O coronavírus e os filósofos

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Bruno Cava Rodrigues, comenta as intervenções filosóficas de Giorgio Agamben e Slavoj Zizek sobre a pandemia de coronavírus. O texto é publicado no seu Facebook, 10-03-2020. – Foto: Unsplash

 

Eis o texto.

Nietzsche certa vez disse que

  • a busca obsessiva pela saúde pessoal
  • é o caminho certo para a decadência do ser humano.

Um ser perfeitamente saudável se torna vaidoso, indolente e o pensamento, no mais das vezes, reflete sua obsessão com a manutenção do eu narcísico.

  • A doença não só é um tônico da vida,
  • como nos força a sair da zona de conforto e pensar a partir dela.

O corpo doente como perspectiva sobre a saúde normal. Só sentimos o corpo, afinal, quando ele se impõe a nós. Poderíamos extrapolar o aforismo nietzschiano para pensar

  • como uma epidemia faz emergir verdades
  • antes colocadas para dormir pela normalidade social.

A recente pandemia de coronavírus inspirou dois filósofos famosos a escreverem pequenos textos. Talvez seja injusto avaliar esses comentários a quente, sobre um tema tão atual, mas o ônus dos textos é de quem os comete. A prova do pudim não é comê-lo? Então vamos a eles, às intervenções filosóficas de Giorgio Agamben e Slavoj Zizek.

 

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Giorgio Agamben . Foto: Leonardo Cendamo – Photo Shelter

Agamben escreveu um artigo curtíssimo ao jornal italiano “Il Manifesto“. Nele, o autor de “Homo sacer

  • enxerga na reação ao coronavírus
  • mais uma confirmação do novo paradigma biopolítico totalitário.

Diante de uma epidemia “inventada”,

  • a resposta “imotivada” e “irracional”
  • está fortalecendo o poder soberano,
  • que consiste em decretar a exceção e decidir sobre ela.

Assim como

  • a contraface da luta contra o terrorismo vem sendo o aumento do terrorismo de estado,
  • a contraface do estado de emergência é a normalização da emergência como novo estado.

 

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Jean-Luc Nancy (foto: Alejandra de Argos)replicou imediatamente a Agamben com um tom humorístico que começa pelo título: “Exceção Viral“.

O filósofo francês brinca com a aplicação da fórmula do estado de exceção para tudo. No texto, Nancy comenta que, há 30 anos, teve um problema sério de saúde e, tivesse seguido o conselho libertário do colega à época, não teria sobrevivido.

No fundo, a provocação jocosa está deslocada. Não há dúvida que, com um problema de saúde,

  • entre seguir o conselho de um médico ou de um filósofo,
  • devemos seguir o do médico.

Entre Agamben e a vacina, obviamente, fiquemos com a vacina.

Como Woody Allen, em Desconstruindo Harry (1997), quando brinca com a pertinência da ciência:

“entre o Papa e o ar condicionado, fico com o ar condicionado”.

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Imagem: Crusoé

A própria pergunta “o que fazer”à filosofia não cabe: no máximo “o que pensar”, ou “como pensar”, ou ainda, “que sei eu?!”.

Mas isto não impede de anotar como o catastrofismo agambeniano estraga o pudim.

  • Se uma epidemia só nos leva a pensar na catástrofe,
  • qual a distância que estamos de um pensamento apocalíptico?

Que resta a pensar, sentir e fazer, quando tudo o que acontece é sinal do fim iminente, de um totalitarismo galopante e inescapável?

O conceito original de biopolítica, em Foucault, aliás, não era nem bom nem ruim, como tampouco eram enviesadas negativamente as reflexões judaico-messiânicas de Walter Benjamin. Dois segundos lados da moeda que, pelo menos no varejo, não aparecem nos textos de Agamben.

***

 

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Slavoj Zizek (foto: IMDb) foi na direção contrária e incorreu noutros problemas. O psicanalista esloveno escreveu dois textos em série.

* No primeiro (“Meu sonho de Wuhan“), sobre racismo e histeria,

o fato real do alastramento do coronavírus teria deflagrado uma epidemia ideológica paralela, essa sim, bem mais perigosa.

  • Se, em termos clínicos, a situação epidemiológica tem “efeitos modestos”,
  • terminou por desencadear uma onda racista, paranoica e histérica,
  • dirigida contra os orientais, os imigrantes e as pessoas doentes.

Apesar disso,

  • as reações sociais e políticas de pânico, raiva e preconceito
  • poderiam provocar, inadvertidamente, consequências positivas.

As cidades desertificadas e a paralisia do sistema produtivo seriam exercícios utópicos de um tempo morto.

Poderíamos inclusive imaginar quarentenas libertárias, que nos livrariam das exigências sufocantes da civilização moderna.

Aqui, em chave pós-lacaniana, Zizek retoma a crítica monocórdia de sua obra, contra o espírito sessentoitista. É que, nessa crítica, as multidões rizomáticas da geração de 1968 que bradavam “é proibido proibir”teriam vencido. O resultado histórico foi o status quo contemporâneo do multiculturalismo liberal, festivo e hedonista.

Este establishment libertário prescreve um permanente e intenso envolvimento emotivo com tudo:

  • o trabalho vivo contra o tédio maquinal,
  • o gozo contra a repressão,
  • a alegria contra a melancolia.

Daí que

  • os tempos mortos,
  • os sentimentos melancólicos
  • e a monotonia desoladora da paisagem pandêmica

se mostrem, aos olhos da Ideologiekritik zizekiana, dotados de um potencial subversivo.

* No segundo texto, o filósofo desenvolve o dito potencial subversivo da epidemia.

Começa com uma analogia interessante sobre como o desastre nuclear de Chernobyl, em 1986, provocou uma reviravolta subjetiva na antiga URSS.

Os cidadãos

  • não só pararam de acreditar nas narrativas que o controle soviético da informação lhes apresentava,
  • como começaram a multiplicar relatos e meios de expressão alternativos (samizdatazinesmail-letters).

Estaria Zizek esboçando uma crítica à censura do regime de partido único da China?

  • Não.
  • Logo a seguir, ele muda o enfoque para mirar no capitalismo global e nos mercados,
  • como se hoje o socialismo à chinesa não operasse como a principal fábrica do capitalismo global.

Zizek

  •  entende que a pandemia permite pensarmos em uma mudança radical,
  • restaurando a confiança no “povo e na ciência” (the people and in science).

Aqui temos o Zizek hegeliano entrando em campo:

  • é preciso fortalecer instituições públicas e universais,
  • um Estado forte guiado pelos interesses racionais da classe trabalhadora.

Uma aposta

  • na ciência, nos cientistas e na classe médica
  • contra o obscurantismo da nova direita, suas fake news, seu terraplanismo,
  • seu rechaço da medicina moderna, contra as vacinas.

Assim como, num passado recente,

  • negacionistas rechaçavam que havia uma relação de causalidade comprovada entre o HIV e a AIDS,
  • atualmente a nova direita assume a reação contra a Ciência.

Com isso, o alastramento do coronavírus nos acordaria duplamente:

  • de um lado, dos fundamentalismos anticientíficos da nova direita,
  • do outro lado, dos pós-modernismos new age, homeopáticos e sessentoitistas,
  • aliados sorrateiramente aos primeiros em sua escalada anti-universalista.

É verdade que, em momentos de pandemia, dá-se uma desterritorialização generalizada, abrindo brechas no campo dos possíveis. Poderíamos lembrar como,

  • na Baixa Idade Média, a Peste Negra precipitou a crise do feudalismo,
  • a pandemia de influenza de 1918-20 criou oportunidades para a luta por um sistema público de saúde,
  • e a de AIDS, nas décadas de 1980-90, uma inédita mobilização pelos direitos dos gays à vida e à saúde.

Porém, em todos os casos, não foi nenhuma Astúcia da Razão hegeliana que, da negação da negação, terminou gerando consequências positivas imprevisíveis. Zizek sabe disso.

  • Nesse sentido, ele aponta para Bernie Sanders, visto pelo filósofo como um Trump do Bem (i.e., de “Esquerda”),
  • alguém que pode reforçar a unidade nacional ao redor de um plano universalista de proteção à classe trabalhadora.

Em vez de fechar fronteiras contra os imigrantes, abri-las para acolher todos os despossuídos, agora com acesso à melhor ciência da medicina moderna.

  • Esse seria o primeiro passo, ainda segundo Zizek,
  • para a criação de um estado internacional protetivo de todos os cidadãos do mundo,
  • uma culminação do progresso histórico da razão.

Por isso, desde já, é importante fortalecer a classe médica em sua organização global contra a epidemia, através da OMS e de redes transnacionais de solidariedade.

Valeria perguntar, tudo ponderado,

  • por que o primeiro lugar para essa mudança radical à Zizek seriam os EUA e outras democracias liberais,
  • e não a própria China.

Onde

  • a mobilização da classe médica e a formação de redes cidadãs de informação
  • se chocaram quase instantaneamente com o monopólio político da narrativa exercido pelo partido único.

Se existe um país no mundo onde os cientistas e midiativistas são vistos como perigosos dissidentes, é na China socialista.

Assim como era na União Soviética de Chernobyl, onde o partido comunista igualmente deu mais importância ao controle da narrativa do desastre do que ao controle do próprio desastre.

  • E se podemos realmente falar em potencial subversivo da ciência,
  • talvez não seja exatamente como aliada do estado (ainda que mascarado na utopia do Estado Universal de Hegel),
  • mas como contrapoder.

E não exatamente em Ciência, com maiúscula, mas na multiplicação de hipóteses e questionamentos que fazem as perspectivas científicas se amalgamarem com a liberdade democrática.

Zizek, entretanto, prefere ilustrar suas teorias com os acontecimentos, assim como Agamben o fez de modo bem mais tosco, no caso da teoria do estado de exceção.

Ainda que algumas ‘pensatas’ tenham o poder de nos colocar a matutar, estão muito longe de levar a sério o desafio dessa situação que, conforme o texto de Nancy, nos pandemiza a todos.

***

É preciso reconhecer o mérito dos dois filósofos em, pelo menos, se arriscarem numa arena pública tão asfixiante.

Num mundo em que as narrativas são imediatamente submetidas a um crivo estrito,

  • seja por centros unificados como o do partido chinês,
  • seja pela polícia difusa de linchadores virtuais, quando a prudência nos aconselha a ficar quietos,

pensar a partir de uma catástrofe não deixa de ser um gesto de coragem.

 

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Bruno Cava Rodrigues

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/596989-o-coronavirus-e-os-filosofos

 

 

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