Será Possível a Reforma na Igreja?

POR QUE A REFORMA PROTESTANTE NÃO EXISTIU? | TribunaHoje.com

Frei Bento Domingues, O.P. – 05/06/20 -Imagem:   Daqui – Jesus entrega as chaves do Reino a Pedro

Pio XII e a sua herança queriam retomar e completar o Vaticano I.

  • João XXIII insistiu que não era o que tinha anunciado e inaugurado.
  • Era outra coisa. Era o Vaticano II: para um mundo diferente era urgente uma nova consciência eclesial.

É revelador o desconforto que as entrevistas de D. José Ornelas, bispo de Setúbal, estão a provocar em certos meios católicos.

 

 

1.O grande acontecimento na Igreja Católica, no século XX — e sem o qual seria impensável o Papa Francisco no século XXI — foi o Concílio Vaticano II (1962-1965). O próprio general de Gaulle considerou-o o maior acontecimento do século. O Secretário-Geral da ONU, Charles Malike, acrescentou: “Talvez o maior acontecimento de vários séculos”.

O Concílio Vaticano I (1869-1870), convocado por Pio IX,

  • num clima de enfrentamento com o mundo moderno
  • e de conflitualidade com os Estados soberanos europeus,
  • teve de ser encerrado devido à ocupação de Roma pelas tropas de Garibaldi.

Como nessa Assembleia tinha sido proclamada a infalibilidade do magistério papal, segundo condições muito precisas, não faltava quem julgasse que, doravante,

  • um concílio era dispensável:
  • o Papa podia falar e decidir por todos.

Essa posição denunciava

  • uma eclesiologia simplista
  • e falta de inteligência acerca do que significa e representa um concílio.

Revelava uma concepção mecânica da vida da Igreja e da própria fé.

Em 1922, Pio XI deu a entender que iria retomar o Vaticano I suspenso em 1870.

  • Pio XII retomou um projecto análogo, mas desenvolvido secretamente, de 1948 a 1951,
  • sob a direcção e no clima do “Santo Ofício”!

A sua preparação intensa emergiu na encíclica Humani generis (1950) e infiltrou-se ainda nos diversos projectos da própria Comissão teológica preparatória do Vaticano II [1].

  • Pio XII e a sua herança queriam retomar e completar o Vaticano I.
  • João XXIII insistiu que não era o que tinha anunciado e inaugurado.
  • Era outra coisa.

Era o Vaticano II: para um mundo diferente era urgente uma nova consciência eclesial.

No Vaticano II,

  • os seus membros puderam exprimir-se em plena liberdade,
  • os seus decretos e ensinamentos foram verdadeiramente frutos do Concílio
  • e promulgados com uma fórmula simultaneamente conciliar, colegial e pontifícia.

Foi, de facto, um grande acontecimento, para além das significações que lhe reconheceram as personalidades citadas e muitas outras. Foi um acontecimento no próprio sentido da palavra:

  • algo de diferente, inesperado, no curso regular dos fenómenos da natureza ou das manifestações que se esperam de uma instituição.
  • Um acontecimento é um facto que, uma vez ocorrido, afecta o presente e o futuro.

Numa assembleia, sob o ponto de vista sociológico, acontece uma comunicação de ideias e de convicções, na qual cada um vai além daquilo que, sozinho, poderia realizar. Um concílio, sob o ponto de vista teológico, não é uma assembleia qualquer.

  • É, certamente, realizado por homens e conhece sempre tensões e manobras.
  • Resulta, no entanto, num momento privilegiado de concentração da consciência da Igreja.
  • Os pastores das Igrejas locais reúnem-se, nessa qualidade, para um mesmo e único acto de comunhão que afecta todas as Igrejas católicas.
  • Assumem todos a consciência da sua responsabilidade perante Deus e perante o povo, num mesmo e único acto colegial.

Numa deficiente imagem espacial, poderia dizer-se que a Urbis descentrou-se para o Orbis, na medida em que o Orbis tomou posse da Urbis [2].

 

2. No século XXI,

  • devido a um longo silenciamento do espírito conciliar,
  • ainda experimentamos a dificuldade em entender as virtualidades desse extraordinário acontecimento eclesial
  • e, sobretudo, em realizar o seu projecto e de o recriar segundo a bússola do sinais dos tempos.

Como, em Portugal, não foi preparado, não foi acompanhado, nem estimulada a sua aplicação, continuam as resistências ao seu espírito actuante no engenho e na arte do admirável Bergoglio.

É revelador

  • o desconforto que as abertas entrevistas e declarações de D. José Ornelas, bispo de Setúbal, estão a provocar em certos meios católicos,
  • quando, de facto, se inserem no mais genuíno espírito do Vaticano II.

O projecto deste concílio não foi elaborado por um grupo de burocratas romanos sob a vigilância “do Santo Ofício”.

  • Essa tentativa existiu, mas foi derrotada logo no começo.
  • Foi-se configurando, desde a convocatória inesperada de João XXIII, a 25 de Dezembro de 1961 e da sua inauguração a 11 de Outubro de 1962,
  • até ao encerramento das quatro sessões do Concílio, a 8 de Dezembro de 1965.

No entanto,

  • desde o começo, apresentou-se como aggiornamentoisto é, pôr a Igreja em dia,
  • o que implicava uma profunda reforma, pois continuava com séculos de atraso.

João XXIII havia traçado o caminho a 11 de Outubro de 1962:

  • “O espírito cristão, católico e apostólico espera, no mundo inteiro, um grande salto para a frente na penetração doutrinal e na formação das consciências,
  • que corresponda mais perfeita e fielmente à doutrina autêntica,
  • que deve ser, porém, exposta segundo os métodos de busca e apresentação usados pelo pensamento moderno.

Uma é a substância da doutrina antiga contida no depósito da fé, outra é a formulação da qual pode ser revestida,

  • tendo como regra, para as formas e proporções,
  • as necessidades de um magistério de carácter sobretudo pastoral”.

 

3. Nada fazia prever que a eleição papal de João XXIII iria causar o abalo que provocou na vida da Igreja e nas suas instituições. Abrigava a subversão de que ninguém suspeitava.

  • Muita gente já perguntou:
  • o que terá motivado — além do Espírito Santo e da sua discreta e fantástica argúcia pessoal — João XXIII
  • a acreditar que a reforma na Igreja era não só necessária, mas possível?

Há quem diga que

  • foi um livro maldito de um autor exilado e perseguido pelas instâncias do “Santo Ofício”!
  • O livro chamava-se Vraie et fausse reforme dans l’Église (1950) (Verdadeira e falsa reforma na Igreja – NdR); o autor era Yves Congar, um dominicano, que nasceu em 1904 e morreu, em Paris, a 22 de Junho de 1995. Há, precisamente, 25 anos!

Foi um missionário que, ao visitar em 1952 o Núncio Angelo Roncalli, na nunciatura de Paris,

  • o encontrou a ler e a anotar nas margens essa obra proscrita
  • e a dizer ao seu visitante: É possível uma reforma na Igreja?!

Depois de muitos anos de perseguição, esse maldito Congar é surpreendido, no dia 20 de Julho de 1960 ao ler o jornal La Croix, pela notícia: tinha sido nomeado perito do Concílio. Alegrou-se ao ver que, depois de tantos e tantos esforços e sofrimentos, lhe possibilitavam um novo e amplo campo de intervenção. Observou, pouco depois, com tristeza:

“Em Roma há toda uma equipa aplicada a sabotar o projecto do Papa”!

Mais uma vez lutou e convenceu. Foi o perito mais solicitado e que mais influenciou os principais documentos do Vaticano II. Deixou uma obra impressionante. Em 1987, contava 1790 títulos. Falta ainda muito para percorrer os caminhos que ele abriu.

 

[1] Yves Congar, Le concilie comme événement, in Joseph Famerée et Gilles Routhier, Yves Congar, Cerf, 2008, pp.302-306.

[2] Op. Cit., p. 304.

 

Frei Bento Domingues

in Público, 05.07.2020

https://www.publico.pt/2020/07/05/opiniao/opiniao/sera-possivel-reforma-igreja-1922885

 

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