do passado de Lula e Dilma, como se sua gestão não se caracterizasse pela aliança com o centro-direita e com as elites empresariais, bancárias, de mineração e do agronegócio”, escreve Flavio Lazzarin, padre Fidei Donum, que atua no Maranhão e na Direção Nacional da CPT, publicado por Settimana News, 10-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo ele, “o genocídio de povos indígenas e camponeses não é novo. O desastre ecológico dos biomas brasileiros não é novo. Novo, ou renovado, é o discurso despudorado e desumano, que raramente ousava se manifestar. Mas me parece evidente que a batalha não pode ser travada no plano dos discursos, das narrativas. Combate-se apenas no plano da verdade dos fatos. E o fato incontestável é a crise da nossa civilização. Disso deveria partir todo projeto político”.

 

Eis o artigo.

Giorgio Agamben escrevia sobre Guy Debord e sobre cinema quando fez uma observação que me levou a pensar. O filósofo mencionava a diferença de objetivos do cinema e do noticiário.

  • Em tempos em que as portas do futuro parecem fechadas,
  • muitos estão ressuscitando o passado mais trágico e insano
  • e o cinema poderia fazer o contrário do que fazem os nostálgicos do terror.

Poderia favorecer uma memória que restitua, a partir das vítimas e dos derrotados do passado, a possibilidade de refazer a história.

  • E pode fazer o contrário dos jornais e dos noticiários da televisão,
  • cujo objetivo é nos confinar ao presente, apagar e deturpar a memória e propiciar ressentimentos estéreis.
  • Os jornais nos oferecem os fatos, mas diante de cada notícia nos vemos impotentes,
  • porque o poder da mídia consiste justamente em promover o telespectador desmemoriado, indignado e impotente.

Uma longa premissa para dizer que não me sinto à vontade quando sou convidado a comentar sobre a atualidade, acompanhando os noticiários e as redes sociais.

A Amazônia já está queimando há tempo

  • Hoje, ganham manchetes os incêndios na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal, num Brasil cada vez mais inimigo da Terra e da vida.
  • Hoje, ganham manchete as mentiras descaradas dos líderes políticos americanos
  • e as reações pontuais, indignadas e impotentes daqueles que acreditam que pode ser suficiente manifestar dissenso em relação a Trump e Bolsonaro.

E, ao fazer isso, esquecemos que

  • um profundo discernimento seria necessário para desmascarar supostas virgindades políticas e religiosas
  • que nos requalificam, a baixo custo, como seres humanos éticos e solidários apenas porque nos opomos à nova direita mundial.

Nesse presentismo, inoculado pela mídia,

  • corremos o risco de ser figurantes da democracia como farsa,
  • em que regimes e oposições se associam para discordar nos detalhes
  • e, ao mesmo tempo, para aceitar a gestão capitalista do planeta como natural e indiscutível.

Um exemplo que sintetiza essas atitudes políticas, generalizadas na Europa e na América, é dado pela reportagem publicada no Poder 360 (29 de setembro), na qual José Dirceu escreve que o Partido dos Trabalhadores (PT) deve mudar e a esquerda deve se atualizar.

No entanto,

  • permanecemos desapontados
  • com as limitações da análise, das perspectivas e das estratégias políticas.

Relembrar e reagir politicamente

Estamos mais uma vez diante da incapacidade de qualquer autocrítica e da reconstrução deformada do passado de Lula e Dilma,

como se

  • sua gestão não se caracterizasse pela aliança  com o centro-direita
  • e com as elites empresariais, bancárias, de mineração e do agronegócio.

Como se

  • a transposição do rio São Francisco,
  • as hidrelétricas faraônicas de Belo Monte, Estreito, Jirau, Santo Antônio
  • Olimpíadas e Campeonato Mundial de Futebol
  • Programa Matopiba (conjunto maléfico de projetos que acaba por cancelar definitivamente o cerrado brasileiro do mapa dos biomas)

não fossem iniciativas decididas contra a vida dos indígenas, das comunidades tradicionais, das periferias urbanas, dos pequenos e dos pobres de Jesus

Para reagir de forma adequada é necessário refrescar a memória.

Descobriríamos que

  • as atrocidades reveladas pelos discursos e turpilóquios do atual governo
  • revelam com clareza o que sempre aconteceu,
  • mas que permanecia elegantemente maquiado pelas liturgias do poder.

O genocídio de povos indígenas e camponeses não é novo. O desastre ecológico dos biomas brasileiros não é novo. Novo, ou renovado, é o discurso despudorado e desumano, que raramente ousava se manifestar.

Mas me parece evidente que

  • a batalha não pode ser travada no plano dos discursos, das narrativas.
  • Combate-se apenas no plano da verdade dos fatos.
  • E o fato incontestável é a crise da nossa civilização.

Disso deveria partir todo projeto político. O que parece impossível mesmo neste Brasil, às vésperas das eleições municipais, admirável síntese da coação à repetição, que prenuncia as repetições que se esperam para 2022, ano das eleições presidenciais.

 

As armadilhas de uma fé alicerçada na promessa e a emergência da opção pelos pobres. Entrevista especial com Flavio Lazzarin - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

1 comment to Brasil: a crise da nossa civilização

  • Antonio Tavares

    Do que li parece que o autor defende o abandono da economia de mercado. Se alguma vez tal acontecer, o Brasil vai tornar-se na nova Venezuela. Do meu ponto de vista, o PT fez muito bem em respeitar a economia de mercado, pois só ela pode gerar prosperidade e bem estar econômico. O que falta é regular os mercados e é nessa tarefa que deve ser colocado o enfoque de quem governa.

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