O grito de Lucetta Scaraffia contra outra peste: as demasiadas mulheres abusadas na Igreja

LucettaSandro Magister – 26 março 2020

Foto: Lucetta Scaraffia – Tradução: Orlando Almeida

(s.m.1) Recebo e publico. A autora da carta, professora de história contemporânea na Universidade “La Sapienza” de Roma, dirigiu durante sete anos  “Donne Chiesa Mondo”,   (Mulheres Igreja Mundo”), o suplemento mensal de “L’Osservatore Romano”, desde a sua fundação em 2012 até março de 2019, quando se demitiu junto com todo o comitê de redação.

 

As razões da demissão, sua e das suas colegas, ela escreveu-as na carta ( lettera ) que enviou ao papa Francisco em 21 de março do ano passado, integralmente reproduzida por Settimo Cielo2. Nela, ela denunciou o excessivo “controle masculino” por parte do Vaticano para amordaçar a revista.

Num livro lançado recentemente na França –  onde em 2017 lhe foi conferida a Légion d’honneur – Lucetta Scaraffia reconstruiu, passo a passo,  esses sete anos passados em

“Mulheres Igreja Mundo”, com a luta pela libertação de muitas mulheres, muito frequentemente religiosas, da condição servil à qual a prepotência masculina as submete na Igreja, das mais variadas formas, até abusar sexualmente delas:

Lucetta Scaraffia, “Féministe et chrétienne”, Bayard Éditions, 2020

 

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Caro Magister,

Embora a crise em que se encontra a Igreja seja evidente já faz tempo,

  • a pandemia que estamos vivendo pôs em evidência a incapacidade por parte das hierarquias institucionais
  • de pronunciar palavras fortes de ajuda e de esperança.

Só os sacerdotes da base, e especialmente os mais idosos, junto com os cristãos leigos, dão prova com atos e palavras de que existem cristãos, e que eles são capazes de fazer e dizer algo importante num momento em que – como nunca antes nas últimas décadas – também estamos vivendo uma grave crise espiritual que envolve a nossa  maneira de viver.

Eu também, como Roberto Pertici, acho que devemos entender:

  • 1) como a Igreja chegou à situação descrita;
  • 2) se e como é possível reverter o rumo.

Mas a minha análise não se limita às altas esferas, aos debates teológicos e culturais, mas desce a procurar as causas nas circunstâncias históricas que estamos vivendo.

Penso que

  • a crise dos abusos está sacudindo a Igreja desde as bases, de maneira implacável,
  • mesmo que a hierarquia católica ainda tente fingir que não é nada,
  • e tente  sair do problema com grandes declarações e poucos fatos.

O que é inaceitável

  • não é tanto o crime em si – todos  sabemos que o abuso de menores e de mulheres é praticado com a mesma frequência no mundo leigo –
  • mas as maneiras como é escondido, encoberto, negado,
  • exatamente por aqueles que deveriam ser os defensores dos fracos, dos oprimidos
  • e que ao contrário escolheram ficar sempre do lado dos culpados, dos fortes.

Não foram só

  • silêncios, negações das evidências,
  • mas também intervenções efetivas para corromper as vítimas para que se calassem,
  • manipulando e perseguindo os que queriam ajudá-las. 

Se acompanharmos estes casos – que na Itália são relatados em grande número pelo site “L’abuso”3(quase nunca replicado nos jornais) –  temos a impressão de estar diante  de uma associação criminosa e não de uma instituição religiosa.

No que se refere às mulheres, muitas vezes religiosas, a situação é ainda pior:

  • pisoteia-se a sua vocação religiosa – que tem o mesmo valor que a dos homens –
  • e muitas vezes ao abuso sexual acrescenta-se o aborto forçado, pago pelo bispo.
  • O mesmo clérigo que nas homilias troveja contra mulheres que fazem aborto.

Não se trata de poucas maçãs podres,

  • mas de um sistema difundido capilarmente que envenena tudo,
  • criando redes de cumplicidade e de chantagem.

As mulheres que escolheram a vida religiosa não merecem isto, nem o merecem os muitos padres virtuosos que levam adiante com coragem a sua missão; mas a sua conduta exemplar já não é suficiente para manter uma instituição que vê cair numa profunda crise o próprio papel do sacerdote.

Penso por isso que neste momento histórico

  • é tarefa dos leigos e, sobretudo, das mulheres – fortalecidas pela preferência que Jesus lhes dá  e que os evangelhos testemunham –
  • lutar pela reconstrução da nossa amada Igreja, trazendo à luz a verdade.

Sobre a mentira nada de bom se constroi, não se consegue nem mesmo recorrer ao tesouro da tradição, como vemos hoje em dia.

A luta contra os abusos é levada adiante com mais clareza e determinação pelas mulheres, que frequentemente falam a verdade com coragem, sem perder de vista o amor à Igreja. Gostaria apenas de citar a propósito Marie Collins, a vítima irlandesa que o Papa Francisco havia chamado para fazer parte da comissão sobre os abusos e que – única – teve a coragem de se demitir quando viu que não se estava avançando seriamente na direção certa, como denunciou publicamente.

Não são apenas disputas teóricas sobre o diaconato feminino, ou sobre os divorciados recasados, ​​que dilaceram a Igreja, é a realidade de uma corrupção não contrastada  que a está  correndo por dentro.

Dos sepulcros caiados não sai nada de bom, mas apenas outras toxinas que envenenam tudo.

As mulheres

  • são a metade do gênero humano,
  • não uma minoria oprimida:

se uma instituição como a Igreja permite que, em seu meio, tantas delas sejam abusadas, desprezadas, perseguidas injustamente, nada de bom pode daí vir para ninguém.

Lucetta Scaraffia

 

NOTAS:

1 (s.m.) Sandro Magister.

2  Settimo Cielo – blog de Sandro Magister.

3  Rede ‘L’ABUSO’ surgida em 2010 por iniciativa de um grupo de vítimas de padres pedófilos, que , por ocasião de um encontro internacional em Roma, verificaram que havia analogias incríveis entre os seus casos, em que o abusador era um sacerdote.

(Fonte: https://retelabuso.org/chi-siamo/).

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