BENTO XVI. UMA VIDA. 1

Bento XVI. Uma vida (1)

 Anselmo Borges – 8 de Agosto de 2020

Encontrei uma vez em Roma Bento XVI, ainda não era Papa. A impressão com que fiquei: um homem afável e tímido. No encontro rápido, falou-me da importância decisiva da pastoral da inteligência.

Nos últimos dois meses, foi para mim um prazer intelectual imenso poder ler a sua biografia — são 1150 páginas —, escrita por Peter Seewald: Benedikt XVI. Ein Leben (Bento XVI. Uma vida).

 

Pude acompanhar 90 anos de história,

  • a brutalidade esmagadora da Segunda Guerra Mundial,
  • os filósofos e teólogos que também estudei,
  • a reconstrução da Alemanha e da Europa,
  • os debates teológicos que levaram ao Concílio Vaticano II,
  • a primavera do Concílio e o inverno que se seguiu,
  • Maio de 68,
  • o cardeal Ratzinger como Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé,
  • Bento XVI como Papa e a sua renúncia,
  • o Papa Francisco…

 

Em três crónicas simples — previno que a obra não é fácil —, tentarei apresentar rapidamente alguns flashes desta biografia.

Uma família modesta: o pai era polícia e a mãe cozinheira. Três filhos: Maria, nascida em 1921, Georg, em 1924, Joseph em 1927, às 4.15 de Sábado Santo. No mesmo dia, às 8.30 já estava na igreja para ser baptizado com a nova água pascal, acabada de benzer, e ao som do canto do Glória: “Cristo ressuscitou”.

Ratzinger viu sempre neste acontecimento um símbolo decisivo, que o acompanhou durante a vida toda: Sábado Santo a falar da

“situação da história humana, da situação do nosso século, mas também da minha vida. Aí estão, por um lado, a escuridão, a incerteza, a interrogação, os perigos, as ameaças, mas também, por outro, a certeza de que há luz, de que vale a pena viver e avançar. Neste sentido, esse dia a que Cristo preside — misteriosamente oculto e simultaneamente presente — tornou-se um programa para a minha vida”.

Foi neste sentido que G. Steiner também escreveu que é em Sábado que vivemos: entre os horrores de Sexta-Feira Santa e a esperança do Domingo de Páscoa.

Depois, Hitler. Aos 16 anos Joseph foi chamado para o exército hitleriano, de que desertou aos 18. No caminho do regresso percebe-se mais intensamente a desolação causada pela guerra.

“Quando de repente me apresentei vivo diante dele”,

o pai nem queria acreditar. E a mãe prepara-lhe de comer. Há pouco, mas a mãe tem salada fresca, um ovo das suas galinhas e um bocado de pão:

“Na minha vida nunca mais tive uma refeição tão preciosa como esta refeição simples que a mãe preparou com os frutos da sua horta.”

O terror do nazismo influenciou a sua decisão para toda a vida, como ele próprio sintetizou:

“Na fé dos meus pais tive a confirmação do catolicismo como um bastião da verdade e da justiça contra aquele reino do ateísmo e da mentira, que o nacional-socialismo encarnou.” 

O jovem de 18 anos está agora preparado para a entrega radical da sua existência a uma vida para Deus, pois a decisão fundamental veio com o fim da guerra:

“Agora, já não tinha nenhuma dúvida quanto à finalidade e objectivos da minha vida, sabia qual era o meu lugar.”

Regressou, pois, ao seminário, com o irmão Georg, que comentou que a guerra tinha tornado o irmão “realmente adulto”. A mãe, que se sentiu contente e orgulhosa pelos filhos, não deixou de avisá-los:

“Se não for a vossa vocação, é melhor vir embora.”

Ratzinger acompanhava as aulas com entusiasmo e diligência. Sente que é necessário um novo começo para a Igreja:

“Acreditávamos conduzir a Igreja para um novo futuro”.

E vão ficando as influências filosóficas e teológicas que lhe marcarão a vida, concretamente o pensamento dialógico e sobretudo Santo Agostinho:

“Sinto-o como um amigo, um contemporâneo que fala para mim”, confessa.

Entretanto, esclarece que

“durante os seis anos de estudante de Teologia teve dúvidas quanto à vocação e que o assaltaram muitos problemas e perguntas bem humanos:

  • O celibato é realmente para mim?
  • Ser padre é realmente para mim?
  • Estarei preparado para isso para a vida toda?
  • É realmente a minha vocação?”

O que é facto é que, já próximo das chamadas “ordens menores”, com a tonsura, caiu enamorado. O biógrafo volta aos últimos encontros com Bento XVI, já retirado, para esclarecer melhor:

– “Falou nas suas memórias de um ‘tempo de grandes decisões dolorosas’. Em que consistiu exactamente este sofrimento?”

O Papa emérito respondeu, sorrindo com satisfação, que se trata de algo demasiado pessoal, sobre isso não pode dizer nada.

— “Enamorou-se de uma rapariga?”

— “Talvez”.

“Claro que sim”.

– “Poder-se-ia interpretar dessa maneira.”

“Quanto tempo durou este tempo doloroso? Algumas semanas? Uns meses?”

– “Mais, mais tempo”.

Para quem conhece Ratzinger, comenta o biógrafo, percebe que se trata de uma confissão. Sabe que lhe é exigido um sacrifício, uma renúncia, mas

“não se decide contra a amiga, decide-se por algo: seguir uma missão. A luta interior durou muitos meses. Até à ordenação de diácono no Outono de 1950, quando deu ‘o seu Sim convicto”.

Quem era a rapariga? Ainda vive? De qualquer forma, o biógrafo escreve que, sendo o amor um dos seus temas centrais como teólogo e Papa, lhe perguntou se o vivenciou pessoalmente com sentimentos profundos ou se isso foi só um tema filosófico.

A resposta do Papa emérito:

  • “Não, não. Quem o não experienciou não pode falar sobre ele.
  • Eu senti-o primeiro em casa, com o pai, a mãe, os irmãos.
  • E não quereria entrar em pormenores privados, mas fui tocado por ele em diversas formas e dimensões.
  • Percebi cada vez mais que ser amado e dar amor aos outros é fundamental para se poder viver”.

 

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Anselmo Borges

Fonte: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/08-ago-2020/bento-xvi-uma-vida-1-12503170.html?target=conteudo_fechado

 

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