“O problema não é o ataque contra o Cimi, e sim o ataque mortal contra os povos indígenas”, diz Dom Roque

Conselho Indigenista Missionário é acusado de incitar conflitos no campo em carta publicada pela Funai; “Cimi não irá responder. Não vale a pena”

 

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Julia Dolce – 05/05/20 – Foto: Daqui

“Estão atuando [Governo Federal] para que a mortandade cresça. Um vírus que chega em uma comunidade indígena pode levar a uma tragédia”

“O Cimi é um bode expiatório na atitude do atual governo de desqualificar e ridicularizar quem se opõe ao atual programa dele”

“É um retrato do governo. Dá um tapinha nas costas mas no fundo está arrancando o sangue e a alma dos pobres”

 

 

“Socialista, paternalista e assistencialista” são as três palavras utilizadas, repetidas vezes, em uma carta publicada no site da Fundação Nacional do Índio (Funai) nesta segunda-feira (4), para descrever o indigenismo no Brasil até a ascensão do presidente Jair Bolsonaro.

O documento é uma resposta às críticas em relação

  • à ausência de medidas para conter o avanço alarmante do novo coronavírus entre os povos indígenas,
  • além de críticas voltadas à desconsideração dos direitos indígenas pelo atual governo,
  • apresentadas por Antônio Eduardo Oliveira, secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

O Cimi é um organismo da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB) e um dos mais atuantes na causa indígena.

Na terça-feira (28), Oliveira havia participado da mesa virtual 

  • “Os embates necessários frente aos ataques aos direitos indígenas em tempos de isolamento”, 
  • parte da última edição do Acampamento Terra Livre,
  • mobilização anual da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib),
  • dessa vez, realizado apenas de maneira virtual.

O tom de toda a mobilização, que contou com a participação de dezenas de lideranças indígenas,

  • foi de forte indignação e desespero
  • em relação aos rumos das políticas indigenistas no atual governo,
  • além do avanço da Covid-19.

A carta da Funai, no entanto, não cita a pandemia ou qualquer dado referente ao número de indígenas infectados. Ela se inicia reiterando que

  • a “vitória” de Bolsonaro nas eleições presidenciais
  • representou uma ruptura e rejeição do povo brasileiro ao que chama de “políticas públicas socialistas”,
  • que de acordo com o documento, estavam sendo implantadas pelo Governo Federal desde 2003.

O texto segue criticando

  • uma “velha política indigenista”
  • que “já causou tantas desgraças aos indígenas brasileiros”
  • e em determinado momento acusa o Cimi de incitar conflitos no campo.

Para o presidente da organização, Dom Roque Paloschi,

  • o ataque não é o principal problema,
  • mas sim que o Cimi está sendo utilizado como “bode expiatório”
  • para um massacre deliberado das populações indígenas no país.

“O ataque está sendo feito de forma diuturna, negando direitos constitucionais, e o que é muito mais sagrado, seu direito originário”,

afirmou, em entrevista à Agência Pública nesta terça-feira (5).

Dom Roque lembra os séculos de pandemias que dizimaram povos indígenas brasileiros e alerta para um possível novo genocídio.

  • “Estamos suplicando desde o primeiro momento que o governo tomasse ações sérias e efetivas para evitar que o vírus se propagasse no meio das comunidades.
  • Mas pelo contrário, estão atuando para que a mortandade cresça.
  • Um vírus que chega em uma comunidade indígena pode levar a uma tragédia”, afirma.

Um mapeamento colaborativo divulgado pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e atualizado até o dia 3 e maio

  • mostra que já são 26 óbitos de indígenas na Amazônia brasileira causados pela Covid-19,
  • além de 132 casos confirmados de indígenas infectados
  • e outros 67 casos suspeitos.

Entre os povos mais afetados

  • está o Kokama, do Amazonas,
  • que já perdeu nove lideranças para o vírus,
  • o que levou a divulgação de uma carta por parte de seus representantes,
  • pedindo socorro devido ao “descaso do poder público”.

Já ontem (5) foi confirmada a primeira morte por Covid-19 de um indígena na região sudeste do país. A morte ocorreu no dia 21 de março na Terra Indígena Tenondé-Porã, localizada no distrito de Parelheiros, zona sul da capital paulista. O resultado do exame saiu apenas um mês e 13 dias após a morte.

De acordo com relatório da Apib, a confirmação da morte elevou para 30 o número de indígenas mortos em todo o país. A organização registra também que já são 29 povos diretamente afetados pelo vírus.

Para o presidente do Cimi,

  • as políticas indigenistas de Bolsonaro,
  • principalmente as que flexibilizam o garimpo e as invasões de terras indígenas,
  • contribuem para o avanço da pandemia.

“Vemos que as comunidades tentam fazer a parte delas, mas não têm força para resistir diante dos invasores que têm, por trás, a cobertura e autorização dos órgãos do Estado”.

 

Cimi – Dom Roque Paloschi é presidente do Conselho Indigenista Missionário

Há precedentes para um ataque como esse a uma organização indigenista no período democrático do país?

Dos quase 14 mil conflitos registrados no país desde 2010 pela Comissão Pastoral da Terra, 2019 bateu o recorde negativo: cinco conflitos por dia
A mineração em terra indígena com nome, sobrenome e CNPJ

Levantamento exclusivo revela

  • explosão de processos desde 2019
  • e lista os beneficiários com mais pedidos minerários em TIs:
  • políticos, cooperativas de garimpo e até um artista plástico paulista

Nosso problema é que o ataque não é contra o Cimi, o ataque está sendo mortal contra os direitos dos povos indígenas.

Nosso problema é que o ataque não é contra o Cimi, o ataque está sendo mortal contra os direitos dos povos indígenas. O Cimi está entrando como bode expiatório, porque ao atacar o Cimi e ao ter aqueles que aplaudem as atitudes do atual governo,

  • os direitos dos povos indígenas estão sendo massacrados, despossuídos
  • e, sobretudo, o governo está dando cobertura a todos os atos de banditismo, de ocupação, grilagem e garimpo em terras indígenas demarcadas e não demarcadas.

Então

  • o Cimi é um bode expiatório
  • na atitude do atual governo
  • de desqualificar e ridicularizar quem se opõe ao atual programa dele.

O problema

  • é o ataque que está sendo feito de forma diuturna ao direito dos povos indígenas,
  • negando direitos constitucionais
  • e negando, o que é muito mais sagrado, seu direito originário.

Quanto ao ataque contra o Cimi, não é nada, podem fazer mais. Não tem problema nenhum. E o Cimi não irá responder. Não vale a pena.

Na carta eles se referem a política indigenista no Brasil nos últimos 20 anos com três palavras, basicamente: “Socialista, paternalista e assistencialista”. Como o senhor vê o uso desses conceitos?

É preciso comentar o conteúdo dessa carta? Contra fatos não há argumentos.

A questão dos fatos,

  • a invasão às terras, a grilagem, o loteamento, o assassinato de lideranças indígenas,
  • aumentaram de maneira assustadora desde a eleição do atual presidente.

Quanto ao que dizem sobre as políticas indigenistas anteriores,

  • elas são políticas de governo, jamais o Cimi defendeu este ou aquele governo.
  • Muito pelo contrário, pagamos uma conta cara por se opor, mesmo nos governos de Lula e Dilma Rousseff,
  • às políticas desenvolvidas em relação aos povos indígenas.
  • Pagamos uma conta sempre cara e vamos continuar pagando.

Mas nosso compromisso é de aliança aos povos indígenas e não temos porque recuar.

Não retiramos nenhuma palavra da nossa nota. Até hoje o Cimi

  • já passou por duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs),
  • já fomos acusados e processados,
  • mas nunca nos tiraram a nossa missão.

Nossa missão não é agradar este ou aquele governo, ela é sobretudo estar ao lado dos povos indígenas.

Marcelo Salazar/ISA – Para Dom Roque Paloschi as políticas indigenistas do governo Bolsonaro, como flexibilização do garimpo e grilagem de terras, contribuem para o avanço do coronavírus nas terras indígenas.

 

Na nota publicada pelo Cimi os bispos da Amazônia exigiram medidas urgentes de combate ao Covid. Como você encara a forma com a qual o governo tem lidado com a pandemia? Quão grave é a ameaça da Covid-19 para as populações indígenas, pelo que vocês têm observado?

O governo quer atacar todos aqueles que se opõem e questionam a postura dele.

  • Eles tentam criar uma nuvem de fumaça
  • evitando a real situação da problemática do avanço do coronavírus
  • e, sobretudo, do desamparo dos pobres do Brasil.

Entre eles os mais pobres, os povos amazônicos, que têm uma vulnerabilidade — entre eles, os povos de pouco contato.

Historicamente,

  • nos 520 anos de presença do homem branco, da ocupação europeia,
  • são pandemias e endemias que têm levado ao desaparecimento das populações originárias.

Diante da vulnerabilidade,

  • qualquer gripe, até uma gripezinha, já que segundo o presidente isso é uma gripezinha,
  • pode ser fatal para povos em isolamento voluntário.

Uma população atacada constantemente fica muito refém da prepotência dos que se acham donos da verdade.

  • Aquilo que muitas vezes para nós é fácil de sobreviver e transitar com tranquilidade,
  • no meio das populações indígenas pode ser um caminho de genocídio.

Por isso que as comunidades têm feito todos os esforços possíveis para

  • permanecer nas áreas,
  • evitar o trânsito nas cidades,
  • mas isso depende de assistências básicas que o governo não faz,
  • tanto na saúde quanto econômica,
  • já que tudo se torna mais precário também nas comunidades indígenas.

O pior de tudo é a negação dos direitos constitucionais da demarcação das terras. São 32 anos desde a Constituição Federal e esses povos continuam sem eira nem beira.

Recentemente,

  • o “herói” Sergio Moro, o ministro que nos deixou,
  • mandou de volta para a Funai 17 processos de reconhecimento
  • que só dependiam do reconhecimento do ministro da Justiça.

É um desrespeito aos direitos constitucionais e à história do Brasil de sempre encarar os povos indígenas como

  • débeis,
  • incapazes,
  • oferecendo empecilhos para a resistência deles.

Todas as teses que o governo tem defendido,

  • o intervencionismo,
  • que os indígenas se tornem fazendeiros,
  • levam à retiradas de direitos para oferecer nada no lugar,
  • para jogar na lama da invisibilidade,
  • ainda mais invisibilidade, e da miséria.

É só ver hoje os números da população indígena no contexto urbano. São expulsos de suas terras e não tem condição de permanecer no que seria seu habitat natural.

 

Só na última semana, a Funai tomou duas decisões que não têm necessariamente a ver com a pandemia. Uma delas é a norma publicada no Diário Oficial da União (DOU) na semana passada para que não sejam mais restringidos imóveis privados em terras ainda não demarcadas, homologadas. A outra foi a troca abrupta do chefe da Frente de Proteção aos Indígenas Isolados do Mato Grosso, sem consulta prévia. O que o senhor acha que essas duas decisões representam nessa conjuntura?

  • Demonstram exatamente essa prática do governo
  • de, na calada da noite mesmo nesse momento trágico que vive o povo brasileiro,
  • dar golpe em cima de golpe,
  • desrespeitando a própria Constituição Brasileira.

É um retrato do governo. Dá um tapinha nas costas mas no fundo está arrancando o sangue e a alma dos pobres.

Como o senhor vê atualmente a multiplicação da Covid entre os povos indígenas?

  • Estamos suplicando desde o primeiro momento que o governo tomasse ações sérias e efetivas para evitar que o vírus se propagasse no meio das comunidades.
  • Mas pelo contrário, estão atuando para que a mortandade cresça.
  • As atitudes do senhor Presidente mostram isso.

Vemos que as comunidades tentam fazer a parte delas, mas se o governo não fizer se torna impossível.

  • Porque as comunidades indígenas também não têm força para resistir diante dos invasores
  • que têm, por trás, toda a cobertura e autorização dos órgãos do Estado.

Vemos a questão do Ibama, por exemplo.

  • É só ter qualquer postura que contraria a ambição dos poderosos
  • e os funcionários são demitidos, são desqualificados.
  • É extremamente diabólico.

Um vírus que chega em uma comunidade indígena pode levar a uma tragédia. Infelizmente temos um momento tão triste que não podemos ficar indiferentes.

  • Mas há, por exemplo, o movimento [do fotógrafo] Sebastião Salgado,
  • que conclama a sociedade mundial para se fazer presente em um grande esforço exigindo do governo brasileiro o cumprimento da lei,
  • pelo menos isso.

 

Julia Dolce, autor na Agência Pública

Julia Dolce

Repórter e fotojornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e graduanda em fotografia pelo Senac. Trabalhou por três anos no jornal Brasil de Fato, cobrindo política e direitos humanos em texto, rádio e fotografia. Atualmente é repórter da Agência Pública e também escreve para o observatório do agronegócio De Olho nos Ruralistas.

Fonte: https://apublica.org/2020/05/o-problema-nao-e-o-ataque-contra-o-cimi-e-sim-o-ataque-mortal-contra-os-povos-indigenas-diz-dom-roque/

 

 

 

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A entrevista é parte do projeto da Agência Pública chamado Amazônia sem Lei, que investiga violência relacionada à regularização fundiária, à demarcação de terras e à reforma agrária na Amazônia Legal. O especial também faz a cobertura dos conflitos no Cerrado, o segundo maior bioma brasileiro

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