O padre Arrupe viveu a bomba atômica de Hiroshima

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Messenger – Grupo de Comunicação Loyola – 7 de agosto de 2020

Poucas crônicas de acontecimentos históricos logram uma carga testemunhal como o texto “Eu vivi a bomba atômica” , do padre jesuíta Pedro Arrupe, publicado em 1952.

Naquele dia, 6 de agosto de 1945, o jovem religioso estava no noviciado de Nagatsuka , junto com outros 35 jovens e vários jesuítas. Pedro Arrupe foi o Superior Geral da Companhia de Jesus entre 1965 e 1983, e o seu trabalho transformou profundamente essa ordem religiosa, que recuperou o seu espírito originário na sua opção pelos pobres. Faleceu em Roma em 5 de fevereiro de 1991.

 

 

Hiroshima era uma cidade de 400 mil habitantes. A sua estrutura urbana era completamente japonesa, embora não faltassem, especialmente no centro, bons edifícios de concreto armado.

Militarmente, Hiroshima tinha muita importância:

  • era o segundo quartel-general das tropas japonesas,
  • e o seu porto era um dos mais importantes para o deslocamento de divisões armadas.
  • Antes do desembarque dos americanos, passavam por Hiroshima, semanalmente, muitos milhares de soldados.

Nós, os jesuítas, tínhamos duas casas em Hiroshima:

  • uma bem no centro da cidade, que era a paróquia,
  • e outra a cerca de seis quilômetros do centro da explosão atômica,
  • que era o noviciado de Nagatsuka, para os noviços japoneses.

Eu me encontrava lá junto com trinta e cinco outros jovens jesuítas.

 

A manhã de 6 de agosto de 1945.

Eu estava no meu quarto com outro Padre, às oito e quinze da manhã, quando de repente vimos uma luz fortíssima, como um flash de magnésio, disparado diante dos nossos olhos.
Naturalmente, surpresos,

  • levantámo-nos para ver o que estava acontecendo,
  • e quando fomos abrir a porta do quarto – que dava para a cidade –
  • ouvimos uma explosão formidável, semelhante ao rugido de um terrível furacão,
  • que arrastou portas, janelas, cristais, paredes frágeis…, que aos pedaços iam caindo sobre as nossas cabeças.

Jogámo-nos, ou fomos jogados, no chão. E digo que fomos jogados, porque um padre alemão com mais de 90 quilos, que estava apoiado na janela do seu quarto, viu-se de repente sentado no corredor, a vários metros de distância, lendo um livro.

Continuou sobre nós uma chuva de telhas, tijolos, cacos de vidro… três ou quatro segundos que pareceram mortais, porque quando se teme que uma viga caia sobre a sua cabeça e esmague o seu cérebro, o tempo torna-se muito longo.

 

Uma bomba no jardim?

Quando conseguimos pôr-nos de pé, fomos dar uma volta pela casa. Eu tinha a responsabilidade pelos trinta e cinco jovens que estavam sob a minha direção. Não encontrei nenhum ferido, nem mesmo com o menor arranhão.
Saímos para o jardim para ver onde havia caído a bomba, pois ninguém duvidava que isso tivesse acontecido; mas ao chegarmos e depois de o termos percorrido inteiramente, olhámos uns para os outros surpresos: não havia nenhum buraco, nenhum sinal de explosão. As árvores, as flores, tudo parecia normal.

Estávamos percorrendo os arrozais que cercavam a nossa casa para achar o local da bomba, quando, passado um quarto de hora, vimos que para o lado da cidade se erguia uma densa fumaça, no meio da qual se podiam distinguir claramente grandes labaredas.

Subimos uma colina para ver melhor e de lá pudemos ver onde ficava a cidade, mas o que tínhamos diante de nós era uma Hiroshima completamente arrasada.
Como as casas eram de madeira, papel e palha, e era a hora em que todas as cozinhas preparavam a primeira refeição do dia, com aquele fogo e os contatos elétricos, duas horas e meia após a explosão a cidade toda era um enorme lago de fogo.

 

“Pika-don.”

Os japoneses, que não sabiam que tinha explodido a primeira bomba atômica, com aquela prodigiosa harmonia imitativa da sua linguagem, designaram este novo fenômeno com a palavra “Pika-Don”.

  • “Pika” era para eles o clarão,
  • e “don” o ruído da explosão.
  • Mesmo agora, ao falar da bomba atômica, muitos continuam a chamá-la Pika-Don …

Nós, sem termos como explicar o que havia acontecido ali,

  • tentamos entrar na cidade; mas era impossível:
  • aquilo era um mar de fogo sobre uma cidade reduzida a escombros…

A cidade achava-se nestas condições poucos momentos após a explosão.

  • Dificilmente se poderia avançar no meio de tanta ruína.
  • Mas outra das causas que travava o nosso avanço era o sem número de pessoas que estavam saindo penosamente daquele inferno.

Fugiam com grande dificuldade, sem correr, como teriam desejado, para escapar daquele inferno o mais quanto antes, porque não podiam fazê-lo por causa dos espantosos ferimentos sofridos.

  • Jamais esquecerei, porque foi uma das minhas primeiras impressões da bomba atômica,
  • aquele grupo de garotas jovens, de dezoito a vinte anos,
  • que vinham agarradas umas às outras, arrastando-se.

Uma delas tinha uma bolha que lhe ocupava o peito inteiro. Tinha também a metade do rosto queimado e um corte produzido pela queda de uma telha que, rasgando o seu couro cabeludo, deixava ver o osso, enquanto uma grande quantidade de sangue lhe escorria pelo rosto. E assim a segunda, a terceira… numa progressão que se prolonga até 150, nos dará uma ideia aproximada do quadro de Hiroshima.

O hospital improvisado.

Continuávamos a procurar uma maneira de entrar na cidade, mas era impossível. Fizemos então a única coisa que se pode fazer diante de uma hecatombe como esta:

  • cair de joelhos e rezar pedindo luzes ao céu,
  • quando a nos vemos desprovidos de qualquer auxílio humano.

Por fim,

  • lembrando-me de que havia estudado medicina muitos anos antes,
  • voltei correndo para casa em busca de alguma ajuda.

Encontrei o armário de remédios debaixo dos escombros, com as portas quebradas:

  • do meio das ruínas fui tirando um pouco de iodo, outro pouco de aspirina, sal de frutas e bicarbonato.
  • Eram esses os meus poderes, quando lá fora me estavam esperando 200 mil vítimas a quem acudir.

O que fazer? Por onde começar?

Caí de joelhos novamente e recomendei-me a Deus Nosso Senhor.
Foi então que

  • Ele me ajudou de uma forma muito especial,
  • não com remédios, mas com uma ideia que sem dúvida hoje fará sorrir qualquer médico que leia isto:
  • a de conseguir a qualquer custo, diante da evidente falta de meios, ajudar a natureza para pô-la em condições de reagir por si mesma.

Para isso limpamos com pudemos a casa e tratamos de acomodar nela o maior número possível de doentes e feridos, num total de mais de cento e cinquenta.

Para atingir o nosso objetivo, a primeira coisa a fazer era preocupar-nos com a alimentação, não só a normal, mas também uma superalimentação que desse àqueles organismos energia para reagir contra as hemorragias, a febre e a supuração das queimaduras.

Os nossos jovens, de bicicleta ou a pé, saíram pelos arredores de Hiroshima.
Sem saber como nem onde, foram trazendo consigo o que em quatro anos nem sequer tínhamos visto: pescado, carne, ovos, manteiga… Com isso pudemos atender os nossos enfermos.

O sucesso recompensou nossos esforços,

  • pois quase sem percebermos,
  • estávamos desde o início atacando aquela anemia e leucemia
  • que ia desenvolver-se na maioria dos feridos por terem sido atingidos pela radiação atômica.

Por isso pudemos orgulhar-nos por, de todos os internados na casa desde o início, nenhum ter morrido, exceto uma criança que, atacada pela meningite devido ao aumento da pressão do líquido cefalo-raquidiano, faleceu no dia seguinte. Os outros todos foram salvos.

 

No teatro da tragédia.

Por fim conseguimos entrar na cidade. Como sempre acontece nos grandes incêndios, desenvolveu-se uma enorme quantidade de vapor de água, que acabou por se se condensar numa chuva torrencial. Assim, o fogo foi extinto, pelo menos na parte superior dos escombros.

Eram cinco da tarde. Diante dos olhos espetáculo simplesmente indescritível;

  • visão dantesca e macabra impossível de seguir com a imaginação.
  • Tínhamos diante de nós uma cidade completamente destruída,
  • pela qual íamos avançando sobre os escombros cuja parte inferior ainda estava cheia de brasas.
  • Qualquer descuido poderia ser fatal para nós.

Mas muito mais terrível era a visão trágica daqueles milhares de pessoas feridas, queimadas, pedindo socorro. Como aquela criança em que tropecei que tinha um vidro enfiado na pupila do olho esquerdo, ou aquela outra que tinha cravada entre as costelas, como de fosse um punhal, uma grande lasca de madeira.

 

A bomba atômica é… a bomba atômica.

Porque eles também não sabiam mais do que o nome. Era uma palavra nova que entrava pela primeira vez no dicionário. Além do mais,

  • saber que era a bomba atômica que tinha explodido não nos ajudava em nada, do ponto de vista médico,
  • já que ninguém no mundo conhecia os seus efeitos no organismo humano;
  • nós éramos na realidade os primeiros porquinhos da Índia [cobaias] de experimentação.

Mas sim, ajudou-nos, e muito, do ponto de vista missionário. Porque nos disseram:

  • Não entrem na cidade porque há um gás que mata durante setenta anos.
  • E é então que a gente parece sentir-se mais sacerdote, quando sabe dentro da cidade há cinquenta mil cadáveres que, se não fossem cremados, causariam uma peste terrível.
  • Além disso havia 120.000 feridos para cuidar.

Diante desse fato um sacerdote não pode ficar de fora para salvar a sua vida.
Naturalmente, quando dizem a uma pessoa que dentro aí dentro há um gás que mata, só depois de fazer um propósito muito firme é que ela decide entrar.

Mas nós o fizemos

  • e começámos a erguer enormes pirâmides de cadáveres para borrifá-los com gasolina e atear-lhes fogo.
  • Assim desapareceram os cadáveres que estavam nas ruas.

Mas depois de três ou quatro dias, com o sol de agosto e o calor úmido, o olfato estava nos dizendo onde havia mais corpos em corrupção.

  • Removendo os escombros, encontrávamos famílias de cinco, seis ou mais pessoas esmagadas debaixo das suas casas.
  • Ajudados pelos transeuntes que por acaso passavam por ali, fazíamos pilhas de cinquenta ou sessenta cadáveres para incinerá-los.

Quando terminámos, num último esforço, aquela tarefa dos primeiros dias, estávamos exaustos; mas o cansaço não nos fazia esquecer o gás que matava; por isso que perguntávamos uns aos outros: Padre, o senhor sente algo especial?

E acontecia a mesma coisa com todos nós: estávamos cansados, mas sem sintomas especiais que pudessem alarmar-nos. Era natural que assim fosse, porque o boato errôneo do gás mortal não tinha outro fundamento senão o da imaginação excitada pelo espetáculo tão sangrento daquele calvário trágico.

 

Testemunho do padre Pedro Arrupe no livro: “Eu vivi a bomba atômica ”.

Messenger – Grupo de Comunicação Loyola

Fonte: http://www.reflexionyliberacion.cl/ryl/2020/08/07/el-p-arrupe-vivio-la-bomba-atomica/

 

Veja também – sobre o mesmo assunto – um texto em português, do também jesuíta Pedro Miguel Lamet. Bem extenso (22 pág.s):

https://www.scielo.br/pdf/ea/v29n84/0103-4014-ea-29-84-00219.pdf

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