Africana, feminista e “apaixonada por Jesus”

Anne-Nadège Assahon é doutoranda em Filosofia Política e fundadora de um movimento pelos direitos das mulheres

A reportagem é de Lucie Sarr, publicada em La Croix International, 09-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

“Ao ler a Bíblia, eu me dou conta de que algumas pessoas costumam usá-la para transmitir ideias misóginas”,

diz Anne-Nadège Assahon, que se descreve como uma “ativista feminista apaixonada por Jesus”.

“Recentemente, houve um debate sobre a poligamia na Costa do Marfim, e algumas pessoas estavam usando a Bíblia para tentar justificar a prática com o argumento de que Davi, Salomão e outros eram polígamos”,

lembra ela com uma pitada de humor, observando que é importante conhecer as Sagradas Escrituras para não sermos enganados.

Anne-Nadège Assahon / La Croix International.

A jovem de 31 anos está atualmente fazendo o seu doutorado em Filosofia. Ela é uma leitora voraz de Simone de Beauvoir, uma figura pioneira do feminismo filosófico contemporâneo.

Ela também é membro de duas organizações feministas –

  • a Liga para a Defesa dos Direitos da Mulher da Costa do Marfim
  • e  a Associação de Mulheres Comprometidas com a Mudança (Alfec, na sigla em inglês).

Além disso, Anne-Nadège é fundadora do Centro de Escuta e Aconselhamento Manowach, que ajuda meninas adolescentes.

“Neste centro, tentamos restaurar a comunicação dentro das famílias, porque percebemos que todos os casos de estupro e de abuso infantil têm origem dentro da família”, explica.

Anne-Nadège não nasceu em uma família católica, mas escolheu livremente essa religião quando era criança.

“Eu costumava ir de igreja em igreja quando eu era criança, para ver o que estava acontecendo”,lembra ela.

Um dia, vizinhos católicos a convidaram para se juntar a eles em um encontro promovido pelo movimento eclesial Valiant Hearts/Valiant Souls.

“Eu fui atraída por isso, nós dançamos e cantamos. Depois pedi aos meus pais que me inscrevessem na catequese”, lembra ela.

“Eu queria ser padre”

Para uma feminista, quais são algumas das coisas na Igreja contra as quais ela luta?

“Que o sacerdócio é reservado aos homens”, responde Anne-Nadège sem hesitar.

“Isso me surpreendeu antes mesmo de me tornar pesquisadora e feminista”, afirma.

A primeira vez que a jovem se questionou sobre o sacerdócio ministerial foi durante um retiro que ela fez antes de ser batizada.

“O padre que estava dirigindo era tão eloquente que eu queria ser como ele”, lembra ela. “Então, eu perguntei a ele por que eu não podia ser padre. Ele disse que eu poderia ser freira. Mas eu queria ser padre… Era isso que me atraía”,diz ela.

“Até agora, não me convenci de nenhuma das razões que me deram para explicar por que as mulheres não podem ser padres”, ressalta.

Reexaminar a questão da contracepção

A outra questão contra a qual essa feminista luta é a contracepção artificial.

As mulheres que foram estupradas não podem usar a pílula do dia seguinte contida no kit pós-estupro”, observa ela.

“Isso põe as vítimas de estupro em risco de uma gravidez indesejada. Eu acho que esse é um problema que precisa ser revisto”,diz ela.

Apesar dessas questões espinhosas, Anne-Nadège se sente totalmente parte da Igreja.

“Sinto-me profundamente católica”, explica. “E, como eu tenho sede de conhecimento, estou disposta a travar tais debates entre os católicos.”

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