O CORONAVÍRUS E A LINGUAGEM DA NATUREZA:  OU O AVESSO DA DIALÉTICA

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José Alcimar de Oliveira , 22/03/2020 – Foto: Trip Advisor

… a natureza, rompendo o regime de silêncio e de heteronomia que lhe impôs a arrogância da cultura, recuperou ela mesma o poder da linguagem, ainda que por estruturas gramaticais viróticas.

 

Nossa  arrogância nos afastou da natureza.O andar de cima imaginava-se a salvo em sua consciência de condomínio para abusar da natureza.

Mas a natureza, por meio do coronavírus,

  • deu ao andar debaixo o poder de manifestar a totalidade degradada
  • para a qual a casa grande torcia o rosto.

A natureza e sua pedagogia da dialética pelo avesso. O coronavirus me fez lembrar de Gadamer (1900-2002, isso mesmo, sua vida atravessou três séculos) ao lembrar que o  auto-objetivante é a doença e não a saúde.

Mas como o pior é da lógica da cultura,

  • a doença civilizacional se naturalizou de tal forma
  • que parecia impedir a objetividade da afirmação gadameriana.

Quantas vezes, diante de consciências adoecidas,

  • havia insistido Brecht em sua pedagogia do distanciamento, não social, no caso:
  • peço com insistência, não digam nunca: ISSO É NATURAL.

Estranhamente,

  • fomos obrigados, todos – talvez ainda não – a nos ver, a nós e aos outros, pela mediação de um vírus
  • e não, como seria esperado, pela medida cognitiva da cultura construída pelo ser social.

O Mouro de Trier (Marx, NdR),

  • bem antes da emergência da questão ambiental,
  • assinalava que o ser natural é o nosso corpo inorgânico.

A natureza, a quem a cultura moderna ocidental tapou os ouvidos,

  • grita agora por si, pelos pobres, por todos,
  • pela linguagem de um vírus.

Não resisto  a dar voz a Walter Benjamin em sua Origem do  drama trágico alemão ao reconhecer que

  • se lhe fosse  concedido o poder da linguagem,
  • a natureza inteira por-se-ia em lamento.

Mesmo sem estatuto teórico para isso e com a devida reserva, não reluto em dizer e para a alegria do autor das Teses sobre a história, que

  • a natureza, rompendo o regime de silêncio e de heteronomia que lhe impôs a arrogância da cultura,
  • recuperou ela mesma o poder da linguagem, ainda que por estruturas gramaticais viróticas.

De qualquer forma,  digo, impôs um silêncio inesperado à arrogância financeira da linguagem do capital.

Ânimo forte e solidário a todos, mesmo sob isolamento social compulsório.

 

 

José Alcimar de Oliveira

* Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 22 de março do ano coronário de 2020.

 

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