Nada de Novo. Tudo Novo

 

ARMAZÉM DE TEXTO: TEXTO: O MUNDO PARA TODOS - CRISTOVAM BUARQUE - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO Frei Bento Domingues, O.P., 11 outubro 2020

A nova encíclica de Bergoglio é um grito brutal. Quanto ao seu poder mobilizador, é o que ainda não sabemos.

 Entre o desejo e o que vai acontecer, só o tempo o poderá testemunhar. Perante o mundo em que vivemos, é mesmo de uma coragem ilimitada.

 

 

  1. Pode parecer estranho, mas a questão política tornou-se inseparável da fidelidade à memória cristã mais antiga.

Creio que foi de um de poeta brasileiro que li, há muito anos, uma brevíssima narrativa sobre a insuportável visão de um crucificado. Manuel Bandeira nunca podia entrar em casa sem dar com os olhos nesse horror.

Teve, várias vezes, a tentação de descrucificar aquela imagem. No momento em que ia executar esse gesto libertador, recuou:

  • enquanto houver vidas humanas crucificadas,
  • não posso arrancar da cruz a vítima inocente, condenada por uma coligação dos poderes de dominação das nações gentias e dos povos de Israel,
  • executada com declarado apoio popular.

É assim que se lê nos livros mais santos da humanidade [1].

Por outro lado, segundo S. Paulo,

  • foi também, desde o começo do movimento cristão, que se tentou eliminar essa memória vergonhosa.
  • Era, com efeito, uma estupidez e uma loucura, tanto para a cultura grega como para a cultura judaica, no seio do império romano,
  • apresentar como salvador um crucificado, um derrotado, um anti-herói, um condenado à pena de morte mais horrorosa.

Não podia ser essa a imagem de um caminho novo para o sentido da vida verdadeira.

Foi, no entanto, o próprio Paulo que

  • recusou, da forma mais radical, a eliminação dessa imagem desprestigiosa e insólita, na proposta de identidade do caminho cristão:
  • “Não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado.” [2]

Aqui, importa afastar alguns equívocos:

  • a cruz está inscrita no coração da fé, não como apologia perversa do sofrimento,
  • mas como protesto contra o sofrimento dos inocentes, das vítimas dos poderes económicos, religiosos, sociais, políticos, militares
  • e, sobretudo, do vasto mundo da indiferença, mesmo no coração das famílias.

O amor do sofrimento é doença; sofrer por causa da libertação dos oprimidos e excluídos e na luta contra a solidão e pobreza impostas é o mais belo fruto da gratuidade do amor. É fonte de alegria.

As imagens do crucificado

  • banalizaram-se de tal maneira que, hoje, servem para adornar o esquecimento das vítimas.
  • Quando a sua função autêntica deve ser a de não apagar a memória do sofrimento da história humana.
  • Essas imagens só são autênticas como símbolo operante de todos os muros a abater, fazendo de todos os povos, na sua irrenunciável diferença, um só povo resgatado do ódio, da inimizade [3].

Por essa razão, a mística cristã não pode ser uma mística de olhos fechados.

  • É uma mística de olhos muito abertos para todas as manifestações de beleza e de amor,
  • sem nunca poder esquecer aqueles a quem foi roubada toda a esperança.
  • É uma mística militante.

 

 

  1. Para lá do ruído dos noticiários nacionais e internacionais, o acontecimento mais marcante da semana passada foi a assinatura da Encíclica Fratelli Tutti.

Marcelo Rebelo de Sousa (Presidente de Portugal – NdR) escreveu um texto exclusivo para o 7Margens, uma brevíssima síntese desse documento.

  • Qualifica-o como um grito brutal
  • e, ao mesmo tempo, a expressão de um poder mobilizador como nenhum dos sucessivos documentos do Papa Francisco.

Não há dúvida de que é um grito brutal. Quanto ao seu poder mobilizador, é o que ainda não sabemos. Entre o desejo e o que vai acontecer, só o tempo o poderá testemunhar. Perante o mundo em que vivemos, é mesmo de uma coragem ilimitada.

Apresenta-se como uma denúncia 

  • das misérias,
  • das injustiças,
  • das prepotências,
  • dos egoísmos,
  • dos isolacionismos,
  • das explorações,
  • dos individualismos desumanizadores,
  • dos populismos fechados e redutores,
  • das barreiras intoleráveis aos direitos das pessoas e dos povos, às migrações,
  • da incompreensão do mundo do trabalho e dos trabalhadores.

É um apelo à esperança e à luta

  • pela paz contra a guerra,
  • pelo diálogo contra o monólogo,
  • pela globalização com alma contra a globalização dos interesses e dos poderosos,
  • pela convergência entre religiões contra o choque entre culturas e civilizações [4].

No título desta crónica — Nada de novo. Tudo novo — segui a própria declaração do Papa Francisco:

“As questões relacionadas com a fraternidade e a amizade social sempre estiveram entre as minhas preocupações. A elas me referi repetidamente nos últimos anos e em vários lugares. Nesta encíclica, quis reunir muitas dessas intervenções, situando-as num contexto mais amplo de reflexão. Além disso,

  • se na redacção da ‘Laudato si’ tive uma fonte de inspiração no meu irmão Bartolomeu, o Patriarca ortodoxo que propunha com grande vigor o cuidado da criação,
  • agora senti-me especialmente estimulado pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, com quem me encontrei, em Abu Dhabi, para lembrar que Deus ‘criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irmãos’.

Não se tratou de mero acto diplomático, mas duma reflexão feita em diálogo e dum compromisso conjunto.

Esta encíclica reúne e desenvolve grandes temas expostos naquele documento que assinamos juntos. E aqui, na minha linguagem própria, acolhi também numerosas cartas e documentos com reflexões que recebi de tantas pessoas e grupos de todo o mundo.” [5]

 

  1. Para quem segue, com cuidado, o itinerário do Papa Francisco, pode dizer que não há nada de novo nesta encíclica. Seria, no entanto, uma visão superficial, apressada. Também não posso imaginar as surpresas que a sua actuação futura nos vai trazer. Não considero que seja este o último testamento deste pontificado.

A sensação, ao meditar este documento, foi a de uma narrativa em que tudo me parecia novo. Não era a primeira vez que me surpreendia a sua capacidade de construir uma teologia de correlações surpreendentes entre os textos bíblicos e as realidades actuais, que mutuamente se iluminam.

Este longo texto é o exercício continuado dessa luminosa correlação. Deve tornar-se o modelo inspirador para os padres que, por preguiça, repetem os textos bíblicos, que publicamente acabaram de ser proclamados, sem que dessa pregação brote a voz nova do espírito de Cristo para iluminar a vida concreta dos cristãos e não cristãos. Sem esse acontecimento, as homilias são uma seca.

Por essa razão, a desgraça que pode acontecer a esta encíclica é que se torne moda repetir: “Como diz o Papa Francisco…” Ora, o que interessa é que este texto provoque

  • novos textos,
  • novas intervenções,
  • novas análises,
  • novos estudos,
  • novas investigações
  • e, sobretudo, novas práticas sociais, culturais, económicas e políticas.

Muitas vezes escrevi que era preciso um novo concílio ecuménico. Ao observar o panorama eclesial, desisti.

Agora, bem desejava que esta encíclica se tornasse o instrumento de trabalho para esse desejado Acontecimento.

 

NOTAS:

[1] Act 4,2-29

[2] 1Cor 2,2

[3] Cf. Ef 2

[4] Cf. 7Margens, 2020.10.05

[5] Fratelli Tutti, nº 5

 

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Frei Bento Domingues. O.P.

 

Fonte: https://www.publico.pt/2020/10/11/opiniao/opiniao/nada-novo-novo-1934454

 

 

 

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