Cientista escreve Carta aberta otimista às novas geraçõe

 

Maria do Carmo Fonseca – © Gustavo Bom / Global Imagens 

Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e investigadora do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, Maria do Carmo Fonseca escreveu a pedido do DN uma carta aberta em que alerta as novas gerações para os desafios que as esperam. E deixa o apelo para cultivarem e valorizarem a ciência.

É preciso coragem para mudar, sobretudo quando o nosso estilo de vida atual é tão confortável. No entanto, as evidências científicas são irrefutáveis:

  • a exploração que o homem está a fazer da natureza é insustentável.
  • Vivemos obcecados pelo crescimento económico,
  • mas não é possível que as economias de todos os países continuem a crescer indefinidamente.

Considero fundamental que os jovens de hoje se consciencializem dos inevitáveis riscos a curto prazo e façam ouvir a sua voz, pressionando a sociedade para a mudança.

Acredito que a ciência e a tecnologia vão tornar-se ainda mais essenciais nas nossas vidas. Precisamos de observações e medições rigorosas de tudo o que se passa em todos os locais do planeta para estarmos alerta e sabermos onde atuar.

Mas acima de tudo

  • precisamos de novas soluções para viver em harmonia com a Terra,
  • desde novas formas de nos deslocarmos
  • a novas formas de nos alimentarmos e reciclarmos o lixo que produzimos.

A primeira vacina para a gripe foi desenvolvida em 1940 e aplicada apenas em militares. Só em 1960, após uma pandemia causada por um novo vírus da gripe que entre 1957 e 1958 (a Gripe asiática – NdR) matou mais de um milhão de pessoas em todo o mundo, iniciaram-se os programas de vacinação para grupos de risco (isto é, pessoas com doenças crónicas ou com mais de 65 anos). Uma vacina confere imunidade contra um tipo específico de vírus. Ora, o vírus da gripe altera com muita frequência a sua informação genética, dando origem a novas formas de vírus que escapam ao efeito da vacina.

Esta diversidade genética dá também origem, ocasionalmente, a formas de vírus mais agressivas que causam pandemias. Foi o que voltou a acontecer em 1968, com mais de um milhão de mortes em todo o mundo, e apenas há dez anos, em 2009, causando a morte de cerca de 600 mil pessoas a nível mundial.

Porque a capacidade de se reinventar geneticamente é uma característica de todos os vírus, a humanidade sempre esteve e vai continuar a estar sujeita a surtos de infeção por novos vírus.

Foi o caso do VIHvírus da imunodeficiência humana, causador da sida. Esta nova doença começou a ser detetada em 1981 nos EUA e já matou 32 milhões de pessoas no mundo. Em 1994, a sida era, nos EUA, a principal causa de morte de pessoas entre os 25 e os 44 anos. Só em 1995 começaram a ser ensaiados os primeiros medicamentos que viriam a ter um grande sucesso, evitando as mortes e transformando a sida numa doença crónica.

Mais recentemente, em 2003, foram reportados na China os primeiros casos de uma nova doença respiratória denominada SARS, causada por um coronavírus parente do atual SARS-CoV-2. Em plena pandemia, a sociedade pede desesperadamente aos cientistas medicamentos e vacinas eficazes.

Que lições tirar para o futuro?

Acima de tudo, as novas gerações têm de estar conscientes de que vão ser confrontadas com grandes desafios.

  • A falta de respeito pelos animais selvagens, vítimas de captura e comercialização,
  • favorece a infeção humana por novos vírus (ou outros micro-organismos patogénicos)
  • que poderão causar mortalidades bem mais altas do que a atual pandemia.

Muitos modelos ainda praticados na indústria agropecuária

  • incentivam a destruição de florestas,
  • interferem com a qualidade dos solos,
  • são poluidores e favorecem a propagação de epidemias em plantas e animais.

Vão certamente ocorrer grandes desastres naturais

  • como fogos, tempestades e terramotos.
  • As alterações climáticas são uma realidade instalada.
  • Vai faltar a água e aumentar a poluição.

As sociedades do futuro vão depender da ciência e da tecnologia para lidar com catástrofes. Mas as sociedades de hoje insistem em ignorar os múltiplos alertas dos cientistas para perigos eminentes que ainda podem ser evitados.

  • O meu outro apelo é para valorizarem e cultivarem a ciência.
  • Todos os jovens, independentemente das suas profissões futuras,
  • devem ser treinados a aplicar o método científico nos problemas com que se deparam no dia-a-dia.
  • Rigor na observação, raciocínio lógico nas deduções, conclusões baseadas em experimentação.

Em paralelo, as profissões ligadas à ciência têm de ser atrativas e apetecíveis. Tal implica

  • organização,
  • infraestrutura
  • e recursos em permanente atualização.

Finalmente, um alerta: todas as áreas do saber são igualmente importantes. Os avanços tecnológicos mais transformativos resultaram de descobertas que podiam, à primeira vista, parecer irrelevantes. Para o avanço da ciência não há temas de investigação inúteis, desde que as perguntas sejam bem formuladas.

E a ciência não pode deixar de avançar, sob pena de não sermos capazes de resolver os imensos desafios com que nos vamos deparar!

 

Maria do Carmo Fonseca

Prof. da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e investigadora do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes.

 Fonte: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/02-mai-2020/carta-aberta-de-uma-cientista-otimista-as-novas-geracoes-12143794.html

 

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