Padre Josh: um padre católico casado num mundo celibatário

Por TIM SULLIVAN  –  17.02.2020

 Foto: Padre  Josh: Um padre católico casado  / DaquiDALLAS (AP)

O padre acorda às 4 da manhã nos dias em que celebra a missa matutina, tomando café e desfrutando a tranquilidade, enquanto os seus filhos pequenos dormem em quartos cheios de bichos de pelúcia, bonecas da Vila Sésamo e fotos de santos.

Então ele dá um beijo de despedida na esposa e dirige pelas ruas vazias do subúrbio do norte de Dallas até à igreja de que ele toma conta.

 

 

Num mundo católico em que debates sobre o celibato clerical pegam fogo do Brasil ao Vaticano, Joshua Whitfield é uma das coisas mais raras: um padre católico casado.

 

A família Whitfield, a esposa Alli, à esquerda, as filhas Zoe-Catherine, 5, segunda à esquerda, e Maggie, 9, à direita, recebem a comunhão de seu pai e marido, o Rev. Joshua Whitfield, à direita, durante a missa de domingo em St Comunidade Católica Rita em Dallas. Os Whitfields, que eram episcopais, converteram-se ao catolicismo em 2009. (Foto AP / Jessie Wardarski)

 

A igreja católica romana tem exigido o celibato de seus padres desde a Idade Média, chamando-o de “dom espiritual” que permite que os homens se dediquem totalmente à igreja. Mas como a escassez de padres se tornou crítica em algumas partes do mundo, as alas liberais da igreja têm argumentado que é hora de reavaliar essa postura.

Na quarta-feira, 12,

  • o papa Francisco contornou o mais recente debate sobre o celibato,
  • divulgando um documento aguardado com expectativa
  • que evitou qualquer menção às recomendações dos bispos latino-americanos
  • para que se considerasse a ordenação de homens casados na Amazônia, onde os fiéis podem passar meses sem ver um padre.

Até o mais liberal dos papas se recusou a mudar a tradição.

É “a marca de uma alma heroica e o chamamento imperativo ao amor único e total por Cristo e pela Sua Igreja”, escreveu o Papa Paulo VI em 1967.

Mas há Josh Whitfield.

Whitfield é um marido, pai de quatro filhos e um padre sempre bem-humorado, amado pelos paroquianos da Comunidade Católica Santa Rita de Dallas. A vida dele trancorre num malabarismo entre dois mundos. Ele celebra missa, ouve confissões; leva seu filho para praticar karatê, incentiva o gosto da sua filha mais velha pelo beisebol. Ele é, como ele mesmo diz,

  • “uma exibição do zoológico eclesiástico”,
  • uma das minúsculas comunidades de padres casados que nem mesmo a maioria dos católicos sabe que existem.

Mas na paróquia de Santa Rita, ele é apenas o padre Josh.

“São pessoas como você que estão interessadas em padres casados. Aqui em S. Rita, seguimos adiante. O meu trabalho é simplesmente realizar as tarefas que o bispo me deu da melhor maneira possível e fazê-lo dar certo”,

disse ele numa entrevista no seu escritório cheio de livros, onde fotos da sua esposa e dos filhos disputam espaço com fotos de papas e figuras dos seus heróis religiosos.

Nos EUA, segundo especialistas,

  • há cerca de 125 padres católicos romanos casados, como Whitfield, um convertido da Igreja Episcopal,
  • e talvez algumas centenas em todo o mundo.

 

Natalie Kricken, uma estudante da St. Rita Catholic School [Escola Católica de S. Rita], à esquerda, segura a Bíblia diante do padre convertido Joshua Whitfield durante uma missa semanal de estudantes na Comunidade Católica de S. Rita em Dallas. (Foto AP / Jessie Wardarski)

 

Pesquisas entre os católicos mostram um amplo apoio ao sacerdócio casado. Uma série de relatórios, publicados pelo Pew Research Center nos últimos anos, mostram

  • 62% de apoio entre os católicos dos EUA,
  • 56% entre os católicos do Brasil – a mais populosa nação católica do mundo –
  • e 63% entre os católicos da Europa Central e Oriental.

Uma das razões por trás disso é uma igreja que está enfrentando uma imensa e crescente falta de padres.

Nos EUA,

  • o número de padres caiu mais de um terço desde 1970, chegando a menos de 37.000 em 2018,
  • enquanto que a população católica americana pulou de 54 milhões para 74 milhões, de acordo com o Center for Applied Research in the Apostolate [Centro de Pesquisa Aplicada ao Apostolado].

No mundo todo,

  • o número de padres permaneceu bastante estável nos últimos 50 anos
  • – mas a população católica dobrou para 1,3 bilhão.

Mas há um círculo eleitoral católico muito pequeno e muito notável que não apoia a abertura do sacerdócio aos homens casados: os próprios padres casados.

  • “Muitos padres casados, como eu, sustentam esse tipo de posição estranha, quase contraditória.
  • E eu acho isso difícil de entender.
  • Mas essa é a beleza irritante do catolicismo. A igreja persiste em pensar teologicamente, e não sociologicamente e não politicamente, no melhor dos casos”, diz Whitfield.

 

A família do padre Joshua Whitfield, da esquerda para a direita – Peter, 8; a esposa, Alli; e as filhas Maggie, 9, Bernadette, 4, e Zoe-Catherine, 5, – ficam juntos num banco durante a missa de domingo. Jessie Wardarski)

 

A Igreja Católica, que inclui quase duas dezenas de ritos, permite padres casados nas suas Igrejas de Rito Oriental. Ela também permite a presença de alguns padres casados, como Whitfield, um ex-padre episcopal que se converteu ao catolicismo com sua esposa, Alli, em 2009, e foi ordenado sacerdote católico três anos mais tarde.

  • Embora os padres casados fossem comuns nos primeiros séculos do cristianismo,
  • o Rito Latino – o maior dos ramos do catolicismo e o rito dominante no Ocidente –
  • impôs uma tradição de sacerdócio celibatário desde o século 11,
  • em parte como uma forma de manter os bens dos padres dentro da igreja,
  • em vez de serem passados aos seus herdeiros. (este é um argumento muito fraco: os Bens são da Igreja, não do Padre – NdR)

É também, em parte, uma maneira de reduzir os custos, já que manter uma família é mais caro.

O Papa Francisco seguiu uma linha cautelosa sobre o celibato, observando que é uma tradição e não um dogma teológico e, consequentemente, está aberta a mudanças. As suas declarações

  • vão desde as bem categóricas – “não concordo em permitir o celibato opcional, não”
  • até às mais sutis, dizendo que padres casados podem ser permitidos “quando houver necessidade pastoral” em áreas remotas com escassez extrema de clérigos.

Essa possibilidade preocupa os conservadores e emociona os liberais, os quais acreditam que permitir padres casados em áreas como a Amazônia ou as Ilhas do Pacífico poderia abrir a porta a um clero casado.

 

O padre católico, marido e pai Joshua Whitfield, brinca com três dos seus quatro filhos Maggie, 9, Peter, 8 e Zoe-Catherine, 5, na sua casa no norte de Dallas. (Foto AP / Jessie Wardarski)

 

Whitfield, 41 anos, tornou-se padre católico em 2012 por meio da Provisão Pastoral,

  • um conjunto de regras elaboradas pelo Papa João Paulo II em 1980
  • que dá aos padres episcopais casados que se converteram ao catolicismo a chance de solicitar a ordenação na igreja católica.

O processo, que pode levar anos, inclui de tudo, de entrevistas psicológicas a exames de teologia católica e, ao final, uma dispensa especial do papa.

Os padres convertidos

  • veem a si mesmos como exceções raras a séculos de regras católicas,
  • parte de uma tentativa da igreja católica de se reunir com alguns ramos do Anglicanismo.

Eles vivem com restrições especiais, incluindo a de não poderem tornar-se bispos. Eles também não podem casar-se novamente, se suas esposas morrerem, e devem passar o resto das suas vidas sacerdotais como celibatários.

 

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Muitos dos convertidos casados ficaram desencantados com a igreja Episcopal ao vê-la tornar-se cada vez mais liberal nas últimas décadas,

  • em meio a batalhas amargas sobre questões como mulheres sacerdotes e casamento gay.
  • Ironicamente, eles frequentemente se veem na condição de heróis dos católicos liberais,
  • que os consideram como uma força modernizadora na igreja.

“Nós somos estes homens muito conservadores que deixaram a igreja Episcopal e agora se encontram com todos estes católicos de esquerda que estão celebrando a nossa presença”,

diz o padre Paul Sullins, um padre casado, pai de três filhos e professor de longa data da Universidade Católica.

“Às vezes pode ser desconfortável, mas procuramos amar um ao outro”.

Deborah Rose-Milavec, do grupo de defesa católica FutureChurch*, é uma dessas progressistas.

  • “Qualquer que seja a política deles em relação ao casamento,
  • pela maneira como vivem as suas vidas, eles mostram que é perfeitamente possível ter um clero casado.
  • Eles são eficazes no seu ministério. Eles podem dizer missa e criar filhos. Eles podem ministrar os sacramentos e ter uma família”.

 

O padre católico convertido Joshua Whitfield, à esquerda, dá a comunhão durante uma missa semanal de estudantes na Comunidade Católica S. Rita, ao norte de Dallas em Dallas. (Foto AP / Jessie Wardarski)

 

Sullins reconhece que padres casados como ele podem levar a outros.
“Poderíamos algum dia ser a vanguarda, mesmo que não queiramos ser a vanguarda”, diz ele.

Whitfield,

  • que deixou a igreja episcopal em parte porque se achava alienado pela amargura das suas divisões
  • e se sentia chamado ao tradicionalismo e obediência do catolicismo,
  • evita debates sobre o celibato.

“Você pensaria que eu deveria ter uma opinião forte, de uma maneira ou de outra”,

disse ele. Ele acredita que o celibato pode ser a norma. Mas se a igreja decidir permitir padres casados

“então eu diria: ‘OK, vamos fazer isso, e eu posso mostrar a vocês como, porque nós fizemos isso dar certo’”.

Há uma evidente alegria em como ele e Alli fizeram isso dar certo.

 

Fotos da esposa do Pe. Joshua Whitfield, Alli, e da filha mais velha Maggie sentada perto de quadros com fotos de S. João Paulo II e de S. Jão  Henriqe Newman no escritório da Comunidade CAtólic em Santa Rita, a norte de Dallas. (AP Foto/Jessie Wardarski)

Alli Whitfield, à esquerda, brinca com o marido e padre católico Joshua, enquanto suas três filhasa Zoe-Catherine, 5, Bernadette, 4, and Maggie, 9, fora da casa deles, a norte de Dallas  (AP Photo/Jessie Wardarski)

 

Com quatro filhos menores de 10 anos, eles vivem em meio ao caos da escola, dos esportes, dos brinquedos e das festas de aniversário. Os jantares podem ser barulhentos, os horários dos banhos podem ser desafiadores e a programação para várias crianças pode ser inexoravelmente complicada. Whitfield diz que é “uma bagunça de uma família linda”.

 

A família Whitfield – a partir da esquerda, a esposa Alli, o filho Peter, 8 anos, a filha Maggie, 9 anos, o padre Joshua e a filha Bernadette, 4 anos – fazem pizzas em sua casa, ao norte de Dallas. (Foto AP / Jessie Wardarski)

 

Embora a paróquia tenha recebido calorosamente Whitfield e a sua família,

  • há complicações ocasionais,
  • desde recém-chegados que ficam chocados quando Whitfield menciona Alli num sermão como a esposa de um padre – um convertido – que não tem muita certeza acerca de algumas tradições católicas.

“Isso me leva a chatear mães que cresceram católicas para perguntar: O que a sua família fez?… Você deixa os seus filhos comerem carne na sexta-feira?” diz ela.

 

O padre católico convertido olha para sua filha Zoe-Catherine, 5,  durante o almoço, na cozinha de casa. (AP Photo/Jessie Wardarski)
Ela vê sua família como completamente normal,  embora mais conservadora e religiosa que a maioria. Quando os Whitfield estavam na Igreja Episcopal, suas relações eram bastante mais prosaicas.

“Nos estávamos nessa bela igreja (Episcopal) e eles nos sustentavam . Nós sabíamos de onde vinha o nosso contra-cheque. E quando nós nos tornamos católicos, tudo isto acabou. E penso que isto foi o meu grande medo: de repente teu marido estava sem emprego.”

Muitas vezes ela também passou por surpresas,  como quando ela encontrou Josh depois de uma reunião,  na Universidade, exatamente quando ela acabara de sair da sua adolescência   

Eu não pedi por nada disto. Eu era uma garota de 20 anos rezando com alguma fé para arranjar um homem. Mas você sabe, eu suponho que Deus deveria achar isso bem engraçado.

 

Tim Sullivan

Fonte:  https://apnews.com/14c50cda5f6430f56420efd14058624e

 

 

 

 

 

NOTA:

*“FutureChurch, organização estadunidense que atua pela plena participação de todos católicos e  não-católicas em todos os aspectos da vida e do ministério da Igreja”. [Em artigo da Ir. Christine Schenk, pulicado pela Revista IHU on-line (http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/558886-a-questao-das-diaconisas-e-a-necessidade-do-equilibrio-de-genero-na-igreja-artigo-de-christine-schenk)].

 

OBS. Mais fotos e um vídeo acompanham esta matéria, no original (em inglês).

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