Costadoat: “A Amazônia não precisa de sacerdotes, mas de presbíteros testados pelas suas comunidades”

Face à proposta de Faus: que os padres romanos celibatários deixem Roma e vão para a América do Sul

 

Sacerdotes en la Amazonía

 

Jorge Costadoat – 02.17.2020

Foto: Padres na Amazônia/  Religión Digital

Tradução: Orlando Almeida

“Roma está cheia de casas de formação e de universidades que romanizam os sacerdotes e os convertem em ministros do sacrifício eucarístico para o perdão dos pecados”

“Essa ideia pré-conciliar restritiva de sacerdote não desapareceu, revigorou-se e constitui a forja do clericalismo que o catolicismo atual lamenta em todos os lugares”

 

“O verdadeiro e maior perigo poderão ser sempre os padres clericalizados que estão lá ou serão enviados para uma região latino-americana que não precisa deles”

 

Amazonia. Religiosas

Amazônia. Religiosas

 

Na Amazônia há muitos cristãos, embora apenas 30% das comunidades tenham padres para celebrar a Eucaristia. Faltam padres, obviamente. Óbvio? A Eucaristia é indispensável para que haja o cristianismo? Deixemos em aberto esta pergunta que daria para uma reflexão teológica maior, mas o fato de um cristianismo sem ministros sacerdotes faz pensar.

Motivou-me a escrever esta coluna a carta de José Ignacio González-Faus ao papa por não ter permitido, na sua Exortação Apostólica sobre a Amazônia, que se ordenem os viri probati. O teólogo graceja: propõe que os padres celibatários romanos deixem a Cúria e vão para a América do Sul prestar um serviço pastoral. As suas tarefas em Roma poderiam ser executadas por leigos. Eles, em vez disso, poderiam ir para os vários países amazônicos para realizar um trabalho que atualmente não realizam.

Levo a sério o gracejo de González-Faus.

Não estou brincando: alguém imagina o cardeal Sarah, Prefeito da liturgia, celebrando a eucaristia no Brasil, de costas para as pessoas e oferecendo a elas a comunhão apenas na boca? Seria uma barbaridade pastoral.

Mas ele próprio, como nos consta ter ele proposto, entende o sacerdócio desta maneira.

Na Amazônia há cristianismo sem padres. De que qualidade? Somente o Pai Eterno o sabe. Mas, quanto ao que nós seres humanos podemos saber, um cristianismo com sacerdotes romanos provavelmente se desvirtuaria. Este tipo de sacerdotes é o dos que ainda se formam em seminários que os desenraízam das suas culturas e das comunidades e os clericalizam. São homens que chegaram à Europa depois de receberem uma formação sacerdotal muito europeia e retornam à América Latina ainda mais europeus.

Roma está cheia de casas de formação e de universidades que romanizam os sacerdotes e os convertem em ministros do sacrifício eucarístico para o perdão dos pecados. Esta ideia pré-conciliar e restritiva de padre não desapareceu, revigorou-se e constitui a forja do clericalismo que o atual catolicismo deplora em toda a parte. Muito disso está na própria exortação do papa, sei que é duro dizer isso.

Abertura del Sínodo para la Amazonía

Abertura do Sínodo para a Amazônia

A Amazônia não precisa de sacerdotes, mas de presbíteros aprovados pelas suas comunidades por tê-las ajudado a viver o Evangelho e por ter cuidado das divisões que as ameaçam. O único sacrifício de que estas comunidades precisam é o do amor daqueles que se privam a si mesmos em favor dos seus irmãos e irmãs.

Podem cumprir esta missão os ‘viri probati’ não sacerdotes? Parece que sim. Podem fazê-lo as religiosas e as mulheres em geral? Não sabemos, mas talvez eles possam fazer isso melhor que os homens.

  • A Amazônia não precisa, por certo, do tipo de padres ressacralizados
  • que, nos últimos cinquenta anos, acabaram por destruir as comunidades eclesiais de base (CEBs) da América Latina,
  • a melhor recepção do Vaticano II.

 

Robert Sarah, durante su intervención en el CEU

Robert Sarah, durante a sua intervenção no CEU

 

Nestes dias foi oferecida uma interpretação benigna da Querida Amazônia.

  • Esta Exortação Apostólica não teria excluído a possibilidade de ordenar viri probati,
  • mas sim teria entregue a decisão às igrejas locais.
  • O Papa, por certo, valoriza as conclusões do Sínodo que abordou esta temática. “Não pretendo substituí-lo nem repeti-lo” (QA 2), afirma.

Com este novo documento

  • Francisco quer concluir o seu magistério
  • e apresentar oficialmente o resultado do trabalho sinodal.

Mas

  • foi necessária outra reviravolta para convencer os cardeais que obstruem os seus ensinamentos?
  • Ou para ganhar o jogo com uma estratégia que os desloca?

Não o creio.

  • E também não creio que tenha sido bom entregar aos episcopados locais a decisão de Amoris Laetitia de oferecer a Eucaristia aos divorciados recasados.
  • As conferências episcopais do mundo, segundo me foi informado, salvo poucas exceções, não tiveram a coragem de fazê-lo.

Os bispos do Brasil ordenarão ‘viri probati’? Farão isso em aliança com os alemães em busca de mudanças ministeriais semelhantes?

Que se dê este passo ou não, o cristianismo na Amazônia é uma realidade com ou sem padres. Melhor, naquelas comunidades onde não os haja é sempre possível desenvolver outros tipos de ações de graças a Deus por Jesus Cristo.

  • Não seriam possíveis refeições eucarísticas com mandioca e água de coco?
  • No Chile, Argentina e Uruguai, poderia fazer-se isso com pão e mate.

Karl Rahner vislumbrava o desenvolvimento de um cristianismo mundial, aberto a estas inovações. Ele se pergunta:

“É necessário celebrar a Eucaristia com vinho de uva até no Alasca” (1980)?

  • Outras formas de ação de graças poderiam ser realizadas por pessoas comuns,
  • homens e mulheres, idealmente líderes de comunidades
  • preparados para facilitar a interpretação da Palavra
  • e capazes de guiar, reconciliar e incentivar as suas comunidades.

Este serviço, de fato, é realizado por esse tipo de pessoas. Há religiosas que dizem que até confessam os cristãos.

 

Amazonía palpitante

Amazônia palpitante

Termino:

  • e se o atual cristianismo da Amazônia, sem clérigos, nos tomasse a dianteira?
  • Não ordenar ‘viri probati’, nem tampouco ordenar mulheres provadas pode não ser tão ruim.

Em qualquer circunstância, o verdadeiro e maior perigo poderão ser sempre os padres clericalizados que já estão lá ou que serão enviados para uma região latino-americana que não precisa deles.

 

 

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Jorge Costadoat

Fonte: https://www.religiondigital.org/cristianismo_en_construccion/sacerdotes-Amazonia-Sinodo-eucaristia_7_2205449461.html

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