Os limites de um pontificado  (parte I)

Massimo Faggioli disseca os limites teológicos e institucionais do pontificado de Francisco

 

Os limites de um pontificado (parte I)

Massimo Faggioli

 14 de abril de 2020

Papa Francisco a portas fechadas na Basílica de São Pedro no Vaticano, 12 de abril de 2020.

(Foto: EPA / ANDREAS SOLARO / POOL / MaxPPP)

Há um sério risco de o papa Francisco estar perdendo o apoio das pessoas que querem vê-lo ter sucesso e impedir que a Igreja caia nas mãos daqueles que foram contra a mudança.

 

Este é um momento importante, porque o papa, de 83 anos, está mostrando alguns sinais de que percebe que muitos dos seus mais fortes apoiadores em seus esforços  para a reforma da Igreja estão ficando desiludidos.

O sétimo aniversário da sua eleição como bispo de Roma, em 13 de março, coincidiu com o ápice da tomada de consciência da pandemia de coronavírus. Era impossível naquele momento aprofundar-se na análise complexa do seu pontificado.

Mas viver em confinamento com a finalidade de se deter a propagação do COVID-19 tornou-se agora o novo normal, e o será por certo tempo em muitos países. Isso oferece uma oportunidade para se tentar dar uma olhada  mais atenta ao que aconteceu com o pontificado de Francisco nos últimos meses.

Algo perturbador aconteceu

A pandemia mudou algumas dinâmicas fundamentais na Igreja Católica. Por um lado, houve uma atenção ainda maior sobre o papado e o seu isolamento, o que poderia ser chamado de solidão institucional.

A extraordinária liderança espiritual de Francisco nestes tempos tão difíceis confirmou, mais uma vez, que

  • seu pontificado não fazia parte de uma era de mudanças,
  • mas era mais uma participação ativa naquela que é claramente uma mudança de épocas.

Mas algo perturbador aconteceu recentemente. E não é fácil falar sobre isso.

Pelo menos para aqueles de nós que acreditam que o papa jesuíta está fornecendo à Igreja o tipo de liderança servidora de que ela precisa agora. Ou aqueles católicos que, nos últimos sete anos, se sentiram muito mais parte de uma jornada em direção a uma nova maneira de ser Igreja, numa só  e  mesma Igreja.

Desenvolvimentos recentes

Francisco

  • está dando uma contribuição inestimável à tradição viva da Igreja
  • em termos de forjar uma nova maneira de reviver e atualizar os ensinamentos do Concílio Vaticano II (1962-65).

Ele

  • ajudou a libertar o ensino moral católico de sua camisa de força ideológica
  • e alcançou um novo equilíbrio entre lei e misericórdia.
  • Ele reabilitou teólogos que foram silenciados e punidos pela política doutrinária pós-Vaticano II de Roma.
  • Ele também guiou a Igreja Católica para o catolicismo global.

Além disso, o seu foco sobre as questões sócioeconômicas  (incluindo aquelas relacionadas ao meio ambiente), num momento em que a globalização está em profunda crise, foi profético. No que diz respeito ao diálogo do mundo nominalmente cristão com o Islã, ele certamente jogou a bola prá frente. E reposicionou a Igreja geopoliticamente em relação ao continente asiático em rápido desenvolvimento, especialmente em relação à China.

São conquistas que já estão consolidadas no seu legado.

O dinamismo do pontificado começa a chegar ao seu limite.

Mas algo perturbador aconteceu durante o ano passado. Tem-se a impressão de que, nos últimos meses, o dinamismo do seu pontificado começou a chegar ao seu limite.

E essa não é apenas a opinião dos teólogos que estão envolvidos nos debates sobre a reforma da Igreja.

Mas tornou-se evidente, para mim pelo menos, que

  • as ideias espirituais importantíssimas de Francisco
  • carecem de uma estrutura sistemática clara
  • que possa ser colocada num enquadramento teológico e numa ordem institucional.

Tomem-se as mulheres, por exemplo. Todos estão familiarizados com a maneira coloquial com que o papa fala das mulheres e com as palavras não politicamente corretas que ele às vezes usa para descrever o papel delas na Igreja e na sociedade.

Mas ultimamente tem havido sinais mais alarmantes.

Dois eventos recentes constituem um momento que poderia muito bem marcar uma inflexão no seu pontificado.

  • O primeiro foi o que ocorreu no intervalo entre o Sínodo Amazônico, em outubro de 2019, e a publicação de Querida Amazônia, em fevereiro de 2020.
  • E o segundo foi a sua decisão de indicar novos membros para uma segunda comissão papal para o estudo sobre do diaconato de mulheres.

Estes dois eventos podem ser lidos de maneiras muito diferentes, dependendo de onde cada um se encontra dentro do amplo espectro de crenças e opiniões católicas.

  • Os grupos anti-Francisco regozijaram-se publicamente e sentiram-se vingados pelo que aconteceu.
  • Mas aqueles que, nos círculos eclesiais e teológicos, apoiaram Francisco desde o início de seu pontificado, sentiram-se de alguma maneira traídos. Apesar disso, eles tentaram continuar a apoiá-lo sem revelar demais o estado de choque e de decepção que sentem.

O papado sempre foi como um longo jogo.  E esse tem sido particularmente o caso de Francisco.

  • Mas a questão é se realmente pode haver um longo jogo
  • para uma Igreja que agora está falhando em tomar decisões sobre seus problemas institucionais e estruturais.

Gênese desta paralisação

Os círculos pró-Francisco estão compreensivelmente relutantes em falar sobre a crise que agora está atazanando este pontificado. Pessoalmente, acredito que três coisas causaram esta crise.

* A primeira é o estilo de Francisco de governar a Cúria Romana.

  • Sua tendência a seguir basicamente uma abordagem pragmática produziu alguns efeitos colaterais nefastos.
  • Por exemplo, ele encorajou os integrantes dos círculos litúrgicos tradicionalistas, como vimos recentemente com novos decretos referentes à “Forma Extraordinária” da Missa.

Isto é particularmente penoso para os mais fervorosos apoiadores do papa,

  • porque desde sua eleição em 2013 ele deixou absolutamente claro que acreditava que o tradicionalismo litúrgico
  • é incompatível com uma Igreja “em saída”.

No entanto, ele não apenas permitiu a continuação do espetáculo tradicionalista, como também não fez nada para impedir que os principais departamentos e autoridades do Vaticano os incentivassem. Isto agravou ainda mais a situação, especialmente para algumas Igrejas locais.

O papa pode ignorar a Cúria romana de uma maneira que outros católicos não podem – incluindo bispos e padres. Veremos se e como isto irá mudar com a anunciada constituição apostólica, destinada a reformar a Cúria Romana, e que já foi adiada várias vezes.

Pressão de cardeais e bispos

* A segunda coisa que acelerou a atual crise no pontificado de Francisco é a pressão vinda de bispos e cardeais durante o último ano, que ameaçou a legitimidade do papa.

  • Não estou me referindo a extremistas que se tornaram figuras marginais numa religião católica virtual, como o arcebispo italiano Carlo Maria Viganò.
  • Pelo contrário, estou falando de cardeais que têm, ou tiveram até muito recentemente, um papel fundamental na Cúria Romana.

Em fevereiro de 2019, por exemplo, o cardeal alemão Gerhard Mueller publicou um “Manifesto” para um público mundial em sete idiomas diferentes. Este documento do ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (2012-2017), de fato,

  • ameaçou uma correção pública a Francisco,
  • sugerindo que a maioria dos bispos da Igreja tinha preocupações com a sua ortodoxia.

Basta olhar para a primeira linha do “Manifesto”:

“Diante da crescente confusão sobre a doutrina da Fé, muitos bispos, padres, religiosos e leigos da Igreja Católica pediram que eu desse um testemunho público sobre a verdade de revelação”.

Depois, há o cardeal Robert Sarah, que Francisco nomeou chefe da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos em 2014. O cardeal guineense arrolou o aposentado Bento XVI (de maneira não ainda clara) no final de 2019,  para contribuir para um livro controverso defendendo o celibato sacerdotal obrigatório.

  • O momento do livro não foi acidental.
  • Foi publicado quando o Papa Francisco estava em meio de concluir uma exortação apostólica após o Sínodo dos Bispos na Amazônia
  • – no qual a maioria dos participantes votou a favor da mudança da disciplina de celibato.

Em retrospectiva, o discurso do papa na conclusão da reunião do Sínodo poderia ser visto como o começo de um acordo com os tradicionalistas. Nesse discurso final – proferido em 27 de outubro de 2019 dentro do Sínodo –

Francisco classificou alguns católicos como “elite” por se concentrarem em pequenos assuntos “disciplinares”, em vez de se preocuparem com o “quadro geral”.

À luz da exortação apostólica pós-sinodal, Querida Amazônia, poderia facilmente ler-se a rejeição do papa a essas “elites” como a sua rejeição à proposta de reforma do celibato sacerdotal.

E isso também pode ser visto

  • como o motivo pelo qual ele rejeitou uma proposta de atribuir às mulheres um papel ministerial na Igreja.
  • De fato, ambas as propostas encontraram um apoio substancial entre os que participaram da preparação do Sínodo, incluindo os bispos.

Eu não acredito, como acreditam alguns outros, que Francisco cedeu à pressão dos tradicionalistas por medo. Mas, historicamente, essa pressão extraordinária sobre o papa é sempre um elemento de contexto que deve ser considerado para entender a trajetória de um pontificado (por exemplo o de Paulo VI durante o Vaticano II).

Um elemento adicional é a impronúncia, por parte da Suprema Corte da Austrália em 7 de abril,  do cardeal tradicionalista George Pell,  acusado de abuso sexual. Isso só encorajou os católicos que estão promovendo uma agenda restauracionista – não apenas em Roma, mas também especialmente no país natal do cardeal.

Isto ocorre no momento em que a Igreja na Austrália está ocupada planejando um processo sinodal crucial – uma assembleia plenária dos bispos – ainda que a atual pandemia esteja causando alguns adiamentos.

Deve-se notar que o julgamento de Pell não faz parte dessa equação. Até proeminentes católicos australianos, que se opõem ao cardeal em muitas questões eclesiais, declararam publicamente (e com razão) que ele nunca deveria ter sido julgado por um crime desse tipo sem provas mais substanciais.

Clericalismo e mulheres

* O terceiro e último fator que contribuiu para a crise deste pontificado está relacionado com os limites da teologia de Francisco quando ele fala sobre clericalismo e mulheres.

 

Até agora, a maioria das pessoas acreditava que, não importa quão limitado tenha sido o papa ao usar uma segunda língua ou expressões questionáveis, o papa argentino

  • estava fundamentalmente aberto a fazer algumas mudanças disciplinares
  • e permitir desenvolvimentos teológicos compatíveis com um entendimento orgânico da tradição.

Mas depois do ano passado

  • – com Querida Amazônia e a decisão de nomear uma nova comissão sobre o diaconato das mulheres –
  • alguns se perguntam se o pontificado de Francisco chegou ao limite em termos de reforma.

Depois que a primeira comissão concluiu o seu trabalho sobre mulheres diaconisas, ela elaborou um relatório final. Mas este nunca foi tornado público.

  • As pessoas se perguntam, com razão, por que não.
  • Numa Igreja sinodal, é de se esperar certo grau de transparência.

A formação da segunda comissão foi anunciada em 8 de abril.

  • Nenhum dos indicados, entre os sete homens e as cinco mulheres que compõem esse corpo, é do Sul global.
  • Isto é muito difícil de entender e mais ainda impossível de justificar,
  • especialmente para um papa que fez tanto pelo crescimento do entendimento da Igreja Católica na sua dimensão global.

(Divulgação completa: escrevi sobre isso em meu último livro1 sobre o pontificado.)

  • O Papa Francisco diz que é necessário ouvir todos os lados antes de tomar uma decisão. E isso é absolutamente certo.
  • Mas infelizmente esta segunda comissão dificilmente poderá ser vista como representativa de pontos de vista diferentes.

O pontificado achou-se numa situação muito séria. O que isso nos está dizendo? Isso é algo que abordaremos na segunda parte deste ensaio.

1 The Liminal Papacy of Pope Francis: Moving Toward Global Catholicity (Catholicity in an Evolving Universe Series) Paperback – March 18, 2020

 

 

Massimo Faggioli

Fonte:  https://international.la-croix.com/news/the-limits-of-a-pontificate-part-i/12170

1 comment to Os limites de um pontificado  (parte I)

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