“A liberdade é vazia sem a solidariedade.” Entrevista com Massimo Recalcati

“A herança do Covid19 nos diz que “a Natureza não é um recurso para desfrutar e que a escola e a saúde pública devem estar o centro da soiciedade” , disse o psicanalista  Massimo Recalcati, em sua intervenção desta sexta feira,  último dia dia do evento “Repubblica delle Idee”uma reflexão sobre o que passamos e sobre onde encontraremos os caminhos a seguir.

A reportagem é de Laura Montanari, publicada em La Repubblica, 10-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

Voltamos para o lado de fora [na Itália], caminhando pelas ruas, mas com máscara e distâncias. O que a Covid-19 deixou dentro de nós, como herança?

Esperamos diversas coisas. Esperamos não esquecer tudo logo. Isso também aconteceu depois do 11 de setembro. Devemos reencontrar o mais rápido possível o direito de não pensar e de dormir em paz. Em vez disso,

  • seria uma tragédia na tragédia se não tivéssemos aprendido nada,
  • se voltássemos a dormir como se nada tivesse acontecido.

Há pelo menos três imensas lições da Covid-19 que nos conviria não esquecer e herdar.

primeira:

  • não se pode reduzir a natureza
  • a um mero recurso a ser explorado impunemente.

segunda:

  • não é possível que um país não tenha um sistema de saúde pública espalhado por todo o território
  • e uma escola capaz de garantir educação, pesquisa científica e formação.

terceira: a liberdade

  • não pode coincidir com uma propriedade do indivíduo,
  • não pode ser reduzida ao capricho de fazer o que se quer.

Sem a solidariedade, a liberdade é uma palavra vazia. A salvação ou é coletiva ou não pode existir.

De acordo com o Istat (Instituto Nacional de Estatísticas da Itália), o medo e a incerteza causados pela pandemia levarão a um colapso dos nascimentos até 2021. O que você acha?

Penso que o evento do nascimento

  • envolve uma parte de confiança no futuro,
  • e que, no tempo deste trauma coletivo, o horizonte do futuro inevitavelmente se contraiu.

Mas,

  • para reaver o futuro, é necessário agir no presente com decisão.
  • Por exemplo, permanecendo próximo dos últimos e dos mais frágeis economicamente;
  • por exemplo, garantindo o direito ao trabalho. Sem trabalho, não há futuro.

Então, como podemos reagir após as ansiedades e a reclusão?

O risco será

  • o de preferir o fechado, a proteção,
  • a defesa ao aberto,
  • à liberdade, à geração.

Era um risco já presente antes da Covid-19

  •  nas formas da pulsão securitária,
  • da defesa das fronteiras,
  • da sua militarização.

O símbolo do muro havia voltado a ser de grande atualidade de modo inquietante pelos Estados Unidos de Trump até os arames farpados de Orban.

O risco que eu vejo é uma acentuação da cultura do muro e da segregação.

A partir do seu observatório clínico, como estiveram as relações entre os casais no confinamento? Houve mais ou menos separações?

A proximidade, quando forçada, é sempre prejudicial ao desejo. Foi o que muitas vezes ocorreu. Ao mesmo tempo, porém, experimentamos que mesmo as relações a distância podem ser próximas.

E as famílias?

As famílias foram o lugar da resistência civil ao vírus.

  • Supriram a ausência da escola,
  • suportaram a angústia dos filhos,
  • mantiveram aberta a esperança,
  • suportaram materialmente condições de vida muitas vezes difíceis.

O que pode nos ajudar a retomar a normalidade que o vírus nos roubou: imaginar as férias, inscrever-se em um curso de ioga, ler um livro…? Como podemos reencontrar o equilíbrio que perdemos, o abraço com os amigos que nos falta?

Continuar distinguindo o essencial do não essencial. Porque essa foi outra lição do vírus que seria bom não esquecer tão cedo.

 

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