Sozinho contra a Cúria Romana e o mundo: a nova biografia de Bento XVI

Massimo Faggioli faz uma recensão do livro “Bento XVI. Uma vida”, de Peter Seewald


Sozinho contra a Cúria Romana e o mundo: uma nova biografia de Bento XVI

 Massimo Faggioli – USA – 13 de maio de 2020

Bento XVI, 30 de junho de 2015. (Foto de Evandro Inetti / ZUMA Wire / MaxPPP)

A biografia de um papa é um gênero complicado, especialmente na era do “santo subito” e da tendência recente de canonizar rapidamente os papas apenas poucos anos após a sua morte.

Esse gênero tornou-se ainda mais complicado, agora que existe um “papa emérito”. E Peter Seewald, jornalista alemão, aceitou esse desafio com a sua biografia recém-publicada de Joseph Ratzinger-Bento XVI: Bento XVI. Uma vida.

 

Uma biografia eclesial e política

Este grosso volume (com 1.184 páginas) é realmente o segundo livro de Seewald sobre Bento desde que o papa bávaro renunciou em 2013. O autor publicou uma entrevista do tamanho de um livro com o papa aposentado em 2016, intitulada Last Conversations [Últimas Conversas].

Todavia o seu último trabalho não é a primeira biografia abrangente de Ratzinger. O teólogo italiano Elio Guerriero já lançou anteriormente  Benedict XVI: his life and thought  [Bento XVI: a sua vida e o seu pensamento] em 2018.

Diferentemente do esforço de Guerriero, o último olhar de Seewald sobre Ratzinger-Benedict XVI não é uma biografia intelectual ou espiritual. Pelo contrário, é eclesial e “política”.

 

Acertando velhas contas

Baseada em grande parte em muitos anos de entrevistas e conversas com Bento, ele tenta ajustar definitivamente a narrativa sobre o antecessor ainda vivo do Papa Francisco.

  • Ele tenta justificar as posições de Ratzinger no debate intelectual e no “debate político-religioso”.
  • E tem como objetivo acertar as contas com várias figuras importantes no Vaticano, na mídia e na igreja alemã. Algumas dessas figuras ainda estão vivas.

Publicado apenas em alemão, por enquanto, este livro terá suas traduções em inglês e italiano disponíveis no outono de 2020.

Esta biografia não é um trabalho historiográfico baseado em arquivos. No entanto, é cheio de detalhes interessantes, principalmente devido ao amplo acesso do autor a Joseph Ratzinger, especialmente por meio de uma série de entrevistas no outono de 2018.

 

Os “anos romanos” de Joseph Ratzinger

Este enorme volume exigirá análises mais aprofundadas. Mas, por enquanto, vale a pena analisar a narrativa que Seewald faz da vida de Joseph Ratzinger, desde os primeiros anos da década de 80 – quando o então arcebispo de Munique foi nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) – até ao presente.

O objetivo claro do autor é defender o longo e bem conhecido histórico do papa aposentado. O seu esforço para fazê-lo torna-se às vezes um pouco incongruente, como quando ele retrata o cardeal Ratzinger

  • como sendo favorável ao “fortalecimento do papel da mulher na sociedade” (capítulo 52),
  • sem mencionar como a visão do prefeito do CDF sobre as mulheres era recebida na Igreja.

A seção sobre a batalha de Ratzinger contra a teologia da libertação na América Latina nos anos 1980 é também defensiva.

  • Não há nenhum reconhecimento de mal entendidos
  • nem de que se tratou de uma tragédia eclesial. A biografia afirma que o esforço dos teólogos da libertação para ajudar a Igreja a libertar a si mesma e ao seu povo dos ditadores foi lido por Ratzinger através das lentes da sua experiência com a manipulação política da religião na Alemanha nazista.

De fato, a Alemanha desempenha um grande papel nesta biografia: Ratzinger nemo propheta  in patria sua, alemã.

Seewald

  • vincula a “Declaração de Colônia”, dos teólogos alemães (1989) – que desafiava a política geral do Vaticano sobre doutrina – ao debate sobre a regulamentação do aborto na República Federal [Alemã].
  • Mas, de fato, havia outras importantes questões teológicas em jogo,
  • e não apenas “um acordo com o Zeitgeist [Espírito da época]” por parte de uma ala da Igreja alemã sob a influência do cardeal Karl Lehmann (capítulo 54).

Que esta é uma biografia política mais do que intelectual, é confirmado pela ausência de nomes como Peter Hünermann, uma das principais figuras da saga da “Declaração de Colônia”.

Assessor leal de João Paulo II

Mas essa biografia é interessante porque o pontificado de Ratzinger está, de alguma forma, espremido entre o do seu antecessor, o já declarado santo João Paulo II, e Francisco. Seewald confirma como Ratzinger via a si mesmo e qual foi o seu papel durante o longo pontificado de João Paulo II: um colaborador leal do papa polonês, mas não sem momentos de grande discordância.

  • Alguns deles eram públicos, como a crítica do prefeito da CDF à primeira reunião inter-religiosa de Assis em outubro de 1986.
  • Menos conhecida é a discordância de Ratzinger  acerca da  linha dura de João Paulo contra os padres que pediam para deixar o status clerical para se casarem (capítulo 53).

Seewald  projeta Ratzinger como um reformador solitário que se ergue contra a Cúria Romana. Ele é “um cardeal solitário que não brinca” (capítulo 54), comparado com alguns outros assessores-chave de João Paulo II. O mais notório deles é o cardeal Angelo Sodano.

Um alvo, Angelo Sodano 

O ex-Secretário de Estado parece ser um alvo especial desta biografia.

  • Sodano é mencionado pelo menos trinta e oito vezes,
  • e sempre representado como o líder do velho sistema curial e administrativo
  • (especialmente na questão super-delicada da crise dos abusos sexuais e dos Legionários de Cristo).

Seewald coloca Sodano  em contraste com o verdadeiro servidor fiel de Ratzinger-Bento XVI, Tarcisio Bertone, o homem que sucedeu a Sodano. Isso leva a alguns detalhes interessantes, como o círculo restrito de assessores que Bento informou antecipadamente da sua decisão de renunciar, decisão que ele não anunciaria publicamente antes de fevereiro de 2013.

O papa, quando ainda reinante,

  • primeiro falou com o seu secretário pessoal, o então monsenhor Georg Gänswein, em setembro de 2012.
  • Depois ele informou o arcebispo Giovanni Angelo Becciu, o Sostituto (vice-secretário de Estado para assuntos internos), em novembro.
  • Em seguida Bento XVI falou com o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, e com Mons. Guido Marini, mestre das cerimônias litúrgicas do Papa.

Somente ao fim desta lista, é que o ‘entourage’ de Bento XVI informou Angelo Sodano,  apesar de este ser o decano do Colégio de Cardeais e ter a responsabilidade de convocar os outros cardeais para o conclave.

Um “reformador solitário” enfrentando os abusos sexuais de clérigos

Esta narrativa do “reformador solitário”,

  • especialmente na questão do tratamento da crise de abusos sexuais,
  • perde força quando a biografia liga os abusos sexuais do clero aos abusos litúrgicos.
  • Mas explica a cegueira teológica de certo tipo de cultura clerical,
  • em que o abuso sexual é um crime contra a fé e os sacramentos, e não contra a pessoa humana.

Agora é verdade que o pontificado de Bento XVI foi um ponto de virada nas ações e nas políticas do Vaticano sobre o abuso sexual dos clérigos.  Foi certamente uma mudança positiva em relação ao seu antecessor. Mas também tinha alguns limites muito evidentes. Por exemplo,

  • uma das primeiras medidas decisivas, adotadas por Bento XVI nesta questão após ser eleito papa em 2005,
  • foi punir Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo (maio de 2006).

Mas foi

  • uma sentença puramente espiritual e penitencial, interna à Igreja,
  • e sem qualquer esforço para atender aos requisitos de um mínimo de transparência.
  • É uma seção do livro (capítulo 68) que lança uma sombra escura sobre o círculo interno de João Paulo II.

A solidão do cardeal Ratzinger também emerge na época do Grande Jubileu do Ano 2000. O prefeito da CDF viu claramente como desagradáveis os eventos, altamente coreografados e semelhantes a espetáculos, que foram apresentados no Ano Santo.

 

Combater o status quo curial, diante de uma mídia hostil

A solidão de Ratzinger muda no conclave de 2005, do qual Seewald apresenta a sua própria versão de como os boletins de voto empilhados em cada escrutínio (capítulo 59) terão que ser comparados com outras contagens não- autorizadas da votação.

  • A biografia mostra o pontificado de Bento XVI como contestado desde o início,
  • envolvido numa luta contra o status quo Curial
  • e defendendo-se de uma mídia hostil.

Esse relato dos oito anos de um pontificado extraordinário não esconde incidentes graves ou erros. Mas o papa reinante nunca parece assumir a responsabilidade por nenhum deles. Este é especialmente

  • o caso do discurso de Regensburg em setembro de 2006
  • e do fiasco SSPX-Williamson no início de 2009 (capítulo 66).

O livro aponta um dedo contra alguns funcionários da Cúria e ordinários locais – muitos deles ainda vivos, alguns ainda não aposentados. Acusa-os, às vezes apenas implicitamente, de falharem no seu dever de aconselhar o papa e o seu ‘entourage’.

 

O “papa emérito” e o pós-papado

Uma das partes mais interessantes desta biografia é, obviamente, a que trata da decisão de Bento de renunciar, seguida por seus anos como “papa emérito” no Vaticano. O papa aposentado confirma o que disse antes sobre as suas razões para renunciar: a sua saúde e forças estavam diminuindo, tornando impossível para ele percorrer longas distâncias nas viagens apostólicas.

Mais uma vez, fica desautorizada qualquer conexão com o escândalo “VatiLeaks” ou com dificuldades em governar a Cúria Romana.

Na questão do título de “emérito”, a biografia diz que o papa aposentado optou por ser chamado “Papa Bento” em vez de “Sua Santidade” ou “Santo Padre“. No epílogo, Seewald observa que, no fim, o desejo de Bento sobre o seu título pós-demissão não foi respeitado.

Bento interpretou o título de “emérito” de uma maneira peculiar. Ele deixa muito claro que, para ele, é impossível para um ex-papa tornar-se um eremita e retirar-se para uma completa privacidade.

“Não retornei a uma vida privada. Não abandono a cruz; permaneço com o Cristo crucificado de uma maneira diferente”, teria dito (capítulo 74).

Essa é uma das ideias mais importantes (repetida também no epílogo do livro)

  • sobre como Ratzinger interpretou a sua decisão de viver como um ex-papa –
  • com enormes consequências para a Igreja e seu sucessor.

 

Relacionamento com o Papa Francisco

O período inicial após a demissão não foi fácil para ele. No epílogo do livro, Seewald fala sobre um “profundo estado de depressão” em que se encontrava o ex-papa. O biógrafo pinta o quadro de Bento em coabitação pacífica com Francisco, marcada por uma lealdade total assim como por uma “discrição inquebrantável” em relação aos assuntos do pontificado do seu sucessor.

Mas isto só é parcialmente verdade.

De fato, Bento XVI colocou o seu nome numa série de declarações, escritos e até num livro, embora não esteja claro quanto ele estava ciente de como elas seriam utilizadas por outros. A biografia permanece um tanto silenciosa sobre isto.

No entanto, faz muito barulho em relação à mídia, que ela acusa de interpretar as declarações públicas do ex-papa de maneira malévola. Entre os exemplos que Seewald oferece, está a mensagem que Bento escreveu por ocasião do funeral do cardeal Joachim Meisner, de Colônia, em 2017. Outro é o artigo do ex-papa sobre a teologia das relações entre a Igreja e os judeus em 2018.

O livro não oferece muita clareza sobre a gênese do controverso artigo de Bento XVI sobre a crise dos abusos sexuais, publicado em abril de 2019.

É um pouco mais claro sobre o fato de o cardeal Robert Sarah não ter sido totalmente franco sobre a questão da assinatura conjunta no livro sobre o celibato sacerdotal, publicado em janeiro de 2019. A biografia afirma que o desejo original de Bento XVI era que seus pensamentos sobre o sacerdócio fossem publicados somente após a sua morte.

 

A entrevista de 2018

 Seewald conclui o seu livro com uma entrevista/conversa que teve com Bento no outono de 2018.

Aqui o papa aposentado confirma que escreveu um testamento espiritual e que, no início de seu pontificado, ele – tal como Paulo VI e João Paulo II – assinou uma declaração que o dispensava do ministério papal no caso de uma doença incapacitante como a demência.

Bento XVI defende a sua decisão de renunciar e de usar o título de “emérito” após a renúncia, simplesmente como algo que o Vaticano II tornou possível para todos os bispos.

Como vimos nos últimos anos, a coisa é obviamente mais complicada do que isto.

“Francisco deveria ter respondido ao cardeal Burke?”

 Há depois algumas páginas sobre os pontos de vista de Ratzinger acerca do ministério espiritual de um ex-papa, que provavelmente farão parte da tradição teológica e canônica a ser ainda construída sobre o “Bispo de Roma emérito”

Quando Seewald pergunta a ele se o Papa Francisco deveria ter respondido aos ‘dubia’ do cardeal Burke sobre a teologia do casamento após as assembleias do a ser envolvido Sínodo dos Bispos em 2014 e 2015, o ex-papa recusa envolver-se  no conflito, negando-se a responder.

Bento então diz ao seu biógrafo que a oposição a ele e ao seu pontificado veio sempre de fora, não da Cúria Romana.

Isto faz parte de uma leitura apocalíptica da situação eclesial contemporânea:

  • o verdadeiro problema não é a corrupção ou os escândalos na Igreja,
  • mas a perda de fé diante de uma cultura radicalmente secularista, ateísta e anticristã.

Bento XVI diz que esta é a cultura que deve ser responsabilizada, entre outras coisas, pela legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e do aborto.

E ele fala, de maneira interessante,  de uma forma de

“excomunhão social para aqueles que se opõem a este credo anti-cristão da sociedade moderna”.

Seewald tornou-se algo como que o biógrafo oficial e autorizado de Bento XVI.

O jornalista alemão, um ex-ateu que se converteu ao catolicismo depois de começar a escrever uma série de livros- entrevistas com Joseph Ratzinger (o primeiro em 1996), explora a vida inteira do teólogo bávaro, clérigo e, finalmente, papa com uma clara intenção apologética e defensiva.

 

Biografia como apologética, de uma maneira não tão subtil

Como nos ensina o historiador jesuíta John O’Malley, o louvor e a culpa na corte romana foram sempre um gênero literário muito complexo.

A apologética numa biografia é a arte subtil do elogio, tentando ser convincente. Mas os argumentos de Seewald não são muito sutis, o que é particularmente lamentável neste caso.

  • E a própria narrativa do “papa emérito” sobre o seu pontificado – e sobre as interpretações do Vaticano II –
  • tentou repetidamente apresentar a realidade como completamente oposta à veiculada pela mídia.

O maior problema na percepção pública e eclesial de Joseph Ratzinger é a tentação, de todos os quadrantes, de pintar uma vida muito longa, rica e complexa a serviço da Igreja como uma simples caricatura, em preto e branco.

O trabalho biográfico de Seewald é um inevitável ponto de passagem no esforço de conhecê-lo e compreendê-lo.

Também não altera substancialmente a narrativa estabelecida, pelo menos no que diz respeito ao mandato de Ratzinger em Roma como cardeal, papa e agora “emérito”.

 

Massimo Faggioli

Fonte: https://international.la-croix.com/news/alone-against-the-roman-curia-and-the-world-the-new-biography-of-benedict-xvi/12362?utm_source=Newsletter&utm_medium=e-mail&utm_content=13-05-2020&utm_campaign=newsletter_crx_lci&PM

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