Em pronunciamento, Bolsonaro critica fechamento de escolas, ataca governadores e culpa mídia

Fala do presidente foi acompanhada por panelaços em cidades do país pelo oitavo dia seguido

 

Ricardo Della Colettan , BRASÍLIA 25/03/2020

Foto: Bolsonaro faz pronunciamento sobre o coronavírus nesta terça (24) – Reprodução/TV Brasil

Em seu terceiro pronunciamento em rádio e televisão sobre a crise do novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro criticou nesta terça (24) o fechamento de escolas e comércio para combater a epidemia, atacou governadores e culpou a imprensa pelo que considera clima de histeria instalado no país.

 

​O presidente afirmou que desde o início da crise o governo se preocupou em conter o “pânico e a histeria” e voltou a minimizar a gravidade da Covid-19 ao compará-la a uma “gripezinha” ou “resfriadinho”.

Parlamentares reagiram com perplexidade ao pronunciamento de Bolsonaro, que havia ensaiado uma mudança de tom nos últimos dias, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), disse que

o país precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população”.

Em seu pronunciamento, Bolsonaro disse que “grande parte dos meios de comunicação foram na contramão” do governo e

“espalharam a sensação de pavor, tendo como carro-chefe o grande número de vítimas na Itália“.

Bolsonaro argumentou que o país europeu tem características distintas das do Brasil, e que o cenário foi

“potencializado pela mídia para que histeria se espalhasse”.

O presidente disse também que “nossa vida tem que continuar” e os empregos precisam “ser mantidos”.

“O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à normalidade”, afirmou.

As declarações de Bolsonaro ocorrem em meio a ações de governos estaduais para restringir a movimentação de pessoas, sob o argumento de que a redução de contato social é necessária para conter a transmissão do vírus.

O presidente atacou governadores e disse que eles precisam “abandonar o conceito de terra arrasada”, com a proibição de transporte, o fechamento de comércio e o que chamou de confinamento em massa.

“O que se passa no mundo mostra que o grupo de risco é de pessoas acima de 60 anos. Então, por que fechar escolas?”, questionou o presidente em seu pronunciamento. “Raros são os casos fatais, de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade.”

Todos os estados, além do DF, decidiram suspender as aulas da rede estadual para evitar a disseminação da doença. A defesa da reabertura de escolas vai na contramão do que tem sido feito nas últimas semanas em dezenas de países que enfrentam a pandemia. Até esta quarta, a doença já matou mais de 16 mil pessoas.

Durante a transmissão, Bolsonaro foi alvo pelo oitavo dia seguido de panelaços em grandes cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.

Apesar de ter pregado a volta à normalidade, contrariando orientações de especialistas de redução do contato social, Bolsonaro disse que é preciso se preocupar com a contaminação do vírus.

Ele concluiu dizendo que, se ele fosse infectado, por seu histórico de “atleta”, não deveria temer a doença.

“Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico, daquela conhecida televisão.”

O presidente voltou a dizer que tanto pesquisadores americanos quanto especialistas do hospital Albert Einstein pesquisam a eficácia da hidroxicloroquina —medicamento que apresentou resultados promissores contra o novo coronavírus, mas ainda sem resultados conclusivos.

“Acredito em Deus, que capacitará cientistas e pesquisadores do Brasil e do mundo na cura dessa doença.”

Procurado pela Folha, o Ministério da Saúde informou que não se manifestaria sobre as declarações do presidente.

A conduta de Bolsonaro de buscar atenuar a pandemia do coronavírus impulsionou panelaços contra ele desde a segunda-feira da semana passada.

A última vez que o presidente chamou o sistema de rádio e TV para falar à população tinha sido no dia 12 de março, quando ele sugeriu que seus apoiadores não comparecessem a atos de rua planejados para o domingo seguinte, 15 de março. A justificativa era que aglomerações poderiam facilitar a transmissão da Covid-19.

O presidente, no entanto, descumpriu sua própria orientação e, no dia programado para as manifestações, se reuniu com simpatizantes em frente à rampa do Palácio do Planalto. Na ocasião, ele tocou em pessoas, as cumprimentou e posou para selfies.

Antes disso, no dia 6 de março, Bolsonaro havia feito um pronunciamento para dizer que o país tinha reforçado seus sistemas de vigilância sanitários em portos e aeroportos, como preparação para o avanço do Covid-19.

 

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Ricardo Della Coletta

Fonte: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/03/24/covid-19-bolsonaro-culpa-imprensa-por-panico-e-volta-a-falar-gripezinha.htm

 

 

Texto integral do pronunciamento em:

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/03/24/leia-o-pronunciamento-do-presidente-jair-bolsonaro-na-integra.htm

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