Após polêmicas, a era dos padres pop pode ter chegado ao fim

Sacerdotes com trajetória artística padeceram em consequência da fama estrondosa e de conflitos emocionais
Jeff Benício – 9 SET2020  –  Foto: Sala de TV
Sacerdotes com trajetória artística padeceram em consequência da fama estrondosa e de conflitos emocionais.
Superexposição midiática de religiosos gerou depressão, suspeita de enriquecimento ilícito e contestação do papel sacerdotal.

Na série The Young Popee em sua continuaçãoThe New Pope, da HBO, o papa Pio 13 (Jude Law) é um superstar da fé. Mais famoso e idolatrado do que qualquer cantor de rock ou estrela de cinema. Indisfarçavelmente narcisista, ele gosta do culto à sua imagem.

Já seu sucessor, o deprimido João Paulo III (John Malkovich), prefere manter distância dos holofotes. A pressão midiática sobre ele é tão sufocante que resulta em sua abdicação ao trono de São Pedro. Qualquer semelhança entre o popular papa Francisco e o introspectivo papa emérito Bento 16 não é mera coincidência.

A um católico tradicional, as duas produções causam choque, talvez até indignação.

A ficção a respeito dos bastidores do Vaticano mostra um mundo odioso:

  • disputas por dinheiro e poder,
  • sexualidade e luxúria entre os homens que juraram castidade e celibato,
  • domínio da vaidade sobre a pretendida humildade,
  • acobertamento de pecados e crimes,
  • menosprezo às mulheres que servem à cúpula da Igreja.

Na vida real, que às vezes supera a ficção em sordidez,

  • um pouco daquele universo chocante no entorno dos papas
  • pode ser vislumbrado nas acusações contra o padre Robson de Oliveira, do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, de Trindade (GO).

Nacionalmente famoso graças a seu programa diário na Rede Vida,

  • ele está no centro de uma investigação de vários crimes
  • — apropriação indébita, falsificação de documentos, sonegação fiscal, associação criminosa e lavagem de dinheiro —
  •  que teriam sido cometidos a partir do desvio milionário de doações de fiéis ao longo de anos.

O escândalo não está restrito ao pecado da ganância.

  • Um hacker pago com dinheiro arrecadado na igreja sob a liderança do padre Robson
  • para não divulgar conteúdo impróprio a respeito da intimidade do líder religioso disse ter sido amante dele
  • e apontou outros supostos casos amorosos.

A repercussão de tantas denúncias graves teve repercussão bombástica na imprensa, nas redes sociais e entre devotos. O ápice da exposição negativa aconteceu em matéria de 19 minutos na edição de 23 de agosto do Fantástico, na Globo. O religioso e seus advogados negam qualquer ato ilegal.

Culpado ou não, o estrago à imagem de Padre Robson é irreversível.

Esse vexame à Igreja Católica tem potencial para encerrar a era dos padres pop.

  • Sempre existiram líderes com atuação artística e forte presença na mídia, a exemplo do precursor padre Zezinho, hoje com 79 anos, ainda circulando por TVs e rádios.
  • Mas o status de superstar da fé foi lançado por Marcelo Rossi na década de 1990.

O ‘boca a boca’ a respeito de suas missas dinâmicas o levou aos programas de Gugu Liberato e Faustão. Sucesso imediato.

  • A televisão transformou o padre do hit ‘Erguei as Mãos’ em ídolo de milhões de pessoas, inclusive de outras religiões.
  • Ele se tornou uma máquina de dinheiro com a venda de CDs, DVDs e livros.

A veneração à sua personalidade gerou extensa investigação do Vaticano.

  • Havia na cúpula do catolicismo certo incômodo com a espetacularização em torno de Marcelo Rossi
  • e a sombra que seu exibicionismo involuntário fazia sobre a liturgia.

Vítima do próprio êxito, o padre de sorriso contagiante desenvolveu depressão profunda.

  • Precisou renunciar ao espaço cativo diante das câmeras.
  • Despiu-se da imagem de ‘showman’ de Cristo para buscar a reconexão consigo mesmo e com sua missão evangelizadora.
  • Hoje, faz raras aparições na TV. Dedica-se aos livros.
  • Em alguns deles relatou o inferno vivido nos anos de falsa felicidade.

Igualmente elevado à condição de popstar,

  • padre Fabio de Melo se fez influenciador digital e prolífico produtor de memes.
  • Belo e carismático, virou galã aos olhos das telespectadoras.
  • Da TV Canção Nova passou a aparecer nos principais programas do País. Era um ímã de audiência.

Contudo, em algum momento, uma desordem emocional o levou ao fundo do poço.

  • O quadro depressivo foi tão forte que fez o sacerdote pesquisar métodos de suicídio.
  • Afastou-se dos palcos e estúdios de TV.
  • Buscou ajuda médica para tratar a mente e recuperar o amor pela vida.
  • Continua ativo nas redes sociais, porém com grau de exposição menor.

Importante destacar que

  • Marcelo Rossi e Fabio de Melo nunca foram acusados de nenhuma atitude ilícita,
  • como acontece com Robson de Oliveira.
  • A única falha foi, talvez, contra a própria saúde mental.

Ambos conheceram as delícias e as dores do status de celebridade:

  • foram amados e respeitados por muitos,
  • criticados e desprezados por tantos outros.

A mesma experiência ambígua (baseada em elogios e fofocas, respeitabilidade e invasão de privacidade) marcou os também padres midiáticos Reginaldo Manzotti (TV Evangelizar) e Alessandro Campos (ex-TV Aparecida e RedeTV!, atualmente na Rede Vida).

A visibilidade exagerada sempre cobra um preço alto, às vezes impagável. Nem os ungidos de Deus escapam dessa pressão. Por isso, após episódios angustiantes, a maioria dos padres pop decidiu se recolher ou diminuir a exposição pública. O surgimento de novo fenômeno do gênero na base da Igreja Católica brasileira fica cada vez mais improvável.

 

Blogueiro Jeff Benício

Jeff Benício

Fonte: https://www.terra.com.br/diversao/tv/blog-sala-de-tv/apos-polemicas-a-era-dos-padres-pop-pode-ter-chegado-ao-fim,6623685a967340c92aa68e6b7aee31866p8bi1sq.html

 

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