Uma Igreja pobre? Dinheiro, sectarismo e tradição católica.

Massimo Faggioli – 01 Agosto 2020

A Igreja precisa seguir a Cristo na pobreza e na perseguição, mas também precisa de recursos humanos para realizar a sua missão. O “e” que é típico do catolicismo ajuda a articular o modo como se pode entender a ideia de uma “Igreja pobre”.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA. O artigo foi publicado Commonweal, 31-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O que fazer diante do fato de que a Igreja Católica recebeu 1,4 bilhão de dólares do Paycheck Protection Program do governo dos Estados Unidos [programa de empréstimo voltado para que pequenas empresas consigam manter suas folhas de pagamento]?

As considerações do arcebispo de Oklahoma CityPaul S. Coakley, presidente da Comissão de Justiça Nacional e Desenvolvimento Humano da USCCB [Conferência dos Bispos dos EUA, na sigla em inglês], parecem suficientes.

Como ele afirmou em uma declaração, a “Igreja Católica”, neste caso, abrange as centenas de dioceses, paróquias, escolas, agências de serviço social e outras organizações católicas individuais que empregam coletivamente milhares de pessoas e, portanto, não estão proibidas de receber ajuda federal sustentada pelos contribuintes.

“O Paycheck Protection Program foi projetado

  • para proteger os empregos dos estadunidenses de todas as etapas da vida,
  • independentemente de trabalharem para empregadores com ou sem fins lucrativos,
  • baseados na fé ou seculares”,

dizia a sua declaração.

Vários meios de comunicação católicos fizeram a mesma observação, e parece claro que há menos coisas nessa “história” do que ela aparenta.

Contudo, ao mesmo tempo,

  1. devemos permanecer atentos às questões constitucionais e políticas relativas à relação entre Igreja e Estado,
  2. e à necessidade contínua de prestação de contas e transparência financeiras
  3. à luz dos vínculos entre a crise dos abusos sexuais e a má gestão financeira nas instituições católicas.

Parece que uma parte da objeção ao financiamento do Paycheck Protection Program para a Igreja decorre da crença de que

  • o dinheiro poderia ser usado para pagar acordos e custos legais associados a casos de abuso sexual e outros escândalos.
  • E isso, infelizmente, fala muito do nível de consideração que muitas pessoas têm pela Igreja Católica hoje.

Mas também podemos usar este momento

  • para pensar nas questões eclesiológicas e teológicas mais amplas
  • suscitadas pelo papel cada vez mais decisivo do dinheiro na vida da Igreja,
  • especialmente na Igreja Católica dos EUA.

Como resultado das mudanças na cultura política católica desde o século XX,

  • os doadores ricos adquiriram o tipo de legitimidade que a Igreja institucional poderia conferir antigamente a imperadores, reis e príncipes –
  • como evidenciado agora na crescente influência
  • dos grupos católicos e líderes empresariais católicos conservadores e tradicionalistas.

Mas esse desenvolvimento em si decorre em parte

  • de quatro décadas de hostilidade aos gastos do governo
  • e do desmantelamento de programas federais de serviço social,
  • o que aumentou a pressão sobre as organizações católicas para fornecer esses serviços mais do que em qualquer momento desde que esses programas foram implementados no século XX.

As doações que a Igreja Católica recebe dessas entidades privadas

  • não resultam necessariamente de simpatia ou de apoio ao trabalho que está sendo realizado nessas áreas;
  • pelo contrário, às vezes, as contribuições podem ter o objetivo de influenciar a posição da Igreja em questões como a imigração, o ambiente e a economia.

Mas, no caso dos pagamentos do Paycheck Protection Program, estamos falando de dinheiro dos contribuintes. E isso deveria nos fazer pensar

  • sobre o complexo significado da “Igreja pobre” na recente tradição católica
  • e o que essa ideia significa daqui para a frente.

O ensino católico contemporâneo sobre esse assunto começa com o Vaticano II.

  • Os documentos do Concílio eram um tanto ambivalentes sobre o assunto da relação entre a Igreja e o status quo político, social e econômico,
  • assim como sobre o apoio do estatal (financeiro ou não) à Igreja Católica.

A ambivalência era um reflexo das diferentes sensibilidades evidentes no Vaticano II – ilustradas, por exemplo,

 

Pour une Eglise servante et pauvre - YVES CONGAR - 9782204101950 ...

Foto: Cultura.com

O dominicano francês Yves Congar, provavelmente o teólogo mais influente do Concílio, ajudou a moldar um novo entendimento da “Igreja pobre” com o seu livro de 1963, “Por uma Igreja serva e pobre”   (republicado em vários idiomas desde a eleição do Papa Francisco).

Congar descreveu a vocação essencial da Igreja

  • como o serviço ao próximo,
  • em conexão direta com o amor à pobreza.

Ele se referia ao contraste visto ao longo da história

  • entre uma Igreja destinada a ser pobre, como Cristo,
  • e uma que, através de seus representantes, se manifesta externamente como rica.

Mas o conceito dele não era materialista: Congar entendia a ideia de pobreza na Igreja

  • como cristológica (a única riqueza da Igreja é Cristo)
  • e eclesiológica (os pobres são um sacramento do nosso encontro com Deus).

Na realidade, Congar nunca abordou o que significa ser uma “Igreja pobre” no sentido financeiro literal. Em vez disso, Igreja e pobreza deveriam ser entendidas em um sentido universal: todos os membros da Igreja são pobres.

A tensão não resolvida entre uma “Igreja rica” e uma “Igreja para os pobres” é evidente na constituição conciliar Lumen Gentium, no número oito:

  • “Assim como Cristo realizou a obra da redenção na pobreza e na perseguição,
  • assim também a Igreja é chamada a seguir pelo mesmo caminho para comunicar aos homens os frutos da salvação.
  • Cristo Jesus ‘que era de condição divina… despojou-se de si próprio tomando a condição de escravo’ (Fil 2,6-7) e por nós, ‘sendo rico, fez-se pobre’ (2 Cor 8,9):
  • assim também a Igreja, embora necessite dos meios humanos para o prosseguimento da sua missão, não foi constituída para alcançar a glória terrestre, mas para proclamar a humildade e abnegação, também com o seu exemplo.”

A Igreja

  • precisa seguir a Cristo na pobreza e na perseguição,
  • mas também precisa de recursos humanos para realizar a sua missão.
  • O “e” que é típico do catolicismo ajuda a articular o modo como se pode entender a ideia de uma “Igreja pobre”.

À medida que as interpretações do Vaticano II mudavam durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI,

  • houve menos ênfase na ideia de uma Igreja pobre,
  • paralelamente aos repúdios vaticanos à teologia da libertação que começaram no início dos anos 1980.
  • Mas, de repente, em 2013, a eleição do Papa Francisco ajudou a trazer de volta a ideia de uma Igreja pobre.

O nome que o novo papa adotou foi, ele mesmo, uma indicação disso.

“Ah, como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres”, disse ele poucos dias após sua eleição, confirmando que retomaria o discurso interrompido do Vaticano II.

A relação de Francisco com a teologia da libertação pode ser complicada, mas ele claramente fala uma linguagem diferente dos seus antecessores sobre a ideia de uma Igreja pobre.

No entanto, ele também mostrou algumas ambivalências.

  • Por exemplo, a sua recente nomeação de Mario Draghi para a Pontifícia Academia para as Ciências Sociais.
  • Draghi obteve seu doutorado no Massachusetts Institute of Technology e foi presidente do Banco Central Europeu de 2011 a 2019.
  • Sua nomeação sinaliza o pragmatismo não ideológico que Francisco adota às vezes, até mesmo na questão da economia moderna.
  • Embora o seu magistério sobre o sistema capitalista possa ser resumido na sua afirmação de que “esta economia mata”,
  • ele também acredita na necessidade de se comprometer com as questões sociais e políticas.

Pode ser difícil acreditar na possibilidade de comprometimento na cultura eclesial polarizada de hoje, mas o comprometimento, obviamente, é uma característica significativa da tradição católica.

  • Mesmo no nível magisterial, há um compromisso – até mesmo sobre o conceito de dinheiro,
  • que não pode ser tratado de forma definitiva e infalível de uma vez por todas.

É assim em uma Igreja Católica global, onde situações históricas, políticas e sociais muito diferentes estão em jogo. No entanto, existem alguns dilemas pós-Vaticano II para resolver. Em muitos países, incluindo os EUA,

  • a Igreja Católica não é apenas uma importante defensora dos sem voz,
  • mas também, literalmente, uma tábua de salvação.

Quais são os custos para que os pobres tenham uma Igreja pobre?

  • Embora a Igreja não possa se dar ao luxo de ser politizada,
  • ela resguarda o direito e o dever de ser política,
  • conforme necessário para a sua missão profética.

Ser profético significa renunciar aos privilégios concedidos por meio de concordatas ou de outras cláusulas e decretos não escritos.

  • Mas uma retirada radical da praça pública
  • significaria perder a plataforma para falar em favor e em nome dos excluídos ou dos que sofrem sob o sistema econômico.

Em última análise, isso se resume a contradições intelectuais e eclesiais na cultura teológica e política dos católicos. A ideologia libertária do pequeno governo é incompatível com a tradição social católica.

Mas a tradição social católica

  • também não apoia a ideologia de uma pequena Igreja que renuncia à ajuda na forma de dinheiro dos contribuintes
  • para o seu trabalho pelo bem comum.

Uma virada sectária no entendimento católico das relações entre Igreja e governo seria paga, como sempre, pelas pessoas que menos podem pagar.

 

Massimo Faggioli

Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/601449-uma-igreja-pobre-dinheiro-sectarismo-e-tradicao-catolica-artigo-de-massimo-faggioli

 

 

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