A tragédia de Bolsonaro

Que a palavra de um presidente da República seja à partida tão pouco credível é a ilustração cabal da tragédia que Bolsonaro é para o Brasil.

E DAÍ? LAMENTO, QUER QUE EU FAÇA O QUÊ?, DIZ BOLSONARO SOBRE ...

 

Rui Tavares – 07/07/20

Foto: YouTube

Esperemos que Bolsonaro fique em breve livre do vírus da covid-19.

E que rapidamente todos os democratas brasileiros entendam a missão comum que têm para que um dia, o mais cedo possível, o Brasil se possa livrar do vírus do bolsonarismo.

 

Uma das coisas mais impressionantes na reacção pública ao anúncio de que Jair Bolsonaro testou positivo ao vírus da covid-19

  • foi tanta gente não acreditar ser verdade, e por uma excelente razão:
  • é que foi o próprio Presidente do Brasil a fazer o anúncio público de que estava infetado — o mesmo Presidente do Brasil que ainda há três meses se recusou a mostrar o teste ao mesmo coronavírus cujo resultado teria então dado negativo.

Que a palavra de um presidente da República seja à partida tão pouco credível é a ilustração cabal da tragédia que Bolsonaro é para o Brasil.

Bolsonaro tem sido até agora um ser

  • especialmente pouco empático para com os mais de 65 mil brasileiros que morreram de covid-19
  • e o mais de milhão e meio que está infetado.
  • “E daí?!”, perguntou ele numa entrevista de há uns tempos. “Não sou coveiro.”

No próprio dia em que o Presidente fez o seu exame positivo à covid-19, o Brasil voltou a ser o país do mundo que mais mortos desta doença teve — 656, segundo a worldometers.info, (a média diária de mortes por Covid, em Julho, está por volta de 1200. Nos fins de samana costuma haver subnotificação – NdR) que o Governo federal brasileiro deixou de dar números há muito, e mesmos esses números estavam seguramente subnotificados — e os coveiros, de facto, têm de ser outros: aqueles que há meses abrem valas comuns para os mortos nos cemitérios das grandes cidades brasileiras.

Enquanto isso, Bolsonaro

  • minimizou a ameaça, a que famosamente chamou “gripezinha”, e assumiu comportamentos de risco,
  • como não usar máscara (ainda este fim-de-semana, na embaixada dos EUA, na comemoração do Dia da Independência daquele país),
  • sair no meio de multidões apertando mãos, e por aí afora.

Bolsonaro foi responsável direto por muitas mortes desnecessárias bem antes de estar doente e revelou uma especial falta de precaução com o sofrimento dos seus semelhantes humanos.

De certa forma,

  • melhor seria mesmo que Bolsonaro estivesse agora inventando um teste positivo
  • para de novo chamar a atenção para si mesmo,
  • para poder provar que o coronavírus é mesmo uma gripezinha,
  • para continuar a fazer a promoção da hidroxicloroquina como banha-da-cobra,
  • ou por qualquer outra das muitas teorias que já pululam pelas redes sociais brasileiras.

Seria melhor, porque nesse caso Bolsonaro não teria posto em risco as vidas das dezenas ou centenas de pessoas com quem se cruzou nos últimos dias.

Também por isso,

  • revelar com Bolsonaro mais humanidade do que a que ele (não) revelou com os outros,
  • desejando que a doença lhe seja leve e que a cura seja pronta, deve ser um ponto de honra.

De outra forma franquiaríamos uma linha que nos aproximaria da maneira de ser de Bolsonaro — e isso é a última coisa que devemos desejar para nós mesmos.

No fundo,

  • esperemos que o vírus não seja para Bolsonaro a tragédia que Bolsonaro é para o Brasil.
  • Mas este talvez seja o momento para lembrar que a tragédia que Bolsonaro é para o Brasil
  • não caiu do céu nem foi enviada pelos deuses.

Na tragédias, aqueles a quem os deuses querem destruir tratam primeiro de os fazer enlouquecer. E por essa loucura a que o Brasil foi levado para chegar a produzir um Bolsonaro presidente da República há muitos responsáveis.

São responsáveis

  • aqueles que na primeira volta das presidenciais brasileiras
  • contribuíram para fazer de um ex-militar corrupto e deputado medíocre um “mito”,

minimizando as vezes e a natureza de tantas declarações em que ele

  • glorificou torturadores,
  • apelou a violações de direitos humanos,
  • ou ironizou com violações de mulheres propriamente ditas,
  • ou propagandeou que a ditadura brasileira “matou foi pouco”.

São responsáveis

  • aqueles que na segunda volta das presidenciais brasileiras insistiram em qualquer tipo de equivalência moral ou política
  • entre um perigoso desqualificado como Jair Bolsonaro e o seu adversário, o professor e político Fernando Haddad,
  • por este ser do odiado PT, apesar de ser um dos melhores quadros e um dos pensadores mais independentes do partido do ex-presidente Lula.

E são ainda responsáveis

  • aqueles que, apesar do estado de degradação a que o Brasil e as suas instituições têm chegado nos últimos tempos,
  • se revelam renitentes a aplicar a medida evidente da impugnação do Presidente.

Agora é que é altura, Brasil, para se ser parcimonioso com o impeachment?

Basta pensar

  • nas declarações do Presidente
  • e nos apoios políticos por sua parte a atos contra a independência dasinstituições judiciais, a começar pelo Supremo Tribunal Federal,
  • para nos perguntarmos: o que fez Bolsonaro para não ser alvo de um impeachment, em comparação com outros presidentes que o foram antes dele?

E o pior é que

  • não se vê da parte de todos esses responsáveis — por ação e omissão — pela ascensão do bolsonarismo
  • o mínimo empenho em trabalhar para corrigir o mal que fizeram ao seu próprio país.

A eleição de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil é uma chaga aberta interna e externa tanto na saúde das instituições brasileiras, como na imagem exterior do país, que vai demorar muito tempo a sarar.

Esperemos então que Bolsonaro fique em breve livre do vírus da covid-19. E que rapidamente todos os democratas brasileiros entendam

a missão comum que têm para que um dia, o mais cedo possível, o Brasil se possa livrar do vírus do bolsonarismo.

 

A tragédia de Bolsonaro | Opinião | PÚBLICO

Rui Tavares

Historiador

Fonte: https://www.publico.pt/2020/07/07/mundo/opiniao/tragedia-bolsonaro-1923489

 

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