OS PRAZERES DA COMIDA E DO SEXO: “DIVINOS”

 

O Papa Francisco

 Anselmo Borges – 26 de Setembro de 2020 – Foto: Vaz Pinto/AFP 

Santo Agostinho, a partir de uma experiência pessoal negativa da sexualidade e de uma exegese errada   apresentou como solução para o problema do mal a doutrina do pecado original, embora os Evangelhos não falem dele. E contaminou a moral e a espiritualidade cristãs com os erros da Metafísica e da Antropologia de Platão.

 

1. Quando se fala da Igreja e do sexo, entra-se numa história muito complexa e pouco edificante.

Significativamente, não é com a Bíblia que há dificuldades. De facto, no Antigo Testamento, lê-se, logo no primeiro livro, o Génesis, que Deus criou também a sexualidade e viu que era boa. Do mesmo Antigo Testamento faz parte um dos livros mais belos a cantar o amor erótico: o Cântico dos Cânticos.

Já no Novo Testamento, Jesus raramente se referiu ao sexo, aliás nunca por iniciativa própria, mas para responder a perguntas que lhe foram feitas a propósito do divórcio e para defender a mulher.

Factor decisivo para o envenenamento da relação foi a gnose, a primeira grande heresia com que o cristianismo teve de confrontar-se e que, desgraçadamente, não terminou.

Segundo a gnose ou gnosticismo,

  • a salvação não se alcança pela fé,
  • mas pelo conhecimento, que é secreto e, em última análise, acessível apenas aos iniciados.

Elemento essencial desta doutrina é que o Deus do Antigo Testamento, que é o criador do mundo, não é o mesmo que o Pai de Jesus Cristo.

  • Este mundo, que é o mundo material,
  • procede de uma queda e é mau.

Os membros desta heresia insistiam concretamente, na continuação do platonismo,

  • num dualismo radical de alma e corpo, matéria e espírito,
  • sendo o corpo apenas uma espécie de “contentor” da alma:
  • necessário, mas sempre inferior e indesejável.

A gnose pretendia essencialmente explicar a existência do mal no mundo.

O maniqueísmo situa-se neste mesmo quadro de compreensão,

  • distinguindo no fundamento de tudo um duplo princípio,
  • um princípio do bem e um princípio do mal; a História é uma luta entre estes dois princípios, com a esperança do triunfo final do Bem.

 

Ética Cristã (Medieval)

Agostinho e Platão: A Contaminação do cristianismo pelo neo-platônico Agostinho. Foto: Daqui

 

Santo Agostinho era maniqueu, mas, ao tornar-se cristão, teve de abandonar o maniqueísmo, pois, segundo o cristianismo,

  • Deus é o único princípio e fundamento de tudo e tudo fez bem.
  • Ficava um problema gigantesco: como explicar o mal no mundo, se Deus é bom?

Santo Agostinho,

  • a partir de uma experiência pessoal negativa da sexualidade
  • e de uma exegese errada — ele não sabia grego e, por isso, seguiu a tradução latina de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo V, versículo 12:
  • Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz “porque” todos pecaram —,
  • apresentou como solução para o problema do mal a doutrina do pecado original, embora os Evangelhos não falem dele.

 

O que é facto é que, com esta doutrina,

  • Santo Agostinho, que é, por outro lado, um dos maiores génios da Humanidade,
  • envenenou a sexualidade e tudo quanto de um modo ou outro com ela se relaciona.

De facto, esse pecado foi entendido

não como o primeiro de todos os pecados, porque todos os seres humanos são pecadores, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.

  • A lei do celibato obrigatório para o clero e sobretudo a misoginia têm também aqui assento.
  • As mulheres são, por um lado, fonte da tentação e, por outro, devem ter filhos, mas sabendo que durante nove meses transportam consigo o pecado.
  • A confissão dos pecados ficou quase exclusivamente centrada no sexo, de tal modo que o confessionário em vez de ser o lugar da libertação se transformou na realidade em câmara de tortura.

Segundo o historiador Guy Bechtel na sua obra A carne, o diabo e o confessor, desde o século XVIII muitos terão iniciado o abandono da Igreja, precisamente

  • porque a confissão, patologicamente centrada no pecado sexual, esmiuçado até à exaustão,
  • começou a ser sentida como invasão indevida da intimidade de cada um,
  • ferindo inclusivamente os direitos humanos, de que se começava a ter uma consciência mais viva.

 

3. Foi neste contexto que provocaram a merecida atenção da opinião pública mundial declarações do Papa Francisco sobre o tema do prazer da comida e do sexo, que vem de Deus, feitas a Carlo Petrini, um jornalista e gastrónomo italiano, e publicadas recentemente no seu livro Terrafutura. Dialoghi con Papa Francesco sull’ecologia integrale (Terra futura. Diálogos com o Papa Francisco sobre a ecologia integral).

 

Papa e Carlo Petrini. Foto: Daqui

O jornalista provocou o Papa, dizendo-lhe que

– “a Igreja católica sempre anulou o prazer, como se fosse algo a evitar”.

Francisco não está de acordo e respondeu que

– “a Igreja condenou os prazeres desumanos, grosseiros e vulgares, mas sempre aceitou os prazeres humanos, sóbrios, morais”.

Francisco opõe-se a

–  “uma moralidade beata, fanática”, que rejeita o prazer.

Essa rejeição existiu na história da Igreja, mas constitui

– “uma má interpretação da mensagem cristã” e “causou enormes danos, que ainda hoje se fazem sentir fortemente em alguns casos.”

E, para que não houvesse equívocos, declarou textualmente:

  • “O prazer vem directamente de Deus. Não é católico, não é cristão ou outra coisa, é simplesmente divino.
  • O prazer de comer serve para que ao comer se mantenha uma boa saúde, tal como o prazer sexual existe para tornar o amor mais belo e garantir a continuação da espécie.”

 

4. Não nos vivemos dualisticamente: de um lado o corpo, do outro a alma; mesmo se em tensão, o ser humano é uma unidade corpóreo-espiritual.

Dada a complexidade do Homem,

  • que pode até levar a confundir a felicidade com a soma de prazeres e a anomia,
  • não é fácil levar uma vida humana na dignidade livre e na liberdade com dignidade para todos.
  • Mas saúda-se a intervenção de Francisco, abençoando o prazer, que não pode ser nem tabu nem ídolo, um deus falso e enganador. “Simplesmente divino”.

 

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Anselmo Borges

Fonte: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/26-set-2020/os-prazeres-da-comida-e-do-sexo-divinos–12755950.html?target=conteudo_fechado

 

 

 

1 comment to OS PRAZERES DA COMIDA E DO SEXO: “DIVINOS”

  • Eduardo Hoornaert - Salvador, BA

    Vale a pena divulgar esse texto de Anselmo Borges entre os padres casados, pois nós também pouco falamos do prazer sexual. Embora não concorde com a tradução ‘branda’ de Rm 5,12 (consultei o texto grego de Paulo, que realmente é um problema), mas concordo plenamente com a leitura geral de Anselmo Borges. Um texto a figurar entre os mais importantes do próximo encontro nacional em Salvador penso. Que papa! A cada dia cresce! Obrigado por repassar, João!

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