A MULHER NA VIDA DA IGREJA – PONTOS DE REFLEXÃO !

Devido ao problema de dificuldade de de acesso ao nosso Site, de 22 de agosto até hoje, republicamos este artigo de Almir Simões
A mulher não é uma pessoa de segunda classe como pensaram alguns filósofos. Tem direitos e deveres iguais. As diferenças de gênero , físicas e psíquicas , existem para que haja complementariedade e não exclusão.
Jesus enfrentou fariseus e doutores da Lei por ser contra todo tipo de discriminação, marginalização e preconceito.
Foi odiado por ter perdoado a mulher adúltera que eles queriam matar à pedradas…
Até os discípulos ficaram admirados ou melhor escandalizados quando o viram conversando com uma mulher samaritana

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1 – Todos nós somos filhos do tempo em que vivemos e por isso as pessoas mais idosas , com raras exceções , carregam valores e costumes do passado e tem dificuldade de se atualizar. Frequentemente elas dizem : “ No meu tempo não era assim”
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A cultura machista judaica influenciou profundamente a sociedade e também a tradição da igreja católica. Criou raízes que perduram até hoje. Gerou um script de vida , normas e disciplinas institucionais das quais não conseguimos nos desvencilhar.
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Em pleno sec. XXI ainda existem na igreja vestígios do pensamento dos Concílios de Niceia ( 325 ) e de Trento    (1542). A ordenação sacerdotal de mulheres ainda se constitui um tabu , apesar da abertura do santo papa João XXIII e as diversas intervenções do Concilio Ecumênico Vaticano II explicitadas em sua mensagem final :
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« Mas a hora vem, a hora chegou, em que a vocação da mulher se realiza em plenitude, a hora em que a mulher adquire no mundo uma influência, um alcance, um poder jamais alcançados até agora. Por isso, no momento em que a humanidade conhece uma mudança tão profunda, as mulheres iluminadas do espírito do Evangelho tanto podem ajudar para que a humanidade não decaia »( AAS 58 (1966), p. 13-14 ).
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2 – O papa Paulo VI interpretou este «sinal dos tempos»,

  • conferindo o título de Doutora da Igreja à Santa Teresa de Jesus e à Santa Catarina de Sena
  • e instituiu, além disso, a pedido da Assembléia do Sínodo dos Bispos em 1971, uma Comissão especial cuja finalidade era estudar os problemas contemporâneos concernentes à «promoção efetiva da dignidade e da responsabilidade das mulheres».

Num de seus discursos, declarou, entre outras coisas

  • «No cristianismo, de fato, mais que em qualquer outra religião, a mulher tem, desde as origens, um estatuto especial de dignidade, do qual o Novo Testamento nos atesta não poucos e não pequenos aspectos …
  • aparece com evidência que a mulher é destinada a fazer parte da estrutura viva e operante do cristianismo de modo tão relevante, que talvez ainda não tenham sido enucleadas todas as suas virtualidades» .

 

3 – O santo padre João Paulo II escreveu uma brilhante Encíclica sobre a Dignidade das Mulheres (Mulieris Dignitatem). Ele afirma que

“o fato de ser homem ou mulher não existe diferença essencial e não comporta nenhuma limitação”...

Mas o seu pontificado na prática foi um verdadeiro paradoxo ! O missionário itinerante que encantava multidões governou a igreja com mãos de ferro.

  • Ele não realizou internamente as mudanças pastorais ,
  • exigências do mundo moderno e da missionaridade que tão bem escreveu na sua carta.

Ao contrário , com ele e o papa Bento XVI ,

  • houve um aumento de bispos conservadores ,
  • retrocesso na formação dos clérigos sem a devida importância aos Documentos do Vat II
  • e um acerbamento da autocracia e da disciplina eclesiástica.

Seus pontificados foram marcados pela chamada “grande disciplina” na expressão do teólogo brasileiro João Batista Libânio.

A igreja , ao invés de aculturar-se , modificar pastoralmente o seu “jeito de ser” , conforme D. Pedro Casaldáliga , adaptando-se às diversas realidades , ficou mais e mais verticalizada. O teólogo José Comblin qualificou o período destes pontificados de “noite escura”e Karl Rahner de “igreja invernal”– um longo e frio inverno… e ao nosso Leonardo Boff foi solicitado silêncio obsequioso. (1)

4 – Os Anglicanos avançaram e venceram barreiras. A imagem pode conter: 1 pessoa, texto que diz "bom astor COMUNIDADE ANGLICANA Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive no altar!"

Nesta foto vemos a freira, Irmã Diana (The Episcopal Church – Igreja Anglicana dos EUA) presidindo a Santa Eucaristia (Foto: Daqui) . Que as relações ecumênicas dos católicos com os anglicanos abram novos caminhos …

5 – O papa Francisco

  • tem dado sinais de compreensão dos problemas existenciais ,
  • dos desafios pastorais e eclesiásticos que afligem a humanidade e a igreja ,
  • e mantem uma postura anti-discriminatória e aberta ao diálogo.

Em meio às muitas resistências que sofre , continua rompendo algumas tradições. Na Amoris Laetitia (n.0 204)

  • afirma que “a paróquia é a família das famílias”,
  • ressalta que “os ministros ordenados carecem de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias”.

Evidente que não dá para entender família sem a presença da mulher. E o papa vai além :

  • admite até esta presença da mulher na vida do padre quando afirma :
  • “ pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos padres casados ”.

Convém salientar que o nosso querido papa Francisco

  • tem sobre seus ombros uma estrutura enorme e pesada de mais de 16 séculos
  • e ainda um colégio cardinalício em sua maioria conservador.

Muito bem disse Frei Beto :

“ Ele é uma cabeça aberta num corpo fechado”.

A igreja- instituição precisa se reinventar e ele, com palavras e gestos , representa a esperança de uma nova era.

 

6 – A mulher não é uma pessoa de segunda classe como pensaram alguns filósofos. Tem direitos e deveres iguais. As diferenças de gênero , físicas e psíquicas , existem para que haja complementariedade e não exclusão. Jesus enfrentou fariseus e doutores da Lei por ser contra todo tipo de discriminação, marginalização e preconceito.

  • Foi odiado por ter perdoado a mulher adúltera que eles queriam matar à pedradas…
  • Até os discípulos ficaram admirados ou melhor escandalizados quando o viram conversando com uma mulher samaritana.

Por acaso

  • não foi exatamente a samaritana quem primeiro revelou ao mundo a presença do Messias
  • e Maria Madalena o Cristo Ressuscitado?
  • E Maria , a jovem de Nazaré que durante nove meses foi sacrário vivo do Verbo Encarnado , não poderia ser considerada teologicamente a primeira sacerdotisa?
  • Ela representa a extraordinária dignidade da mulher que se insere na historia da salvação.

 

7 – As mulheres sempre estiveram juntas com Jesus. Eram elas que lá aos pés da cruz estavam presentes … Segundo alguns historiadores e exegetas é possível que também na 5ª. feira santa existisse a presença de mulheres na fração do pão , mas por conta do “Fazei Isto em Memória de Mim” e por uma questão machista influencia do judaísmo , fora omitido pelos escritores sagrados e teve repercussão nos artistas plásticos que reproduziram o cenário da Última Ceia.
Para a igreja católica institucional continua em aberto duas agendas : O celibato opcional para os sacerdotes e a ordenação sacerdotal de mulheres , solteiras , casadas ou viúvas. Que o Espirito Santo ilumine.

 

 Leituras sugeridas:

  •  Enciclica Mulieris Dignitatem – João Paulo II – 1988
  • A grande disciplina, João Batista Libânio. São Paulo: Loyola, 1983
  • A Igreja do Brasil – de João XXII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo –  José Oscar Beozzo. Petrópolis: Editora Vozes, 1994
  • O povo de Deus , José Comblin – Paulus Editora, 2000
  • Enciclica Amoris Laetitia – Papa Francisco, 2016

 

 

Almir Simões

Padre, casado Italva, professor, mora em Salvador.

Fonte: https://m.facebook.com/story.php

 

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