Querida Amazônia: artigo de François Glory, missionário na Amazônia por 30 anos


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François Glory , 01/03/20 – Foto: Daqui

Existem mais de cinquenta mil comunidades sem padres no Brasil. Como responder a todas?

No Sínodo, a proposta foi de ordenar alguns diáconos ao sacerdócio. Porém, os diáconos têm família e moram em grandes cidades. A vocação diaconal é diferente da sacerdotal. Francisco percebeu o perigo: solução que não resolve o problema e, pior, pode aumentar o poder do clericalismo,

diz François Glory, padre missionário francês que viveu 30 anos na Amazônia.

 

 

Na Quarta feira, 12 de fevereiro, aniversário dos quinze anos do assassinato da irmã Dorothy Stang, no estado do Pará, o papa Francisco publicava sua Exortação Apostólica: Querida Amazônia.

Dorothy não é  um  símbolo qualquer:

  • religiosa missionaria, eliminada pelo lobby dos latifúndios,
  • se opôs abertamente à destruição da floresta
  • e defendia os homens e mulheres do campo, que queriam viver em harmonia com a mãe terra.

Conheci Dorothy, pois trabalhei durante vinte anos na mesma prelazia, a do Xingu.

 

Resultado de imagem para Querida AmazôniaIr. Dorothy Stang – Foto: Cidade Livre

Em Querida Amazônia,

  • Francisco revela seus quatro sonhos:
  • o social, o cultural, o ecológico e o eclesial.

Certamente, ele se inspira no exemplo de Dorothy e de tantos outros mártires da América Latina, que deram e continuam dando suas vidas em favor dos povos da Amazônia.

  • Os sonhos de Francisco seriam pura utopia
  • se não fossem vividos e experimentados no seio das comunidades
  • e marcados pelo selo do sangue dos mártires.

De fato, Dorothy não podia defender os sem-terra, sem valorizar suas raízes culturais, muitas destas depreciadas por ignorância das classes favorecidas. Coerente com suas opções, ela partilhava as condições de vida precária e de insegurança do povo. Por causa disso, ela pagou um alto preço.

  • A preocupação com a Mãe-Terra, cuja biodiversidade deve ser protegida, era a expressão mais característica da sua mística.
  • As Ceb’s eram sua Igreja viva
  • e a mata seu misterioso, imenso e amado convento.
  • Sua opção preferencial pelos pobres iluminava seu manso olhar, que incessantemente revelava o amor de Jesus para com os excluídos.
  • As dimensões social, cultural e ecológica se juntavam, como num mesmo rio, carregando vida.

Dorothy sonhava sim, talvez até demais, pois acreditava na humanidade, mesma que cruel.

Do lado de Roma,

  • Francisco nos surpreendeu quando uniu sua voz profética
  • à dos grandes poetas e defensores da América Latina.

Ele nos convida a abrir os olhos do coração para compreender os desafios e implicações que esperam aqueles que querem salvar esta Querida Amazônia.

Os quatro sonhos são os mesmos de Dorothy e daqueles que, no coração da Amazônia,se  opõem à sua destruição.

  • A cobiça de poucos leva ao desaparecimento dos povos nativos e da própria floresta, indispensável para sobrevivência destes mesmos povos.
  • A poluição das águas e a morte da fauna são as consequências mais dramáticas dessa devastação.

Renasce a época dos conquistadores e do Império, com todos os seus abusos!

Sem respeito às tradições e crenças ancestrais dos povos indígenas,

  • pastores pentecostais e neopentecostais
  • querem civilizar as tribos, convertendo-as.
  • Anestesiadas pela louvação importada, os nativos se tornam presas fáceis nas mãos de traficantes sem escrúpulos.

A teologia da prosperidade substituiu a teologia da Libertação. Todas as formas de escravidão reaparecem.

As riquezas naturais são exploradas por vários lobbys nacionais e/ou internacionais, em nome da ordem e do progresso. Eles arrogam-se todos os direitos, até o de eliminar os que incomodam suas ambições.

Periodicamente,

  • os responsáveis sindicais,
  • os defensores do meio ambiente,
  • caciques dos povos indígenas,
  • lideranças de partidos opostos ao poder,

estão sendo friamente assassinados.

A impunidade é total no novo regime, eleito democraticamente por aqueles que sonhavam um Messias que defenderia os valores cristãos contra o perigo do socialismo e contra a Venezuela.

Francisco, num grito profético, denuncia as injustiças e os crimes permanentes. No parágrafo 19, ele escreve:

  • os missionários nem sempre estiveram do lado dos oprimidos,
  • deploro-o e mais uma vez peço humildemente perdão,
  • não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América…

Aos membros dos povos nativos, agradeço e digo novamente que, com a vossa vida, sois um grito lançado à consciência (…). Vós sois memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum.

Em resposta,

  • o presidente do Brasil acusou Francisco de querer se apropriar da Amazônia,
  • a qual não seria essa terra querida que precisamos sempre proteger,
  • mas um tesouro que precisa ser explorado para o progresso econômico da nação querida.

Um certo Brasil acima de tudo. Esses projetos, como sempre, serão proveitosos somente às elites, que enriquecerão e jogarão na miséria a multidão dos excluídos, expulsos de suas terras. A história tem a mania de repetir seus erros.

No último capítulo, eis uma surpresa, fruto de uma espera frustrada.

Onde ficaram

  • as propostas dos Viri Probati?
  • E a sugestão de um rito amazônico,
  • bem como a oficialização dos ministérios femininos?

A esperança, depois do Sínodo de outubro, em Roma, era grande.

Incrível! Era como se, de repente, Francisco se afastasse da realidade e sonhasse!

  • A linha dura, conservadora, gritou vitória: o papa ouviu-nos!
  • O campo adverso que pensava acabar com a lei do celibato e entrar na história não escondeu sua decepção.

Mas como vimos,

  • a urgência na Amazônia não era a questão dos Viri Probati, nem dos novos ministérios.
  • De fato, é preciso reconhecer que as comunidades não esperaram o Sínodo para organizar-se.
  • Já, desde Medellín (1968), elas o tinham iniciado e o Sínodo veio apenas confirmar.

 

Mauricio López, secretário executivo da Repam, comenta as reações à exortação pós-sinodal do papa “Querida Amazônia“, afirmando:

Padres casados e mulheres diáconas

  • dois temas “que distraem”,
  • que reduziram o amplo objetivo do Sínodo  
  • e desviaram o olhar do foco principal:
  • a denúncia de um ‘modelo extrativista destrutivo’ que gradualmente aniquila o pulmão do mundo que é a Amazônia.
  • Por um lado, um conservadorismo que pretende que nada mude, que seja protegido um certo modelo de Igreja, de governo e de poder.
  • Por outro, grupos de pessoas que não vivem e trabalham na Amazônia, mas assumem uma posição ideológica que não reflete as necessidades do nosso território.

Ambos são extremos com posições no limite do fundamentalismo”.                     

Francisco não caiu na armadilha de falsas soluções e não fechou nenhuma porta.

  • Ele convida-nos a mudar o nosso olhar
  • e nos interpela a uma outra abordagem sobre a realidade, que permita superar as divergências.

Aqueles que o conhecem, reconhecem aqui sua pedagogia pastoral:

  • perante duas propostas opostas,
  • deve-se procurar uma terceira via que não fira ninguém
  • e que abra, para todos, um novo projeto eclesial.   

Dorothy tinha resolvida o problema, pois dedicou-se ao mais urgente.

É providencial que no dia da publicação de Querida Amazônia, pudéssemos nos lembrar que o rumo certo se encontra naquele que foi iniciado por tantas Dorothy’s da Amazônia, antes mesmo de todos os encontros teológicos e pastorais!  Francisco o entendeu e convida a Igreja da Amazônia a procurar soluções a partir disso.

Porém, sobrou um inesperado problema, levantado por Ghislain Lafont, teólogo famoso. Ele escreve:

Parece-me, portanto, que

  • quando se fala do sacerdote a partir daquilo que lhe é específico
  • e se busca essa especificidade apenas no poder do sacerdote sobre os sacramentos,
  • não é possível sonhar em uma Igreja da Amazônia missionária, humana e eucarística;
  • corre-se o risco de mantê-la no regime clerical….

Os números 87-90 de “Querida Amazônia” não parecem ter acolhido o que o Concílio Vaticano II havia dito sobre o sacerdote.

Como sair disso? (publicado em Settimana News, 26. 02. 2020).

De fato, no número 87 de “Querida Amazônia”, Francisco lembra a função insubstituível, e que não pode ser delegado, do padre na celebração eucarística. Ora, isso parece bloquear toda inovação. Entendido assim, não tem saída.

Portanto,

  • será que não podemos imaginar um novo entendimento dos ministério?
  • Tantos estudos foram feitos depois do Concilio e que agora parecem estar escondidos nos porões das fortalezas clericais!

Por ter passado mais de trinta anos na região Norte do Brasil, sei por experiência que a solução dos Viri Probati é ilusória.

Existem mais de cinquenta mil comunidades sem padres no Brasil. Como responder a todas?

  • No Sínodo, a proposta foi de ordenar alguns diáconos ao sacerdócio.
  • Porém, os diáconos têm família e moram em grandes cidades. A vocação diaconal é diferente da sacerdotal.

Francisco percebeu o perigo:

  • solução que não resolve o problema
  • e, pior, pode aumentar o poder do clericalismo.

Os novos padres

  • iriam certamente afastar a liderança assumida pelas mulheres,
  • que, até agora, cumpriram muito bem um papel de suplência.
  • A volta de um clero cada vez mais identitário e de formação romana não permite sonhar um novo jeito de ser Igreja. 

Devia-se instituir um ministério próprio à mulher? Questão para debater.

  • Até agora, os ministérios estão organizados e pensados unicamente em relação ao ministério sacerdotal
  • e a partir de seu poder intrínseco.
  • A mulher teria uma função própria à sua condição, sem poder assumir responsabilidades que pertencem unicamente ao homem privilegiado.

A declaração de Paulo, em Gálatas 3,28:

  • Não há nem homem nem mulher,
  • seria, certamente, envolta de abstrações dogmáticas sem nenhuma eficácia na realidade. 

É sabido que Francisco não quis mudar o sistema,

  • pois está consciente de que não serve: 
  • seria pôr remendo de pano novo em vestido velho ou pôr vinho novo em odres velhos.  

Dado que

  • o único modelo que conhecemos é o clerical,
  • precisamos procurar outra pista
  • se quisermos evitar a clericalização de todos aqueles que assumem ministérios novos na Igreja.

Despojando a função sacerdotal da carapaça clerical, seguindo o exemplo de Cristo que se despojou da forma divina sem perder seu ser divino (Fl 2, 6-11), poderíamos reencontrar o sentido genérico da função sacerdotal descrita na carta aos Hebreus. Um caminho seguro. 

A Amazônia não precisa de padres que oferecem o sacrifício, mas de missionários que se sacrificam, como o fez a irmã Dorothy.

  • Ordenar Viri Probati para suprir a falta de ministros ordenados
  • poderá reduzir a função sacerdotal e a própria Eucaristia, a qual nunca iria continuar a ser vista como propriedade exclusiva do ministro ordenado.

É na participação ativa de toda a comunidade, já vivenciada nas celebrações da Palavra, que é possível achar o pleno sentido da Eucaristia, infelizmente percebida, por vezes, como um belo ato de devoção e adoração ao qual teríamos a graça de assistir!

Francisco deixa, porém, uma porta aberta.

Ele lembra que

  • “nos seus primórdios, a fé cristã se difundiu admiravelmente seguindo esta lógica que lhe permitiu, a partir duma matriz judaica,
  • encarnar-se nas culturas grega e romana
  • e adquirir na sua passagem fisionomias diferentes.

De forma análoga, neste momento histórico, a Amazónia desafia-nos

  • a superar perspectivas limitadas,
  • soluções pragmáticas que permanecem enclausuradas em aspetos parciais das grandes questões,
  • para buscar caminhos mais amplos e ousados de inculturação”. 

Assim, podemos imaginar que Pedro deixa Paulo agir e ir onde Pedro não poderia chegar. Os novos Paulos

  • vão levar o Evangelho aos Povos da Amazônia,
  • livres das leis e exigências da cultura europeia.

Uma obra imensa espera a Igreja na Amazônia. Acertar bem é ouvir as Dorothy’s que estão já no campo, mergulhadas na realidade.

A Igreja vai mudar no dia em que os homens não forem os únicos a governar e a proteger seus privilégios.

Jesus Cristo chamou discípulos para servir e não para dominar.

 

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François Glory. Perpignan: 01/03/ 2020

Fonte: Enviado pelo autor: gloryfrancois45@gmail.com

 

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