O CARDEAL

Frei Betto,  04/07/20

Dom Paulo Evaristo Arns, ao se tornar bispo auxiliar e depois arcebispo e cardeal de S. Paulo, em contato com a pobreza e com a realidade sócio-política da época, se tornou um dos mais corajosos bispos do Brasil, enfrentando e denunciando a tortura sistemática da Ditadura Militar ao Brasil e ao mundo.

* Forquilhinha, 14 de setembro de 1921 — +São Paulo, 14 de dezembro de 2016 (Imagem: Fabio Braga/Folhapress).

 

À porta do presídio o bispo é impedido de entrar. Só o arcebispo, que ali nunca esteve, tem passe-livre. Pouco depois, o arcebispoque viu torturados, mas jamais acreditou em torturasé removido para Roma (Refere-se ao card. Agnelo Rossi, que sabia das prisões e torturas, mas nunca as denunciou – NdR).

O papa nomeia para o seu lugar o bispo proibido de visitar os presos políticos. Do alto de seu novo múnus arquiepiscopal, o futuro cardeal, todo paramentado, apresenta-se à porta do presídio que, agora, se abre ao sopro da força do Espírito.

 

Batismo de Sangue

Foto: Reprodução – Internet

O novo arcebispo

  • sobe as escadas da galeria de celas,
  • ouve atento as denúncias de maus-tratos,
  • visita os frades dominicanos acusados de subversão,
  • abençoa os que sofrem.

Semanas depois, um dos frades é levado de volta às sevícias e, durante três dias, submerge no batismo de sangue, em comunhão com os mártires.

O cardeal deixa a sua casa – pois vendera o palácio episcopal para construir centros comunitários na periferia – e vai ao presídio consolar o frade, cuja boca havia sido aberta para “receber a hóstia” de descargas elétricas, enquanto a pele ardia à brasa de cigarros.

  • O cardeal ignora a advertência dos policiais
  • e entra, sem pedir licença, numa delegacia de proteção da ordem política e social.
  • Ninguém ousa barrá-lo, nem se atreve a acusá-lo de desacato à autoridade.
  • O cardeal está de clergyman e caminha firme rumo ao subsolo, onde encontra um de seus padres sangrando em dores.

Como quem teme mais a autoridade de Deus que a dos homens,

  • o carcereiro mete a chave no cadeado e destranca os ferrolhos,
  • permitindo que o cardeal toque as chagas do sacerdote descido há pouco do pau-de-arara.

 

Justiça enfim reconhece: tortura matou jornalista Vladimir Herzog

O jornalista Vladimir Herzog, o jornalista “suicidado”, segundo os militares / Foto: Daqui

O jornalista judeu foi suicidado no mesmo local em que o frade havia sido espancado. O cardeal reage indignado e convoca os fiéis para a missa solene na catedral.

  • Rabinos e empresários, empenhados em demover o cardeal, dirigem-se à casa dele e tentam convencê-lo da insensatez de um culto católico para um judeu assassinado.
  • O cardeal retruca enfático: “Jesus também era judeu”.
  • E abre a catedral à cerimônia fúnebre.

O cardeal

  • viaja quilômetros de carro para visitar prisioneiros afastados dos grandes centros urbanos,
  • aceita mediar a greve de fome dos encarcerados,
  • abre suas portas a familiares e advogados que vêm contar-lhe da mais recente vítima da ditadura.

O cardeal telefona a generais e delegados, protesta junto ao presidente da República, informa ao papa o que se passa nos subterrâneos da história do Brasil.

 

Brasil: nunca mais | Amazon.com.br

Brasil, Nunca Mais: Foto reprodução – Internet

A ditadura agoniza e o cardeal, convencido de que não se deve repetir nunca mais esta página da história,

  • escreve o mais contundente relato dos crimes do regime militar, Brasil, Nunca Mais.
  • O livro alcança repercussão mundial e torna-se fator de interdição, em funções públicas, de muitos que acreditavam que a liberdade se esculpe a pauladas.

O cardeal incomoda, com o seu profetismo, a própria Igreja.

  • Sua arquidiocese é retalhada, restando-lhe o centro, enquanto seu coração permanece na periferia.
  • Seu nome é suprimido das comissões vaticanas.

O papa João Paulo II mostra-lhe o dossiê que a Cúria Romana preparara contra ele e atira-o no lixo. O cardeal dobra-se, apanha os papéis e pede ao papa que assine, para guardar de recordação.

O cardeal se chamava Dom Paulo Evaristo Arns.

 

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Frei Betto, OP

Frade dominicano, assessor das CEBS, preso na Ditadura militar, escritor com mais de 30 livros publicados, entre os quais Batismo de Sangue

Fonte: http://iserassessoria.org.br/frei-betto-o-cardeal/

 

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