O Sagrado e suas configurações (2)

Dou continuação à crónica da semana passada.

A pessoa religiosa refere-se sempre ao Sagrado, à Ultimidade, que, pela sua própria definição, não pode alcançar, menos ainda dominar ou possuir.

Percebe-se, pois, que o Sagrado seja figurado e representado de múltiplas formas.

 

1. Uma das figuras ou representações é a de o Ser supremo. Aparece, portanto, como o Deus celeste, criador e senhor das criaturas.

2. Quanto ao politeísmo (vários deuses e deusas), houve quem o interpretasse como uma degenerescência ou queda do monoteísmo. De facto, é preciso saber que

  • o monoteísmo em sentido estrito é recente,
  • mas isso não significa que haja religiões propriamente politeístas.

Penso que o politeísmo é sobretudo a atribuição da Força divina originária a várias divindades, que aparecem como suas “personificações”. Atente-se, por exemplo, no politeísmo grego e romano, talvez os mais conhecidos.

3. No quadro de tentativas de compreensão do mal, surgiram representações dualistas – pense-se

  • no mazdeísmo,
  • gnosticismo
  • e maniqueísmo.

Mas dificilmente se poderá dizer que haja um verdadeiro dualismo no sentido de dois princípios simétricos e supremos.

Pode é dar-se uma espécie de luta no interior do Uno, com expressão no mundo e na História, que seriam a continuação desse combate a caminho da reconciliação e da vitória do Bem. No fim, o Bem triunfará.

4. O monismo – pense-se em certas formas de hinduísmo e no budismo – acentua a unidade, o Uno, o Absoluto, Brahman.

  • Este acento no Sagrado como absoluto
  • leva a considerá-lo como realidade única,
  • de que os outros seres, especialmente o ser humano, não são senão expressões e manifestações.

Precisamente a plenitude do Absoluto

  • tenderá, por um lado, a sublinhar a unidade,
  • mas, por outro, corre o risco da diluição da dimensão pessoal.

5. O monoteísmo, enquanto figuração do Sagrado

  • como um só Deus, transcendente, pessoal e criador,
  • é, na história das religiões, bastante recente (séculos VII-VI a.C.),
  • podendo afirmar-se que só alcançou expressão no tempo do exílio dos judeus na Babilónia e constitui a grande herança do judaísmo ao mundo.

Como escreveu J. Gómez Caffarena,

  • a experiência negativa de submissão ao império babilónico,
  • com a destruição (ano 587 a.C.) do templo de Salomão e a deportação para a Babilónia,
  • “foi, paradoxalmente, positiva para o monoteísmo javista,

que alcançou nesse tempo plena expressão (sobretudo nos escritores “deuteronomistas” e no grande profeta do exílio que anunciou o regresso e cujos textos formam os capítulos 40-55 do livro de Isaías, pelo que se costuma chamar “segundo Isaías”).

Foi chave para

  • a abertura de um horizonte universal,
  • exigida logicamente pela unicidade de Deus proclamada pelo monoteísmo,
  • que implicava a superação (relativa) do particularismo etnicista inerente às ideias de eleição e “aliança””.

Neste contexto, poderá dizer-se, a título de conclusão, que, no panorama da história das religiões, analisando a lógica da sua evolução e o que estruturalmente as une, desde a pré-história até ao presente, as duas opções religiosas fundamentais são, segundo a tese de K.-H. Ohlig, o monismo e o monoteísmo.

 

Anselmo Borges

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Fonte:  https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/o-sagrado-e-suas-configuracoes-2-11872952.html

 

 

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