Hong Kong: o céu e a terra mudaram de lugar

Manifestação Hong Kong. Democracia. Agosto 2019.

 | 31 Mai 20 – Manifestação em Hong Kong a favor de reformas democráticas, em Agosto de 2019. Foto © VOA/Wikimedia Commons

“Vamos ser acusados por cada palavra. Isto é terrível. Hong Kong vai transformar-se numa cidade igual às outras, na China”,diz o cardeal Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong. 

 

A Assembleia Popular Nacional, órgão máximo legislativo da China, aprovou quinta-feira passada, 28 de Maio, uma resolução que abre caminho a uma lei de segurança nacional em Hong Kong.

Significa que passa a ser proibido

“qualquer acto de traição, separação, rebelião, subversão contra o Governo Popular Central, roubo de segredos de Estado, a organização de actividades em Hong Kong por parte de organizações políticas estrangeiras e o estabelecimento de laços com organizações políticas estrangeiras por parte de organizações políticas de Hong Kong”.

Entre os sete artigos da proposta, aponta-se um mecanismo legal que permite ao Comité Permanente da APN articular legislação com Hong Kong para “prevenir actos de subversão contra o poder do Estado”.

Hong Kong continua a ser membro da Organização Mundial do Comércio, o que lhe permite ter relações comerciais com os EUA

Hong Kong. Foto: Daqui

Em causa está o controverso artigo 23 da Lei Básica – a mini-constituição do território. A primeira tentativa para o regular aconteceu, em 2003, cinco anos depois da passagem de Hong Kong para a China. A intenção do Governo da altura acabou congelada dada a oposição de meio milhão de pessoas, nas ruas, que temiam a redução das liberdades cívicas e a intromissão do Estado chinês na autonomia da cidade.

Os receios fundamentavam-se na prática corrente dos tribunais chineses de avocarem leis de segurança nacional, incluindo acusações como “separatismo”ou “subversão do poder do Estado”, para silenciar dissidentes ou activistas, organizações não-governamentais, advogados, membros de Igrejas ou associações religiosas que desafiem o domínio do Partido Comunista Chinês (PCC).

Os opositores temiam a ruína do princípio “um país, dois sistemas”pensado por Deng Xiaoping, na década de 1980, para garantir a continuação do modo de vida das populações, em Macau e Hong Kong, durante os primeiros cinquenta anos da transição para a China. Em síntese, o longo braço chinês. Travada então, Pequim já não espera.

  • Se há dezassete anos a contestação foi um passeio na avenida,
  • de Junho a Dezembro últimos a turbulência social e política atingiu níveis inauditos.
  • O pretexto foi uma proposta de lei de extradição.

Confrontos entre polícia e manifestantes, entre manifestantes pró e manifestantes contra, entre deputados pró e deputados contra, entre camisolas brancas e camisolas negras, entre todos contra todos.

No próximo dia 9 de Junho, assinala-se um ano desta nova vaga. Controlados os efeitos da pandemia, um outro surto regressa, como um boomerang.

O velho normal

Confrontos em Hong Kong em 12 de Janeiro de 2020. A violência não pára desde há um ano. Foto © 立場新聞 / Wikimedia Commons

 

A cidade não cicatrizou a violência. Na noite de domingo, 24 de Maio, foram vários os grupos a insurgir-se nas ruas contra o agendamento pelo Conselho Legislativo (o parlamento local), no início da semana passada, da lei que criminaliza o desrespeito ao hino nacional chinês. Em poucas horas, a Polícia deteve cerca de três centenas de pessoas e, na quarta-feira, outras 400. A maioria com 20 ou menos anos de idade.

O Conselho Legislativo está bloqueado. No Verão, o edifício foi invadido, vandalizado, devastado, pinchado por um tsunami de manifestantes de cara coberta. Foi a 1 de Julho, feriado pelo dia de aniversário da devolução de Hong Kong à China. A sessão parlamentar ficou por ali.

Passados dez meses, o hemiciclo continua num teatro de Pirandello. Deputados expulsos; deputados que fintam seguranças, agressões físicas, sapatos pelo ar, homens fora de si, gente a escalar as paredes da sala. Cartazes, slogans, imprecações. Trabalhos suspensos. Semanas assim.

Desta vez, os deputados conseguiram agendar a polémica lei do hino, mas a votação final ficou marcada para 4 de Junho – um dia carregado de simbolismo, aniversário do massacre dos estudantes pró-democracia, na Praça de Tiannanmen, em Pequim, pelo Exército Popular de Libertação, em 1989. 4 de Junho, o dia que o Governo escolheu para prolongar a proibição de ajuntamentos. Três vezes quatro – hino, Tiannanmen, pandemia.

Em Hong Kong, a data sempre mobilizou milhares para as ruas. Mas, no ano passado,

  • a tentativa dos deputados aprovarem uma lei de extradição para a China incendiou a pradaria.
  • Desde aí, ininterruptamente, todos os fins de semana, até Dezembro, sete meses,
  • desfilaram marchas que, nalguns casos, tocaram os três milhões de pessoas.

Exigiam a demissão do governo local, o fim da proposta de extradição, uma investigação à conduta da polícia e, no fim da linha, o sufrágio universal. A conversa acabara. As autoridades reagiam a destempo e sem modos.

Foram meses de guerrilha nas ruas. O descontrolo atingiu níveis de paroxismo com

  • a irrupção de confrontos entre vizinhos,
  • as fúrias das seitas contra grupos anti-governo,
  • de violência física, o linchamento de indivíduos capturados por grupos em matilha,
  • ataques a estabelecimentos comerciais marcados pró-Pequim,
  • a polícia jogando gás em passageiros encurralados nas carruagens de metro,
  • greves gerais inéditas destes os motins da Revolução Cultural, ocupações nas universidades que duraram semanas.

Também houve

  • deputados pró-democracia algemados,
  • um pró-regime apunhalado,
  • o aeroporto internacional bloqueado,
  • a Bolsa em agonia,
  • a humidade nos 90 por cento,
  • católicos e pastores protestantes a convocar vigílias de oração, religiosos detidos.

Nas varandas e janelas da periferia, animais nocturnos uivavam slogans. Em Happy Valley, um Verão inteiro, nas partidas de futebol, o hino nacional chinês apupado, uma e outra e ainda outra vez.

Nas tardes e noites de sábado, os exércitos policiais encenavam o mesmo filme catástofre do fim-de-semana anterior e, nas de quinta a domingo, apedrejava-se a esquadra mais próxima. O metro ardia. Dias inteiros, este círculo de fogo: gás, nuvem, lume, gritos, o crepitar dos semáforos no impasse desorientado, vermelho e verde, dos jogadores. Caça, fuga, os miúdos pontualmente abatidos, o carreiro de formigas policromadas esgueirando-se rente ao gigante de espelhos de I.M. Pei.

O couraçado chinês – altifalantes, avisos, atenção, dispersar, disparos em cinco minutos, em quatro minutos, em três… – em massa, detenções, trezentos, quatrocentos, uma geração à procura de si própria. Bloqueada. Em 2014, Occupy Central – 79 dias de acampamentos. Em 2019, trinta-fins-de-semana-trinta consecutivos. Uma geração exausta.

Eram pombas, são falcões

Xia Baolong (terceiro à esquerda), aqui num encontro em Nova Deli com responsáveis do Governo da Índia, em Novembro de 2014: um cruzado na destruição de igrejas e na perseguição religiosa.

 

A história repete-se e acena à tragédia. Na quinta-feira, minutos depois da decisão da Assembleia Popular Nacional, um jornalista perguntou ao primeiro-ministro chinês se Pequim estaria a abandonar o princípio “Um país, dois sistemas”. Li Keqiang negou. Pelo contrário, a lei visa garantir a estabilidade do modelo.

Em Hong Kong, a chefe do Executivo e do bloco pró-Pequim aplaudiram o passo. O caminho está a ser percorrido. A substituição quase em simultâneo, no final do ano passado, dos mais altos responsáveis dos organismos do Governo Central para as regiões administrativas especiais de Macau e Hong Kong sinalizou a mudança de estação.

Pequim mudou o essencial para não tocar no assessório. O governo de Carrie Lam é um papagaio de papel. Xi Jinping nomeou Luo Huining, vice-presidente do Comité para os Assuntos Financeiros e Económicos da Assembleia Nacional Popular, o órgão máximo legislativo da China, para assumir o Gabinete de Ligação do Governo Central, uma espécie de governador-civil de Pequim em Hong Kong.

Huining é um burocrata do Partido, com experiência de governo apenas em Qinghai, uma das três províncias que ocupam metade do Tibete, interior da China, à beira da reforma. Enviado para uma cidade praça financeira, e de tradições liberais como é Hong Kong, em plena crise política, acentuada com a vitória esmagadora dos democratas nas eleições distritais do Outono passado. Um quadro inédito desde a transição de poderes.

Segundo a imprensa de Hong Kong, a decisão foi tomada por Xi depois da deslocação a Macau, em Dezembro, para assinalar os vinte anos de transição de Portugal para a China. Capaz, mas sem sensibilidade.

Um falcão que responde a outro falcão, a um protegido de Xi Jinping, a uma das figuras em ascensão no Partido – Xia Baolong, nomeado, em Fevereiro, para o cargo de director do Gabinete dos Assuntos de Macau e Hong Kong do Conselho de Estado, com um currículo de perseguição religiosa aos católicos subterrâneos, um cruzado na destruição de igrejas, na província de Zhejiang, no leste, cuja capital, Wenzzhou, surge mencionada como “Jerusalém do Oriente” devido ao número de templos cristãos.

 

Zen: Uma revolução? É ridículo

Cardeal Joseph Zen, arcebispo emérito de Hong Kong. Foto © Jindřich Nosek (NoJin)

“Não é uma questão de seguranca nacional, é um problema de autoridade do governo de Hong Kong. Querem silenciar-nos”,

disse o cardeal Joseph Zen aos microfones da Rádio Macau, na semana passada.

O velho salesiano nascido em Xangai, em 1932, carrega as cruzes do século XX chinês. Elevado a cardeal, em 2009, por Bento XVI, é um dos epígonos dos direitos humanos e das reivindicações pró-democracia, em Hong Kong e na Igreja Católica. Tem sido uma das figuras mais inflamadas contra qualquer negociação com o regime de Pequim, na sociedade local e no interior da instituição católica.

“Perdemos quase tudo, mas ainda podemos levantar a nossa voz. Mas com esta nova lei, para eles, a sedição, rebelião só em palavras, já é um crime. Até agora podemos gritar slogans, podemos dizer as nossas opiniões… Apesar de não conseguirmos nada, temos a liberdade de expressar a nossa raiva. No futuro, isso acaba”,

dizia ao canal português da Rádio.

Já em 2003, o cardeal Zen tinha sido uma das vozes activas contra o Governo. Esteve sempre nas ruas. A decisão da Assembleia Popular Nacional em impor uma lei desta natureza revela, também, as pressões que o Presidente chinês está a enfrentar – da pandemia do coronavírus à guerra comercial com os Estados Unidos.

“Xi Jinping está a sentir a pressão de todo o lado. Estão todos a exigir-lhe responsabilidades por ter escondido a verdade sobre a pandemia. Morreu tanta gente! As perdas financeiras são incalculáveis! Xi Jinping também pode estar a sofrer grande pressão dentro da China e mesmo no seio do partido… Por isso, como tem tanto com que se preocupar, talvez tenha pensado que Hong Kong é uma questão pequena e se queira livrar primeiro deste problema para depois se concentrar na guerra com o resto do mundo. Ou”, remata, “talvez, internamente, para garantir o seu poder.”

Tudo somado, “é tudo bastante ridículo”, sentencia.

“Mas há algum perigo, em Hong Kong, para a segurança do país? Será que Hong Kong consegue fazer uma revolução? É, simplesmente, ridículo. Não temos qualquer hipótese de começar uma rebelião… Dependemos da China para ter comida e água…”, considerava ainda.

“O Governo tem usado a polícia para controlar tudo, mas depois apercebeu-se que o mundo inteiro está de olhos em Hong Kong, e que a polícia está a usar força excessiva… Com a nova lei, a polícia pode ter mais poderes para fazer o que está a fazer agora.”.

Deverão os católicos e protestantes (e muçulmanos e…) recear os novos tempos de Hong Kong?…

 

carlos picassinos

Carlos Picassinos

Fonte: https://setemargens.com/hong-kong-o-ceu-e-a-terra-mudaram-de-lugar/

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