A TEOLOGIA SE FEZ ARTE, SAMBA, RESISTÊNCIA E ALEGRIA NO CARNAVAL DE 2020

José Alcimar de Oliveira

24/02/2020

Foto: Crucifixo da Mangueira na Passarela do Samba– Carnaval 2020 – Daqui

Por meio da força popular do samba a arte, na ágora do sambódromo idealizado pelos irredentos Brizola e Darcy Ribeiro, mostrou na rua o Brasil das entranhas.

A face histórica de Jesus de Nazaré, mais do que em muitas igrejas e templos, revelou-se como Cristo do Povo-Multidão-sem-medo, no sentido mais espinosista das potências afetivas.

 

 

Com ou sem a vênia de meu caro Adorno, de sua reticente sensibilidade sociológica à verdade da cultura popular e sem negar a riqueza heurística de seu conceito incontornávrael de indústria cultul, conceito mais fecundo hoje do que à época de sua formulação, penso que nem o mestre da Teoria Crítica poderia manter-se indiferente à letra do enredo da Mangueira no carnaval de 2020.

  • Letra irretocável.
  • Uma crítica inteligente
  • e tecida com estética de elevada extração.

O Cristo da Periferia

  • com sangue índio, negro,
  • dos pobres de todos os povos,
  • em corpo de mulher, a sintetizar o cuidado com a vida,

fez a ponte ontodialética entre os morros do Rio de Janeiro e a Nazaré da Palestina.

A Mangueira fez teologia em grau elevado.
  • Fez arte da teologia
  • na cadência maior do samba
  • da resistência ao ódio e ao fundamentalismo, religioso ou não.

Jesus de Nazaré é do Povo e Filho de Nossa Senhora das Dores do Brasil.

Uma aula de teologia rés-ao-chão da vida de todos os oprimidos e na alegria da boa luta, porque

  • na alegria do Povo-Multidão de todas as cores
  • não há lugar para a intolerância
  • nem para Messias de arma na mão,

conforme reza a letra.

A despeito
  • da forma global (Globo e consortes) e rebaixada de assimilação dos signos populares,
  • da tentativa de conformar a crítica ao que o velho Marx denominava de
  • “tempo da corrupção geral, da venalidade universal”em que tudo se converte em “valor venal”,
  • a verdade ontológica da arte termina por implodir todas as formas e tentativas de falsificação da realidade.

Por meio da força popular do samba a arte, na ágora do sambódromo idealizado pelos irredentos Brizola e Darcy Ribeiro, mostrou na rua o Brasil das entranhas.

A face histórica de Jesus de Nazaré,

  • mais do que em muitas igrejas e templos,
  • revelou-se como Cristo do Povo-Multidão-sem-medo,
  • no sentido mais espinosista das potências afetivas.

 

 

José Alcimar de Oliveira

 O autor, formado em Teologia e Filosofia, é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas e filho dos rios Solimões e Jaguaribe.

Fonte: https://afinsophia.org/2020/02/24/filosofo-jose-alcimar-a-teologia-se-fez-arte-samba-resistencia-e-alegria-no-carnaval-de-2020/

 

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