O ano de 1582 teve menos 11 dias. É por esta e por outras que haver um 29 de fevereiro de quatro em quatro anos faz tanta falta

Por que Anos Bissextos a cada 4 anos?

 

João Pedro Barros – 28.02.2020 

Sem anos bissextos, “bastariam” 100 anos para o nosso calendário ficar irreconhecível e a primavera só chegar em abril.

E foi um “pequeno” erro do anterior calendário juliano que fez com que, a 4 de outubro de 1582, se seguisse o dia 15 de outubro

Este sábado é 29 de fevereiro, o tal dia que acontece uma vez de quatro em quatro anos e a que pessoas por todo o mundo associam lendas urbanas – por exemplo, uma tradição com raízes britânicas dizia que este era o único dia em que uma mulher podia pedir um homem em casamento. 2020 é por isso um ano bissexto, mas sabe qual é a razão por trás desta regra do calendário gregoriano, o mais usado no mundo?

Talvez conheça apenas a explicação básica, tal como o autor destas linhas antes de investigar o assunto:

  • na verdade, a Terra não demora 365 dias, mas sim 365,242374 dias a dar uma volta completa ao Sol.
  • Arredondando, é mais ou menos 365 dias e um quarto por ano, o que explica que, para que as contas do nosso calendário batam certas com o movimento da Terra, se acrescente um dia a cada quatro anos (o que perfaz 365,25 dias por ano, em média).

E um ano bissexto acontece de quatro em quatro anos, não é verdade? Errado!

A regra tem uma ligeira subtileza que não teve qualquer importância nos últimos 120 anos mas que a deverá ter para as gerações que agora são jovens e chegarem a 2100 – se a Terra não acabar antes, pelo menos.

Na verdade, os anos são bissextos se forem divididos por quatro, com a exceção dos anos que são divisíveis por 100 e não são divisíveis por 400.

Confuso? Se também tirou negativa a Métodos Quantativos – matemática de ensino secundário em forma simplificada, esclarecemos – explicamos com exemplos: 1700, 1800 e 1900 não foram anos bissextos, o ano 2000 foi e 2100, 2200 e 2300 também não vão ser. E isto tem uma razão de ser, claro.

Daniel Rocal – PHOTOGRAPHY/Getty Images

Ao subtrair um ano bissexto a cada 100 anos, a média de dias por ano passa para 365,24 (são menos 0,01 dias por ano).

Não satisfeitos com esta aproximação ao número mágico, os mentores do calendário juliano – promulgado pelo Papa Gregório XIII a 24 de fevereiro de 1582, em substituição do calendário juliano – acrescentaram mais um detalhe. A cada 400 anos esta regra não se aplica (2400 será por isso bissexto), o dá uma média de 365,2425 dias por ano (um dia ganho a cada 400 anos dá 0,0025 dias por ano).

Esta proximidade com os 365,242374 dias reais em que a Terra demora a dar uma volta ao Sol já são suficientes para uma coerência à prova de milénios.

As estações de pernas para o ar

Afinal, qual seria então a consequência de não termos os anos bissextos? Pegando na próxima mudança de estação, o equinócio – momento em que dia e a noite nos dois hemisférios têm a mesma duração – ou início da primavera seria atrasado um dia. Ou seja, em 2020, em vez de ser a 20 de março, seria a 21 de março.

Um dia de atraso das estações – se é que elas ainda existem – de quatro em quatro anos parece insignificante, mas em acumulação tornaria os meses completamente desfasados das mesmas.

  • Se durante 100 anos não houvesse anos bissextos
  • as estações atrasar-se-iam 25 dias:
  • ou seja, em 2120 a primavera começaria apenas por volta de 14 de abril e assim sucessivamente,
  • até que deixaria de haver uma relação entre estações e épocas do ano.

Ainda se lembra daquela regra imposta de excluir três anos bissextos a cada 400 anos? Pois bem,

  • o antigo calendário juliano não a tinha e aplicava a regra dos anos bissextos a cada quatro anos, sem exceções.
  • O resultado é que a compensação se tornou excessiva e anteciparam-se as estações.

Após cerca de 1600 anos das regras impostas por Júlio César a partir do ano 45 a.C.

  • havia uma diferença de cerca de 10 dias face à posição da Terra no movimento de translação, (em volta do Sol):
  • o equinócio da primavera ocorria a 10 ou 11 de março.
Três capas de edições do "Kalendarium Gregorianum perpetuum", ou seja, Calendário Gregoriano Perpétuo: Coimbra (1853), Cracóvia (1853) e Veneza (1852) Três capas de edições do “Kalendarium Gregorianum perpetuum”, ou seja, Calendário Gregoriano Perpétuo: Coimbra (1853), Cracóvia (1853) e Veneza (1852)

Isto originou algumas bizarrias temporais:

  • em Portugal, bem como em Itália, Polónia e Espanha, os dias entre 5 e 14 de outubro de 1582 nunca existiram.
  • O Papa Gregório XIII impôs assim a “correção” para o “seu” calendário, que só foi adoptado noutros países em datas muito posteriores.

Por exemplo,

  • em 1700 na Alemanha,
  • 1752 na Grã-Bretanha e colónias
  • e 1923 na Grécia.

Sir Isaac Newton, por exemplo, nasceu no dia de Natal em Inglaterra, mas, no mundo gregoriano, a sua data de nascimento é 4 de janeiro de 1643.

Uma última perguntar para baralhar ainda mais quem já esteja confuso:

  • isto vai manter-se sempre assim? Não, dizem os cientistas.
  • Os efeitos gravitacionais do Sol e da Lua sobre a Terra vão tornar o seu movimento mais lento – em 14 microssegundos por ano, calcula-se.
  • Assim, um ano do nosso calendário e o tempo que a Terra demora a dar uma volta completa à sua estrela-mãe (ano sideral) vão aproximar-se.

Daqui a quatro milhões de anos, os dias vão crescer 56 segundos, a conta ideal para que haja uma sincronia perfeita de 365 dias entre o chamado ano tropical (o calendário) e o ano sideral.

Haverá humanidade nesse momento? É uma futurologia impossível, mas já agora fique a saber que se a resposta for sim e os milénios continuarem a passar, será necessário dar uma volta de 360 graus aos anos bissextos: em vez disso, será preciso eliminar um dia a cada quatro ou outro número de anos, em vez de o acrescentar, para manter a ordem universal do tempo.

 

 

 

João Pedro Barros 

Fonte: https://expresso.pt/sociedade/2020-02-28-O-ano-de-1582-teve-menos-11-dias.-E-por-esta-e-por-outras-que-haver-um-29-de-fevereiro-de-quatro-em-quatro-anos-faz-tanta-falta

 

 

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