O vírus silencia o Papa

Oração nos jardins do Vaticano em maio passado.

DARIO MENOR , Domingo, 26 de julho de 2020 – Oração nos jardins do Vaticano em maio passado. / EFE

A pandemia deixa Francisco “enjaulado” no Vaticano e sem viagens ou grandes eventos em um momento em que os resultados de sua reforma prevista da Igreja ainda não se concretizaram.

 

O coronavírus cortou as asas de Francisco. Para um papa tão necessitado de estar em contato direto com outras pessoas como Jorge Mario Bergoglio, a pandemia causou um revés indubitável na maneira como ele exerce sua liderança espiritual . Como ele próprio disse no Angelus em 8 de março com um tom irado, o Covid-19 o deixou “enjaulado”.

As restrições de ferro para evitar os contágios supuseram o cancelamento deste ano de suas viagens internacionais, nas quais habitualmente ele ocorre banhos de massas e consegue que suas mensagens tenham uma ampla repercussão na mídia.

Não está claro quando ele será capaz de retomar sua agenda de visitas a outros países, como também é o caso da celebração de grandes eventos religiosos em Roma.

  • Embora apenas algumas infecções tenham sido registradas no Vaticano e Francisco esteja bem,
  • o coronavírus caiu como uma bomba na Santa Sé, causando uma desaceleração no pontificado de Bergoglio.

«O papa precisa de contato com outras pessoas. Sem pessoas, é como um peixe fora d’água “,

afirma Giovanni Maria Vian, historiador do cristianismo, professor da Universidade La Sapienza em Roma e diretor do ‘L’Osservatore Romano’, o jornal da Santa Sé, entre 2007 e 2018. Este acadêmico considera que

  • o revés da pandemia de Bergoglio ainda é mais evidente para Bergoglio
  • devido à marca de abertura que ele imprimiu à figura do papado.

Demonstrou isso desde o início do seu pontificado,

  • ao renunciar a viver no Palácio Apostólico para não ficar isolado
  • e ao optar, em vez disso, pela Casa Santa Marta, uma residência dentro do Vaticano, onde ele tem contato diário com outras pessoas.

“O papado contemporâneo é inseparável do magistério e do simbolismo das viagens”,

sublinha por sua vez Massimo Faggioli, professor de teologia na Universidade Villanova, nos Estados Unidos. Na sua opinião, a impossibilidade de Francisco visitar outros países “normalizou” o seu pontificado, enfatizando a solidão do papa.

A imagem mais poderosa de Bergoglio durante a pandemia foi precisamente a oração que fez diante de uma praça de São Pedro completamente vazia em 27 de março, quando lembrou que “estamos todos no mesmo barco”.

“Sem viagens, é um papado diferente, porque a dimensão global tornou-se essencial para o catolicismo de hoje: o papado é o intérprete mais eficaz do catolicismo globalizado”,

afirma Faggioli.

“Francisco sabe que não pode deixar as visitas a outros países e dentro da Itália. Ele vai retomá-las o mais rápido possível, embora eu tenha dúvidas de que seja antes de 2022. Seria talvez interessante aproveitar esse tempo para repensar a organização das viagens e optar por uma fórmula diferente”, diz por sua vez Vian.

Sem pressa

Um sinal de que o Vaticano não tem pressa em retomar as turnês internacionais de Francisco é a recente nomeação, como conselheiro da Nunciatura Apostólica em Lisboa, de Mauricio Rueda, responsável durante os últimos quatro anos pela organização das viagens do Papa a outros países. Não foi designado um sucessor.

A pausa provocada pela emergência sanitária ocorreu ademais num momento em que já se dissipou o fascínio inicial provocado pela eleição desse papa que veio “do fim do mundo”, como ele mesmo se apresentou.

Depois de mais de sete anos da sua eleição como bispo de Roma, ainda não estão totalmente à vista os resultados das profundas reformas que muitos católicos esperavam.

  • Francisco revitalizou a Igreja baseando sua mensagem na misericórdia e na mão estendida aos que estão nas periferias,
  • mas mantém abertas várias frentes cujo resultado ainda não se concretizou.

A reorganização da Cúria Romana ou o empenho para obter maior transparência financeira parecem empreendimentos intermináveis, ao passo que quase não houve avanços na velha demanda de muitas mulheres para conseguir um maior protagonismo na Igreja.

“Acho que Francisco está mais interessado na reforma do que a maioria dos bispos e clérigos”,

defende-o Faggioli.

  • Também não houve mudanças em relação à ordenação sacerdotal de homens casados,
  • uma possibilidade que foi considerada durante o Sínodo da Amazônia em outubro passado,

 

Abuso infantil

Embora tenha havido avanços contra a pederastia eclesial, como o manual publicado na semana passada com as etapas que os bispos devem seguir quando estão cientes de um eventual episódio,

  • continuam a surgir casos em que há vislumbres de possíveis encobrimentos
  • ou, pelo menos, pouca vontade por chegar ao fim dos eventos.

É o que teria acontecido com a visita que iria realizar, no mês de março passado ao México, uma delegação da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), o dicastério do Vaticano encarregado de julgar as alegações de pederastia eclesial.

Estava previsto que o secretário adjunto da CDF, Charles Scicluna, arcebispo de Malta, e monsenhor Jordi Bertomeu, oficial do citado dicastério do Vaticano,

  • manteriam reuniões com vítimas, bispos e superiores de congregações religiosas do país azteca,
  • de maneira semelhante ao que eles fizeram em 2018, no Chile,
  • desmascarando os encobrimentos com que foram protegidos durante anos os abusos naquele país.

A visita dos especialistas da CDF ao México, que visava melhorar a maneira como a Igreja local responde a este flagelo, foi adiada “sine die” quando a pandemia eclodiu, segundo a explicação oficial. A realidade, ao contrário, é mais complexa.

  • “Vários pesos pesados ​​do episcopado mexicano pressionaram para que a missão não prosseguisse, por considerar que era uma afronta.
  • No final, eles convenceram o papa, que aceitou voltar atrás.
  • A pandemia forneceu uma excelente desculpa para justificar por que Scicluna e Bertomeu não viajaram“,

conta uma excelente fonte eclesial, que sustenta que há questões que o Papa já está deixando para o seu sucessor concluir.

Assim, estaria de acordo com o que sustenta José Casanova, professor de sociologia da religião na Universidade de Georgetown, que lembra que,

  • para Francisco “o tempo é mais importante que o espaço”,
  • e é por isso que ele pretende que se “abram processos” na Igreja que tornem irreversíveis as mudanças.

De qualquer forma, Bergoglio não está isento de contradições, adverte Casanova, observando que isso provocou o aparecimento da “síndrome do filho pródigo” entre os católicos mais fervorosos.

“Ele foi procurar o filho perdido, mas sem levar em conta o sentimento de quem ficou em casa e foi fiel”.

Outra frente aberta do pontificado, e fonte ademais de contínuas dores de cabeça para o Papa, é a da reforma econômica. Apesar das tentativas de Francisco para conseguir maior transparência e uma melhor gestão das finanças do Vaticano, continuam a surgir novos escândalos.

Um dos mais recentes é a compra, com fundos da Secretaria de Estado, de um prédio de 17.000 metros quadrados no exclusivo bairro londrino de Chelsea, um investimento que o próprio Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, considerou “opaco” e que está sendo investigado.

Além disso, as contas do Vaticano estão ameaçadas pelos efeitos da pandemia, que pode causar neste ano um déficit entre 68 e 146 milhões de euros, o que tornou necessário o estabelecimento de um plano de ajuste nas despesas.

“Os cataclismos globais, como aconteceu com as duas guerras mundiais, têm sempre um efeito no governo da Igreja Católica”,

adverte Faggioli, que considera que a recessão pode ter um impacto na reforma da Cúria Romana, outro projeto que sofreu contínuos atrasos.

“Bergoglio enfrenta dificuldades gigantescas no governo da Igreja”,

adverte Vian, para quem não há indícios de que estejamos às portas de um possível conclave, apesar da publicação de alguns livros com os perfis dos cardeais que poderiam ter possibilidades de suceder a Francisco.

“O papa goza de boa saúde e não tem nenhuma intenção de renunciar, embora eu não saiba com quantas novidades podemos ainda deparar-nos neste pontificado”,

diz o ex-diretor do jornal ‘L’Osservatore Romano’.

 

Darío Menor, autor en M'Sur
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DARÍO MENOR

https://www.hoy.es/sociedad/virus-silencia-papa-20200726104523-ntrc.html

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