Igrejas neopentecostais ameaçam democracia na América Latina

OPINIÃO

    

O bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, de joelhos

José Ospina – 10-02-2018 

Foto: O bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, de joelhos / – Fernando Gabeira / Folhapress

Poder crescente de seitas evangélicas e partidos políticos “moralizadores” colocam as democracias latino-americanas à prova. Um país onde se fundam mais facções religiosas que escolas, como a Colômbia, pode avançar? Artigo de 2018, mas perfeitamente atual

 

A luta das igrejas neopentecostais na América Latina é uma luta pelos pobres:

  • por sua consciência,
  • por suas carteiras
  • e por seus votos.

Seu êxito se deve também ao fracasso da Igreja católica em atender às necessidades de milhões que buscam apoio num mundo cada vez mais fustrante e sem aparente futuro.

  • E a história de abusos sexuais do dogma católico
  • deixou, além disso,  um rastro de repúdio em vários países
  • e contribuiu para a erosão de um poder passado.

Assim, os mais necessitados são recrutados por pastores protestantes

  • que se autodenominam “cristãos”
  • e que, com frequência, têm mais espírito comercial que religioso.

Apesar de o movimento pentecostal ter sido criado em 1906 nos Estados Unidos,

  • são as novas seitas e igrejas fundadas na mesma América Latina
  • as responsáveis pelo auge que ameaça não somente a supremacia da Igreja católica como os princípios democráticos.

Um movimento que parece germinar especialmente no Brasil, na Colômbia, no México, no Peru, na República Dominicana e na Venezuela.

No Brasil, haveria 42,3 milhões de fieis, equivalentes a 22,2% da população. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cada ano abrem no país 14 mil novas igrejas neopentecostais.

  • Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, considerado pela revista Forbes “o pastor mais rico do Brasil”,
  • é proprietário da Record, a segunda rede de televisão mais importante do país.
  • Seu tema favorito: a moral.

O caso da Costa Rica é exemplar:

  • bastou que o pastor e cantor Fabricio Alvarado, candidato à presidência,
  • rechaçasse vociferante o chamado da Corte Interamericana de Direitos Humanos para respeitar os direitos da comunidade LGBTI
  • para que ganhasse o primeiro turno da eleição.

Na Venezuela, por seu lado,

  • milhões não viram outra saída
  • senão refugiar-se em igrejas com nomes como “Pare de sofrer”.

Já a Guatemala é governada por um humorista e pastor evangélico, Jimmy Morales,

  • que é contra o aborto,
  • recusa o casamento homoafetivo
  • e tem mais receitas contra as minorias do que soluções para a corrupção galopante.

Por todo o continente,

  • há também “casos de superação” de pastores que saíram da pobreza abrindo uma igreja em garagens
  • e que rapidamente se transformam num “exemplo de êxito”
  • com estrambóticos templos e um poder econômico e político inusitados.

O caso de María Piraquive,

  • que deixou de ser costureira num bairro operário de Bogotá,
  • e que com sua Igreja de Deus Ministerial de Jesus Cristo Internacional (Idmji)
  • construiu, desde 1972, um império multimilionário com propriedades em vários países,
  • e a criação de um partido político, são símbolos desse ímpeto.

Hoje, a igreja de Piraquive tem cerca de mil sedes em mais de 50 países e até representações em sete Estados federados da Alemanha.

 

É assustador é que muitos desses pastores tenham tanto êxito com ideias excludentes e um discurso de ódio.

Em suas pregações, Piraquive descarta que pessoas com deficiência física possam assumir a veiculação da “palavra de Deus”.

Uma postura discriminatória em todos os países latinoamericanos, que, pelas suas Constituições, se definem como

  • pluralistas e laicos,
  • fundados sobre o respeito e a dignidade humana,
  • e garantidores da liberdade de expressão e de culto.

Paradoxalmente,

  • apesar de essas sociedades terem avançado cultural e economicamente, também graças ao princípio liberal e protestante de que “os pensamentos são livres”,
  • o movimento neopentecostal ataca o Estado de opinião.

O radicalismo de suas ideias contra as conquistas dessas sociedades abertas, como

  • a abolição da pena de morte,
  • a autodeterminação da mulher
  • e o respeito aos direitos das minorias
  • é difamado como uma suposta “ideologia de gênero”que pretende destruir a família e a moral.

Seus votos fizeram pesar a balança para o lado da recusa do acordo de paz na Colômbia em 2016.

  • Acabar com uma guerra fratricida para salvar vidas
  • pareceu pesar menos que o princípio de retaliação “olho por olho, dente por dente”.

E, enquanto

  • as escolas e universidades na América Latina têm de pagar impostos prediais,
  • as igrejas estão isentas de qualquer contribuição, pelo menos na Colômbia,
  • onde até 2017 havia 750 colégios públicos – contra 3.500 igrejas neopentecostais.

A recepção diária de dízimos

  • forma a base do poder econômico,
  • convertido em poder político,
  • que, graças a uma agenda moralizadora,
  • está conquistando a política na América Latina.

O teólogo alemão e pastor luterano Thomas Gandow adverte que muitos pregadores neopentecostais atentam contra o espírito do mesmo protestantismo que defendem, que não pode ser expressado com fanatismo, “porque o espírito do protesto não pode ser outro senão o da liberdade”.

O resto é retrocesso.

 

José Ospina-Valencia (@JoseOspinaV) | Twitter

 

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José Ospina-Valencia,  é jornalista da redação da DW em espanhol.

Fonte:  https://www.dw.com/pt-br/opinioes-igrejas-neopentecostais-ameacam-democracia-na-america-latina/a-42511616

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