«A lição das favelas nos mostrará o caminho»

 

«La lezione delle favelasci indicherà la strada»

RICCARDO VENTURI – 24 DE MARÇO DE 2020. Foto: Daqui

Tradução: Orlando Almeida

 De advogado de bancos e multinacionais a economista que promove a subsidiariedade: o  Padre Augusto Zampini Davies, na chefia do Departamento de Desenvolvimento Humano Integral, explica a sua visão para a Economy.

 

 

“Agora trata-se de passar aos projetos concretos, é preciso tomar decisões”.

O padre Augusto Zampini Davies, argentino, diretor do setor de Fé e Desenvolvimento do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral instituído pelo Papa Francisco, explica a Economy que

“o Papa Francisco e a Igreja em geral fazem bem em dizer o que há de errado na economia».

E explica:

“Queremos uma economia

  • que sirva e que não seja auto-referencial,
  • que crie oportunidades para todos e não apenas desigualdade e morte,
  • que gere sustentabilidade e não a destruição da terra,
  • baseada em princípios como a solidariedade, a subsidiariedade”.

Ele diz isto, não tanto como prelado, mas antes como homem do mundo: o padre Augusto era um advogado que defendia os interesses de bancos e de multinacionais, mesmo contra alguns governos. Mas a experiência da pastoral missionária mudou a sua vida:

“O chamado de Deus me fez deixar tudo”,

conta a Economy. Depois de ordenado sacerdote, ele viveu durante dois anos numa favela na periferia de Buenos Aires:

«Lá descobri que o sistema econômico gera uma terrível desigualdade. Uma coisa é saber isso abstratamente, outra coisa é tocá-lo com a mão: parte o coração. Vi muitas crianças sem futuro acabar em circuitos criminosos, de tráfico de drogas. Por isso decidi que tinha de estudar o desenvolvimento econômico e ligá-lo à teologia”.

Assim, depois de um período de estudo e trabalho em Londres com o cardeal Vincent Nichols, em 2017 o padre Augusto Zampini Davies chegou ao Vaticano, para o Dicastério para o desenvolvimento humano integral.

«Quando entrei no seminário, eu queria ser um padre normal, trabalhar com os pobres, com os últimos. Ainda estou trabalhando para eles, mas não exatamente numa favela».

 

Os dois dias de Assis desencadearão um processo em cadeia que renovará os paradigmas da economia graças ao compromisso dos jovens

Estão chegando a Assis mais de dois mil economistas e empresários com menos de 35 anos, vindos do mundo todo.

  • Para decidir o que fazer, chamámos quem poderá mudar o modelo econômico de maneira concreta:
  • jovens de 20 a 35 anos que trabalham em todos os setores da economia:
  • negócios, finanças, bancos, agricultura, saúde, universidades, governo.

Queremos que eles criem algo de novo, de diferente.

  • Eles não o criarão em dois dias, é claro,
  • mas farão um compromisso por toda a vida com o Papa Francisco
  • e tornar-se-ão agentes de um novo processo de mudança.

Esperamos que estas pessoas tenham, nestes dias em Assis, uma experiência tão forte que desejem reproduzí-la nos seus países e nas suas cidades.

 

Padre Zampini Davies, o senhor não  se acha otimista demais?

Se queremos mudança, devemos criar as condições de um processo concreto que comece e continue: e é exatamente isso que faremos.

  • Portanto, não creio que eu seja otimista, mas realista,
  • porque os processos de mudança já se difundiram e estão em andamento:
  • o processo que está ocorrendo nas finanças,
  • levando em conta o impacto dos investimentos não apenas em termos de retorno,
  • mas também do ponto de vista ambiental e social,
  • a atenção aos stakeholders [partes interessadas] e não apenas aos shareholders [acionistas];

o processo em andamento em alguns setores que desejam ser sustentáveis, como na tecnologia, na construção e nas empresas automotivas; e também o processo em curso no business da energia, com as novas fontes e a transição energética. O que queremos fazer é criar uma plataforma de pessoas que estejam em sintonia com a visão do Papa Francisco e que possam gerar processos de mudança concretos nas suas áreas.

 

Como, em termos concretos?

A de Assis não é uma conferência clássica com o orador falando e os outros escutando. Está organizada em várias “aldeias”, cada uma numa parte distinta da cidade, contando com o apoio total da prefeita de Assis, Stefania Proietti, e do bispo, Domenico Sorrentino.

O título de cada “aldeia” mostra uma preocupação:

  • trabalho e assistência,
  • finança e humanidade,
  • agricultura e justiça,
  • lucro e vocação, políticas para happiness [felicidade],
  • business [negócio] e paz…

Se alguém faz negócios, por exemplo, certamente quer obter lucro, mas também deveria interrogar-se sobre a sua vocação a não fazê-los a qualquer custo.

Se está no setor financeiro, quer garantir investimentos seguros, com menos riscos e um bom retorno: mas que espaço tem a humanidade?

A agricultura está profundamente ligada à justiça: os dados da FAO dizem-nos que, pelo terceiro ano consecutivo, aumentou o número de pessoas com fome no mundo, 800 milhões.

No entanto, produzimos comida suficiente para todos, então como é possível?

O C02 e a desigualdade:

  • as empresas e os países que mais poluem são muito poucos,
  • mas aqueles que sofrem as consequências são os mais pobres, os que não são responsáveis ​​pelas emissões.

Cada “aldeia’’ tem muitos consultores do mundo todo. No fim, os jovens economistas apresentarão ao papa Francisco o seu compromisso. Há muitíssimas pessoas que queriam vir, mas não havia mais espaço.

Por isso esperamos que em outras partes do mundo outras cidades irão querer replicar a Economy of Francesco: se isso acontecer, iniciaremos um movimento voltado aos diversos aspectos da economia de uma maneira concreta, com jovens que vão decidir que mudanças querem realizar.

A espiritualidade é a força especial que permite que aqueles que desejam transformar uma ideia em realidade não joguem a toalha

Augusto Zampini (Foto: Reprodução/Twitter)

 

Quais são os pontos-chave do processo de mudança que deveria começar em Assis?

  • O primeiro é o impulso que vem das gerações mais jovens, que são as mais desejosas de mudar.
  • O segundo é o aspecto holístico da mudança, que afeta todas as diferentes esferas econômicas, da saúde à alimentação, da educação à urbanização. Em suma, não é uma mudança setorial.
  • A terceira é que se trata de um processo universal: em Assis, haverá pessoas de todo o mundo, cuidadosamente selecionadas.

Foram tantos os que inscreveram que pudemos escolher os jovens que são líderes em potencial nas suas áreas e que podem iniciar um processo de mudança, ou talvez já o tenham iniciado, mas talvez estivessem sozinhos.

Mesmo quem trabalha num banco, e não é o CEO, se faz parte de um movimento global pela mudança, irá promovê-la.

Basta olhar o movimento de Greta Thunberg, se alguém tem o sentimento de pertencer a algo grande, isto promoverá a mudança.

  • Quarta, temos em cada “aldeia” especialistas globais que querem ajudar. Eles não vêm apenas para conversar ou para se mostrar, porque não precisam disso. Eles vêm para ajudar esses jovens e o Papa Francisco a criar algo novo.

 

Na base da Economy of Francesco está a filosofia da Ecologia integral da encíclica Laudato si’. Todos os aspectos da crise estão relacionados entre si?

O grito ambiental e o social estão interconectados porque têm a mesma causa:

  • o mono-desenvolvimento econômico que tira da terra e produz com base no mito do progresso,
  • o comércio não feito de maneira justa,
  • o consumo excessivo…

todo esse processo está causando grande dano à terra e à sociedade em termos de desigualdade.

É isto que queremos mudar e, se se quer ir às raízes, não se pode responder a um grito sem responder ao outro.

O Papa Francisco propõe três linhas de ação.

  • A primeira é político-econômica,
  • a segunda é educativa,
  • a terceira é espiritual.

O evento de Assis tem a ver com a primeira e também com a segunda, mas depois elas devem ser combinadas com a terceira, a espiritual, que está na base delas. O espiritual garante o impulso para a transformação.

Quando se quer mudar alguma coisa e é muito difícil, é necessária uma força especial; caso contrário, mais cedo ou mais tarde joga-se a toalha.

A espiritualidade é a arma secreta de quem quer a mudança?

Os estudos psicológicos mostram que, se se quer mudar alguma coisa, é preciso ter motivação

  • Se se quer mudar alguma coisa coletiva como a economia,
  • então é necessário algo que reúna os atores coletivos e crie uma raiz coletiva:
  • a espiritualidade tem estas características.

80% dos habitantes do planeta afirmam que são religiosos, que acreditam em alguma coisa. E a maioria das pessoas religiosas acredita que deve cuidar dos outros. Se conseguirmos traduzir este cuidar num um modelo econômico, isso também será uma revolução.

 

Riccardo Venturi

Riccardo Venturi

https://www.economymag.it/news/2020/03/24/news/la-lezione-delle-favelas-ci-indichera-la-strada-11828/

 

 

 

 

“… O padre argentino Augusto Zampini-Davies, hoje diretor de Desenvolvimento e Fé do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, no Vaticano. Um dos especialistas que elaborou o “Instrumentum Laboris”, documento que deu as diretrizes e conduz os debates no Sínodo, aos 50 anos, ele é também um dos mais influentes teólogos que representam e difundem o pensamento do papado de Francisco.

Formado em Direito, filho de tradicional família argentina, antes de ser padre e se tornar um PhD em Teologia, trabalhou com bancos e multinacionais, o que teria dado a ele o conhecimento profundo de como negociam os que hoje com frequência combate. Segundo a imprensa italiana, recebeu “o chamado para mudar” numa viagem com a namorada. E mudou.

Eliane Brum em:

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/593377-um-cristo-amazonico-e-mulher

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