Com crescimento recorde, Sleeping Giants irrita tropa de choque bolsonarista dentro e fora do Governo

Movimento que busca minar anúncios de site de desinformação ganha 200.000 seguidores em uma semana e mobiliza 30 marcas. Após pressão de Carlos Bolsonaro, BB desiste de aderir

 

Fabio Wajngarten, secretário de Comunicação do Planalto, protestou contra retirada de anúncio do Banco do Brasil.
BREILLER PIRES –  São Paulo – 23 MAY 2020 

Na Foto: Fabio Wajngarten, secretário de Comunicação do Planalto, protestou contra retirada de anúncio do Banco do BrasilUESLEI MARCELINO

Entre as dezenas de companhias que atenderam às solicitações do Sleeping Giants, destacam-se multinacionais como McDonald’s e Philips.

Em menos de uma semana, a versão brasileira do Sleeping Giants, movimento que expõe empresas que financiam, por meio de anúncios, sites de extrema direita e notícias falsas, causou um terremoto nas redes sociais ao alertar companhias sobre propagandas em canais pouco confiáveis e gerar reações até mesmo no alto escalão do Governo de Jair Bolsonaro.
  • Incomodados com a atuação do perfil no Twitter,
  • que já convenceu mais de 30 marcas e empresas a retirarem publicidade em sistema de mídia programática do Google do portal Jornal da Cidade Online, notório por propagar desinformação,
  • apoiadores do presidente lançaram um contragolpe visando impedir que outras páginas ultraconservadoras sejam afetadas pela debandada de anunciantes.

O primeiro a reagir publicamente foi o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, que reclamou da decisão do Banco do Brasil de vetar anúncios no Jornal da Cidade Online. Em sintonia, o secretário de Comunicação do Planalto, Fabio Wajngarten, afirmou que contornaria a situação a favor dos “veículos independentes”.

Após os protestos,

“O Sleeping Giants precisa urgentemente deixar o viés ideológico de lado na hora de fazer suas supostas denúncias”,

publicou Wajngarten em sua conta no Twitter.

 Nesta quinta-feira, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão
  • solicitou investigação sobre os gastos em campanhas publicitárias
  • executados pela pasta chefiada por Wajngarten.

O órgão do MPF

  • aponta a escolha de veículos para propaganda por parte da Comunicação da Presidência em razão de afinidades ideológicas,
  • além de acusar a Secom de direcionar verbas para sites alinhados a Bolsonaro
  • e censurar mídias críticas ao Governo.

Procuradores ainda reivindicam a análise de uma ação de improbidade administrativa contra Wajngarten.

  • Ele é acusado de favorecer, com direcionamento de recursos da Secom,
  • emissoras de TV que possuem contratos com sua agência de marketing.

Os deputados Felipe Rigoni (PSB-ES) e Tabata Amaral (PDT-SP) incluíram em uma representação ingressada na Procuradoria-Geral da República

  • o pedido para que o secretário seja investigado
  • por descumprir o princípio da impessoalidade ao prometer intervir em decisão do Banco do Brasil.

Fazendo coro ao irmão,

Em seu canal do YouTube, o filho do presidente expressou preocupação com o que chamou de “a mais nova estratégia da esquerda para destruir blogs de cunho conservador”.

Segundo ele,

  • o movimento se trata de “milícia virtual” e “uma patrulha ideológica pré-ordenada”,
  • clamando ao empresariado que “não se curve ao politicamente correto”.

O deputado aproveitou para divulgar dois perfis criados no Twitter com objetivo de contrapor o Sleeping Giants (um deles, no entanto, já saiu do ar por descumprir as regras da plataforma).

  • Para tentar reverter a campanha iniciada a fim de desidratar a principal fonte de renda dos sites de fake news e extrema direita,
  • apoiadores de Bolsonaro pregam boicote às empresas que vetaram seus anúncios no Jornal da Cidade Online.

A hashtag #NaoCompreDell apareceu entre os temas mais comentados do Twitter após a empresa de computadores retirar propaganda do site. Em um editorial,

  • a página se diz vítima de censura e se defende com a publicação de nova notícia distorcida, em que atesta,
  • com base em publicações de usuários no Twitter, mas sem nenhuma comprovação estatística,
  • que os anunciantes que bloquearam publicidade no site estariam perdendo clientes “de maneira avassaladora”.

Uma das mais ferrenhas apoiadoras do Governo, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) também criticou a Dell por ceder à “pressão de um perfil anônimo de esquerda”, atitude que qualificou como “gesto de desprezo pela maioria conservadora da população brasileira”.

Em abril,

Por não ter apresentado provas, o Governo do Estado divulgou nota de repúdio e informou que tomaria as “medidas judiciais cabíveis” em relação à fala da deputada.

Repercussão impressiona criadores do movimento

Enquanto desagrada o Governo e seus seguidores, o Sleeping Giants Brasil é celebrado por personalidades como

que se mostraram simpáticos ao movimento.

Os fundadores da iniciativa nos Estados Unidos

  •  festejam o sucesso meteórico da filial brasileira,
  • que, em cinco dias, superou a marca de 200.000 seguidores e já está próxima de alcançar os números do original em inglês.

“O perfil gerou um movimento massivo em todo o Brasil,

  • sendo comentado por todos, desde o maior youtuber do país até os filhos de seu presidente,
  • teve grandes anunciantes que deixaram de apoiar um site que espalha desinformação
  • e, em breve, será muito maior do que a nossa humilde e pequena conta”,

publicou a matriz norte-americana, que foi fundada em 2016 e tem 270.000 seguidores.

Além de empresas,

  • pessoas físicas, como profissionais autônomos e palestrantes, também tem sido alertadas pelo perfil sobre anúncios de mídia programática exibidos em páginas de extrema direita e notícias falsas.
  • Um deles é o economista e empresário Eduardo Moreira, que revisou os filtros do sistema de propaganda online do Google após indicação de que seu banner aparecia no Jornal da Cidade Online.

“Alertado por seguidores sobre o anúncio das minhas aulas gratuitas de finanças sendo veiculadas num site de fake news, pedi imediatamente que a equipe que coordena as propagandas agisse. Bloqueamos este e vários outros sites”, disse Moreira.

Entre as dezenas de companhias que atenderam às solicitações do Sleeping Giants, destacam-se multinacionais como McDonald’s e Philips. Pelas regras de compliance,

algo levado em consideração pelos precursores do movimento ao adotar a abordagem de alertá-las sobre a associação, via publicidade digital, com páginas disseminadoras de fake news e desinformação.

Os alertas já renderam situações inusitadas,

  • a exemplo do Nubank, que, ao ser questionado sobre um anúncio,
  • verificou que a publicidade não fazia parte de suas campanhas oficiais
  • e, na verdade, se tratava de um golpe para atrair usuários com falsas facilidades na aprovação de cartão de crédito.

O EL PAÍS

  • identificou anúncios de empresas como Mastercard e Drogaria São Paulo —suspensos após contatos da reportagem—
  • em canais de YouTube vinculados à extrema direita e com histórico de publicação de informações falsas.

De acordo com o administrador do Sleeping Giants Brasil, que mantém anonimato, há mais de 100 páginas e canais monitorados por causa de fake news que se sustentam das receitas com mídia programática. No entanto,

  • a estratégia do perfil é focar na exposição massiva de um veículo por vez
  • até que seja desmonetizado por completo.

Adepto da agenda bolsonarista e reiteradamente denunciado por agências de checagem pela propagação de notícias falsas,

  • o Jornal da Cidade Online esvaziou, na tentativa de conter a sangria, seus espaços reservados a anúncios direcionados pelo Google
  • e ainda perdeu o banner fixo do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), que determinou a retirada da publicidade em meio ao turbilhão desencadeado pela chegada do Sleeping Giants ao país.

 

 

Breiller Pires | El País, ESPN (Brasil) Journalist | Muck Rack

 

BREILLER PIRES

Fonte: https://brasil.elpais.com/acervo/2020-05-23/

 

 

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