ALEMANHA 1945 – BRASIL 2020: SERÁ QUE A IGREJA CATÓLICO COMETE O MESMO PECADO DA CUMPLICIDADE?

Johannes Gierse – 12/07/20 – Foto: Daqui

O reconhecimento da culpa de cumplicidade da Igreja Católica na Alemanha com o sistema nazista, como ainda o papel duvidoso do Vaticano na questão específica do holocausto, suscitam questionamentos relevantes à Igreja Católica no Brasil no contexto atual.

Porque a Igreja Católica no Brasil, através de seus bispos (CNBB), não se posicionou mais decididamente, mais unanimemente contra o governo Bolsonaro

 

A Igreja deve ser “um hospital de campanha”, postulava papa Francisco já no começo de seu pontificado. O presidente da Academia Cristã Tcheca e pároco da Comunidade Acadêmica de Praga, Tomaz Halik (72), acrescenta:

Como bom hospital, ela deveria oferecer o serviço

  • do diagnóstico (reconhecer os sinais dos tempos),
  • da prevenção (oferecer imunização contra o vírus do medo, do ódio, do populismo e do nacionalismo),
  • e da convalescença (absolver os traumas do passado).

Na Alemanha, um capítulo escuro na história da Igreja testemunha o que aconteceu de desastroso quando ela não se preveniu contra o vírus do populismo e nacionalismo.

 

Eis uma matéria do Jornal da Diocese de Münster, Kirche Leben, publicado em 10/05/2020:

Em 08 de maio de 1945, a Alemanha (Dritte Reich) rendeu-se oficialmente à Aliança dos Vencedores. Devido à pandemia, a comoração dos 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial aconteceu de forma muito restrita, mas virtual.

Até hoje, aquele evento histórico envolve também a Igreja Católica como mostra uma Carta publicada pela Conferência Nacional dos Bispos da Alemanha por ocasião desta data comemorativa. Nela, eles reconhecem as falhas cometidas pelos seus antecessores. O presidente da Conferência, o bispo de Limburg, Georg Bätzing, chamou o documento uma “confissão”.

A mensagem diz:

  • “Pelo fato de que os bispos (daquela época) não se opuseram claramente com um ‘Não’ à guerra, e sim, a maioria fortaleceu a vontade de persistir,
  • eles se tornaram cúmplices da guerra (literalmente: assumiram uma ‘com-culpa’).

Também raramente se ouviu uma voz da Igreja na Alemanha denunciando os crimes ultrajantes cometidos contra ‘os outros’ que foram discriminados como ‘alheios da raça’ e perseguidos, especialmente os judeus”.

O presidente da Conferência, o bispo Georg Bätzing, considera a mensagem de 23 páginas uma “confissão de culpa”. Reconheceu que para ele e seus irmãos epíscopos não foi fácil tratar do assunto.

“Sabemos que não cabe bem a nós assumir o papel de juízes de nossos antecessores”.

Porém,

  • as gerações posteriores têm que enfrentar a história
  • “para aprender com ela no presente e no futuro”.

Ele alertou contra o perigo de declarar a história nazista como encerrada. Pelo contrário, a gente deve posicionar-se contra novas formas de nacionalismo e antissemitismo.

O historiador da ‘Comissão de História Contemporânea’, Christoph Kösters, enfatizou que há muitos anos os bispos alemães lidam criticamente com a história nazista tendo o auxílio de historiadores. Ele lembrou a pesquisa sistemática, iniciada em 2000, sobre o trabalho forçado em instituições católicas. Ela aprofundou o insight (saber) a respeito da conexão entre a Igreja Católica e a sociedade nazista de guerra.

Trechos originais da atual mensagem dos bispos alemães:

  • “Tanto em setembro de 1939 (início da Guerra), como depois, os bispos alemães se omitiram em protestar contra a guerra destruidora nazista.
  • A visão tradicional da Igreja sobre a guerra e a consciência nacional se opuseram às dúvidas emergentes…
  • Só a partir da morte de pacientes e a ‘invasão de conventos’, alguns bispos deixaram de protestar por cartas e ousaram fazer protesto público”.

“Hoje constatamos com gratidão que

  • a disposição de enfrentar as perguntas impertinentes e os problemas urgentes,
  • nos aproximou mais a Cristo
  • e nos proporcionou uma compreensão mais profunda do Evangelho”.

O Jornal diocesano de Münster comentou a mensagem assim:

A mensagem dos bispos mostra a firme vontade de enfrentar o passado. A Igreja Católica trabalha a si mesma. O que motiva a mensagem é a intenção de encontrar a verdade. Em boa parte, a pressão de fora contribuiu para que a Igreja se sentisse compelida a assumir publicamente sua responsabilidade em certos assuntos.

Se os bispos consideraram a atitude de alguns de seus antecessores como culposa, oxalá! Isso seja um ponto final de uma solidariedade mal interpretada. Pois, somente quando a Igreja reconhece que seus representantes cometeram erros fatais, ela poderá recuperar sua credibilidade.

 

“O Vaticano escondeu documentos-chaves”

Não só a Igreja na Alemanha cometeu erros graves durante a Segunda Guerra Mundial, também o Vaticano.

  • – Desde março pp., 30 cientistas – entre os quais uma equipe de sete pessoas da diocese de Münster –
  • pesquisam nos arquivos apostólicos do Vaticano sobre o Papa Pio XII para esclarecer o papel do Papa e do Vaticano durante da Segunda Guerra e sua relação com o Holocausto.

As descobertas foram espetaculares:

Os chamados “Actes et Documents” constituem a base de Beatificação de Pio XII;

no entanto, eles não contém um documento decisivo.

Este documento prova que a Santa Sé tinha como confirmar as informações de uma organização judaica que dizem respeito ao assassinato de um meio milhão de judeus na Ucrânia,

num período de meio ano, através de fontes próprias: o arcebispo católico na Ucrânia, Dom Andrej Szeptyzkyj.

Um funcionário de alto escalão do Vaticano, o posterior Cardeal Angelo Dell’Acqua, considerava que

  • o testemunho dos judeus e o testemunho do arcebispo católico que retratavam independentemente os mesmos fatos,
  • não eram de confiança.

Ele escreveu:

Não se pode confiar nos judeus, tampouco católicos orientais, pois estão inclinados a mentiras e exageros.

– Qual era o motivo deste funcionário a fazer isso?

  • Certamente quis impedir que o Papa confirmasse ao governo americano a credibilidade das informações judias a respeito do assassinato de centenas de milhares de judeus;
  • ou então, que o Papa aderisse a um protesto público dos Aliados contra o Holocausto.

Resumindo: Até agora, este documento-chave foi retido por ser claramente antissemita e revela os motivos pelos quais Pio XII não levantou sua voz contra o Holocausto.

Questionamento

O reconhecimento da culpa de cumplicidade da Igreja Católica na Alemanha com o sistema nazista, como ainda o papel duvidoso do Vaticano na questão específica do holocausto, suscitam questionamentos relevantes à Igreja Católica no Brasil no contexto atual; e isto em duas direções:

para ‘fora’ da Igreja: 

Porque a Igreja Católica no Brasil, através de seus bispos (CNBB), não se posicionou mais decididamente, mais unanimemente contra o governo Bolsonaro

que dá fortes índices de cometer genocídio (contra os povos indígenas e o povo em geral por ocasião do Corona) e ecocídio (desmatamento da Amazônia)?

para ‘dentro’ da Igreja:

  • Porque estes mesmos bispos não traçaram uma linha vermelha para os fiéis:
  • quem é seguidor de Jesus Cristo não pode ser amigo de um governo fascista,
  • e quem apoia a necro-política deste governo não é amigo de Deus, pois Deus é “o amigo da vida” (Sb 11,26).

Com outras palavras: Os católicos, simpatizantes do presidente, não deveriam ser admoestados a confessar sua cumplicidade com a cultura de morte no Brasil?

Caso a Igreja Católica – através de seus bispos – se omitir a tomar em tempo uma atitude profética, cometerá o mesmo pecado da cumplicidade. Será possível que a história (da Igreja), em circunstâncias parecidas, se repete? O Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum não deixa dúvidas:

  • “O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia…
  • Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma…
  • Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai…” (Mt 10,27-28.32).

 

É isso que o padre Edson Adélio Tagliaferro (diocese de Limeira-SP) fez na sua homília no dia 02/07 ao refletir sobre a leitura do dia (Amos 7,10-17):

  • “Que tipo de profecia temos que fazer hoje? Um país que já chega a 60.000 mortos pela pandemia, e não temos um Ministro da Saúde.
  • Querem que eu fale o quê? Aquilo que todos falam: ‘Ele não trabalha, pois não deixam ele trabalhar’?
  • Não! Porque ele não presta! Bolsonaro não vale nada. E quem votou nele, deveria se confessar. Pedir perdão a Deus pelo pecado que cometeu, porque elegeu um bandido para ser presidente”.

No entanto,

  • a reação do bispo diocesano foi contrária;
  • em nota disse que o padre Edson se excedeu e pediu desculpas a Bolsonaro.

Padre Edson não é o primeiro e nem o único “ministro de Deus” que questiona o que significa ser cristão autêntico em tempos de crise tão fortes.

Aqui no Maranhão, logo após a eleição de Bolsonaro, um confrade alertou os fiéis na missa das comunidades: “Quem votou nele, não pode comungar”.

Chegou a hora em que os cristãos (católicos) devem tomar posição. Caso contrário, só fica para eles erguer um ‘sinal de advertência’:

  • uma cruz tirada das cinzas da Terra da Santa Cruz
  • – como fizeram os católicos na Alemanha em suas Igrejas após a Segunda Guerra…

Mas, já era tarde demais.

Fr. Johannes Gierse – Província Franciscana Nossa Senhora da Assunção

 

 

Johannes Gierse, frade e menor

Província dos Frades Menores Franciscanos do Maranhão

Fonte: enviado por e-mail

 

 

 

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