Padres casados: Papa Francisco está nas garras dos opositores

Marco Politi – 11 Fevereiro 2020 – Foto: Daqui

Só mais algumas horas, e saberemos se Francisco teve a força para abrir o caminho para a perspectiva de um clero casado na Igreja Católica de rito latino. O seu documento Querida Amazônia, sobre os resultados do Sínodo Amazônico, será publicado nesta quarta-feira, 12 de fevereiro.

O comentário é do vaticanista italiano Marco Politi, publicado em Il Fatto Quotidiano, 10-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

 

Depois de três semanas de um debate extremamente aberto, os bispos do Sínodo regional amazônico formularam, em outubro, o pedido ao papa de instituir um clero uxorato. Pedido aprovado, de acordo com as regras, por maioria de dois terços.

No parágrafo 111 do documento final, está escrito claramente que a assembleia sinodal propõe

“ordenar sacerdotes a homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, podendo ter uma família legitimamente constituída e estável”.

Seria uma reviravolta crucial. Na Igreja Católica, já existem

 

Mas o que fazer naquelas comunidades do Terceiro Mundo, espalhadas por distâncias imensas, aonde um padre pode chegar apenas uma vez por ano ou a cada dois anos?

A questão vem sendo levantada desde os tempos do Concílio, quando começou o debate sobre a possibilidade de ordenar sacerdotes viri probati, isto é, homens de idade, com fé e moralidade comprovadas, casados.

Houve sínodos nos tempos de João Paulo II nos quais, nos bastidores, fervia a discussão sobre a necessidade e a urgência

  • de superar o sistema atual de “ostiae fundus”.
  • Hóstias consagradas em outros lugares e transportadas de avião por centenas e milhares de quilômetros,
  • para que possam ser distribuídas a paróquias sem padre, perdidas na floresta ou na savana.

Tudo ficou parado e bloqueado até o advento do papa Francisco. Pouco depois da sua eleição, um bispo austríaco em missão na Amazôniadom Erwin Kräutler, havia lhe apresentado o problema. E Francisco havia respondido que a proposta deveria vir de baixo, dos bispos locais.

Nisso, o papa Bergoglio se mostrava fiel ao seu princípio de construir uma Igreja sinodal, comunitária, na qual as decisões não são tomadas unicamente de cima – em Roma –, mas amadurecem na consulta dos bispos de uma determinada região ou de todo o mundo.

Agora, chegou a hora.

  • Sínodo da Amazônia fez oficialmente o seu pedido.
  • No entanto, rumores insistentes dentro do Vaticano afirmam que Francisco, no seu documento, não parece pronto para encarar o problema de frente.
  • Prelados que viram os rascunhos no começo de janeiro dizem que o papa argentino não dá abertamente o seu placet ao pedido dos bispos.

Em geral, é prudente não seguir o jogo dos sussurros no palácio apostólico. Mas a clareza com que alguns de dentro do Vaticano afirmam que não haverá reviravolta, no entanto, levanta interrogações.

Um sinal importante vem do jornal AvvenireStefania Falasca, editorialista do jornal dos bispos e amiga pessoal do pontífice, escreve em um longo artigo dedicado ao iminente documento papal que

  • é preciso se concentrar na exigência de “conversão” que emergiu do debate sinodal amazônico.
  • Conversão “ecológica, social, cultural e pastoral”.

Avvenire

  •  recorda as palavras conclusivas de Francisco
  • e a sua exortação a prestar atenção sobretudo no “diagnóstico” da situação,
  • no “pecado ecológico” que atinge, nos seus efeitos, acima de todos, os pobres.

Em suma, a insistência está principalmente no Evangelho social do papa e na escuta do grito desesperado da natureza e dos povos. A editorialista do Avvenire escreve que houve uma

“excessiva atenção dada pela mídia aos pontos intraeclesiais [clero casado e papel das mulheres]” e que é sensato “não se deixar ofuscar por aqueles que usam a Igreja na Amazônia para outros interesses”.

Na realidade, tudo isso tem o ar de quem quer conter as coisas.

Todos sabem que a reviravolta central dos sínodos sobre a família foi o de dar aos divorciados recasados a possibilidade de fazer a Comunhão.

Os sínodos não haviam permitido essa mudança nos seus documentos.

  • Foi Francisco quem abriu a brecha na sua exortação pós-sinodal Amoris laetitia, dando luz verde à mudança:
  • de modo oblíquo, com uma nota de rodapé, sem sequer mencionar a palavra “Comunhão”.

Desta vez, no entanto, a situação parece paradoxalmente invertida.

  • Os bispos amazônicos se expressaram claramente, com um voto indiscutível por uma maioria de dois terços,
  • e o papa parece hesitar em responder com um “sim” explícito.

A verdade é que, no grande corpo da Igreja,

  • há uma massa consistente de bispos e cardeais totalmente contrários à ideia de uma reviravolta.
  • Francisco está nas garras da oposição, que o acusa agressivamente de liquidar os pontos básicos da tradição católica.

oposição do ex-papa Ratzinger e do cardeal Sarah foi clamorosa.

Mas, nas suas linhas gerais,

  • o documento de Francisco já havia sido escrito quando explodiu a polêmica.
  • Ainda antes, porém, havia rugido o estrondo ameaçador e subterrâneo do partido antirreformas.
  • Partido maior do que as costumeiras personalidades conservadoras que se pronunciam regularmente. Como os cardeais Müller e Brandmüller.

Sintoma da forte oposição subterrânea à possibilidade de ordenar padres casados foi o “alto lá!”, no Corriere della Sera, do cardeal Ruini:

“Espero e rezo para que o papa não confirme (o pedido sinodal)”.

Ruini, ex-presidente da Conferência Episcopal Italiana, é um personagem de peso. E, acima de tudo, nunca fala por acaso.

  • Existem várias centenas de Ruini entre os bispos do mundo.
  • Se houvesse um sínodo mundial de bispos, dificilmente a proposta de um clero casado obteria a maioria dos dois terços.

Mas Francisco é um combatente tenaz, sabe andar em zigue-zague, remar contra o vento (como ele disse aos seus coirmãos jesuítas).

A cortina sobe na quarta-feira. Aí veremos a versão final do seu documento. Para o pontificado de Bergoglio, é um momento crucial.

 

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