Dentro de um inferno, algo do paraíso não se perdeu. Artigo de Leonardo Boff

 

Leonardo Boff – 06 Agosto 2020

“Esse tsunami de ódio e seu promotor maior que desgoverna nosso país, irá descobrir, um dia em que só Deus sabe, as lágrimas, os lamentos e o luto que provocaram em milhares de seus compatriotas que por sua falta de amor e de cuidado para com os afetados pelo Covid-19 perderam a quem tanto amavam. Oxalá neles não esteja totalmente perdida a parcela do Jardim do Éden“, escreve Leonardo Boff, ecoteólogo, escritor e autor de “O doloroso parto da Mãe Terra: uma nova etapa da Terra e da Humanidade”, a sair pela Vozes em 2020.

 

Eis o artigo.

Se olharmos os cenários mundiais, temos a impressão de que a dimensão de sombra, o impulso de morte e a porção demente tomou conta das mentes e dos corações de muitas pessoas.

Particularmente em nosso país, criou-se até ogabinete do ódio onde grupos maus maquinam

  • maldades, calúnias, distorções
  • e todo tipo de perversidades contra seus adversários políticos,
  • feitos inimigos que devem ser liquidados se não fisicamente, pelo menos simbolicamente.

Várias janelas do inferno se abriram e suas labaredas

  • incineraram celebridades, alimentaram as fake news
  •  e destroçaram porções do Estado Democrático de Direito
  •  e em seu lugar introduziram um Estado sem lei e post-democrático
  • e, no caso do Brasil, em sua cabeça, um chefe de Estado demente, cruel e sem compaixão.

Historiadores nos asseguram que

  • há momentos na história de uma nação ou de um povo nos quais
  • o dia-bólico (o que divide) inunda a consciência coletiva.
  • Tenta afogar o sim-bólico (o que une) no intento de fazer regredir toda uma história aos
  • tempos sombrios, já superados pela civilização.

Então surgem

  • ideologias de exclusão,
  • mecanismos de ódio,
  • conflitos e genocídios de inteiras etnias.

Conhecemos a Shoah, fruto do inferno criado pelo nazifascimo de extermínio em massa de judeus e de outros.

Na América Latina

  • por ocasião da invasão/ocupação dos europeus,
  • ocorreu talvez o maior genocídio da história.

No México, em 1519 com a chegada de Hernán Cortez,

  • viviam 22 milhões de aztecas;
  • depois de 70 anos restaram somente 1,2 milhão.

Foram católicos anticristãos que perpetraram extermínios em massa.

  • Os gritos das vítimas clamam ao céu contra a “Destruição das “Índias”(Las Casas)
  • e têm o direito de reclamar até o juízo final.
  • Nunca se viu algum ato de reconhecimento deste genocídio por parte das potências colonialistas
  • nem se dispuseram a fazer a mínima compensação aos sobreviventes destes massacres.

São demasiados desumanos e arrogantes.

Mas dentro deste inferno dantesco, há algo do paraíso que nunca se perdeu e que constitui a permanente saudade do ser humano:

Em tempos maus como o nosso,

  • vale ressuscitar esse sonho que dorme no profundo de nosso ser.
  • Ele nos permite projetar outro tipo de mundo
  • que, para além das diferenças, todos se reconhecem como irmãos e irmãs. E se entre-ajudam.

Narro um fato real que mostra a emergência desse pedaço de paraíso, ainda existente entre nós, lá onde a inimizade e a violência são diárias.

Essa não é uma história inventada mas real, recolhida por um jornalista espanhol do El País no dia sete de junho de 2001. Ocorreu no ontem, mas seu espírito vale para o hoje.

Mazen Julani era um farmacêutico palestino de 32 anos, pai de três filhos, que vivia na parte árabe de Jerusalém. No dia 5 de junho de 2001 quando estava tomando café com amigos num bar, foi vítima de um disparo fatal vindo de um colono judeu.

Era a vingança contra o grupo palestinense Hamás que, quarenta e cinco minutos antes, havia matado inúmeras pessoas numa discoteca de Tel Aviv mediante um atentado feito por um homem bomba. O projétil entrou pelo pescoço de Mazen e lhe estourou o cérebro. Levado imediatamente para o hospital israelense Hadassa chegou já morto.

Mas eis que a porção adormecida do paraíso em nós foi acordada.

  • O clã dos Julani decidiu aí mesmo nos corredores do hospital,
  • entregar todos os órgãos do filho morto: o coração, o fígado, os rins e o pâncreas
  • para transplantes a doentes judeus.

O chefe do clã esclareceu em nome de todos que este gesto não possuía nenhuma conotação política. Era um gesto estritamente humanitário.

Segundo a religião muçulmana, dizia, todos formamos uma única família humana e somos todos iguais, israelenses e palestinos. Não importa em quem os órgãos vão ser transplantados. Essencial é que ajudem a salvar vidas. Por isso, arrematava ele: os órgãos serão destinados aos nossos vizinhos israelenses.

Com efeito, ocorreu um transplante. No israelense Yigal Cohen bate agora um coração palestino, o de Mazen Julani.

A mulher de Mazen teve dificuldades em explicar à filha de quatro anos a morte do pai. Ela apenas lhe dizia que o pai fora viajar para longe e que na volta lhe traria um belo presente.

Aos que estavam próximos, sussurrou com os olhos marejados de lágrimas:

  • daqui a algum tempo eu e meus filhos iremos visitar a Ygal Cohen na parte israelense de Jerusalém.
  • Ele vive com o coração de meu marido e do pai de meus filhos.
  • Será grande consolo para nós, encostar o ouvido ao peito de Ygal e escutar o coração daquele que tanto nos amou e que, de certa forma, ainda está pulsando por nós.

Este gesto generoso demonstra que o paraíso não se perdeu totalmente. No meio de um ambiente altamente tenso e carregado de ódios, surgiu um Jardim do Éden, de vida e de reconciliação. A convicção de que

  • somos todos membros da mesma família humana,
  • alimenta atitudes de perdão e de incondicional solidariedade.
  • No fundo, aqui irrompe o amor que confere sentido à vida e que move, segundo Dante Alighieri da Divina Comédia, o céu e todas as estrelas.
  • E eu diria, também o coração da esposa de Mazen Julani e o nosso.

São tais atitudes que nos fazem crer que

É joio que não será recolhido, como o trigo, no celeiro dos homens nem de Deus.

  • Esse tsunami de ódio
  • e seu promotor maior que desgoverna nosso país,
  • irá descobrir, um dia em que só Deus sabe, as lágrimas, os lamentos e o luto que provocaram em milhares de seus compatriotas
  • que por sua falta de amor e de cuidado para com os afetados pelo Covid-19 perderam a quem tanto amavam.

Oxalá neles não esteja totalmente perdida a parcela do Jardim do Éden.

 

.

Leonardo Boff

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/601574-dentro-de-um-inferno-algo-do-paraiso-nao-se-perdeu-artigo-de-leonardo-boff

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>