Desta vez Merkel impediu pactos de poder com a extrema-direita. Até quando?

 

  • Não foi o facto de ter sido o candidato do partido que ficou em último nas eleições de outubro (com 5%, a barreira para a eleição) que causou escândalo.
  • Não foi também o facto de se ter criado uma coligação a inviabilizar a continuidade do ministro-presidente Bodo Ramelow, do partido pós-comunista Die Linke (A Esquerda), primeiro nas urnas com 31% dos votos.
  • O que causou um turbilhão na política alemã foi o voto favorável da Alternativa para a Alemanha (AfD, nacionalista e populista) ao lado da União Democrata-Cristã (CDU) e do FDP, na terceira ronda de votações.

A surpresa geral transformou-se em indignação, nas redes sociais, nas ruas e na comunicação social. E Kemmerich acabou por ceder, anunciando a sua demissão.

 

De Weimar ao nazismo

  • Foi no pequeno estado da Turíngia que nasceu a democracia na Alemanha (a República de Weimar),
  • mas também foi aí que, graças a um Parlamento marcado por divisões e forte rivalidade,
  • se criou o caldo para o crescimento do nacional-socialismo.

Primeiro, em 1930, quando o partido de Hitler se aliou à direita tradicional e fez parte do governo estadual; e dois anos depois, ao chegar ao poder, tendo como líder Fritz Sauckel, uma das principais figuras do nazismo. Os campos de concentração na região, com Buchenwald à cabeça, foram uma das marcas do regime, ao aproveitar o trabalho escravo para o fabrico de armamento.

Marcas de um tempo que ainda muito recentemente foi evocado, quer em Jerusalém quer em Auschwitz.

“Gostaria de poder dizer que a nossa memória nos tornou imunes ao mal. Sim, nós alemães lembramo-nos. Mas às vezes compreendemos melhor o passado do que o presente”,

disse o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier no Memorial do Holocausto Yad Vashem.

 

Foto: Daqui

 

Além do passado nazi da Alemanha e em especial da Turíngia, a AfD daquele estado destaca-se pelo extremismo. O líder local, Björn Höcke,

  • dirige a ala radical do partido
  • e notabilizou-se por defender o fim da cultura de arrependimento pelos crimes nazis – um tema consensual até há poucos anos.
  • O extremismo deste dirigente é tal que é alvo de críticas por parte de membros mais moderados do seu partido

. Ao saudar a votação de quarta-feira, o ex-professor de História afirmou-se esperançado de que servisse de exemplo para o resto do país.

Thomas Kemmerich recebeu o apoio de Höcke no dia 1 de novembro, segundo uma carta do líder regional da AfD publicada no site da rádio MDR.

Na missiva, Höcke deixa em aberto a formação de um governo tecnocrático ou um governo liderado pelo FDP. O que levou muitos a questionarem se o pacto estava de facto selado e até se a CDU estaria alinhada. Segundo a Deutsche Welle,

  • há democratas-cristãos mais dispostos a cooperar com a AfD
  • do que com os socialistas do Die Linke,
  • ainda que Ramelow seja considerado um moderado.

 

 

O corte do cordão sanitário entre FDP e CDU de um lado e AfD do outro motivou em primeira instância reações locais, como a do ministro-presidente e candidato a novo mandato.

Bodo Ramelow publicou no Twitter uma foto de Hitler na tomada de posse como chanceler com o presidente Von Hindenburg e a foto de Kemmerich a ser cumprimentado por Höcke, e um texto do homem que iniciou a Segunda Guerra Mundial ao invadir a Polónia.

“Conseguimos o maior sucesso na Turíngia (…) Os partidos na Turíngia, que anteriormente formaram o governo, não podem obter a maioria sem a nossa participação.”

 

Os jornais também reagiram em conformidade.

  • “Caiu um tabu”, titulou o Der Spiegel, que qualificou o sucedido de “eleição vergonhosa”.
  • Já o tabloideBildescolheu “Lamentável” para título e lembrou que Höcke relativiza os crimes do III Reich.

Registaram-se manifestações nas ruas de Erfurt, a capital da Turíngia, mas também em Berlim e noutras cidades alemãs, com muitos a fazerem alusão ao pacto da extrema-direita com os liberais do FDP.

 

Merkel levanta a voz

Foi decisiva a intervenção de Angela Merkel. Apesar de já não ser a líder da CDU, a autoridade política e moral da chanceler é indiscutível. Em Pretória, África do Sul, onde se encontra em visita oficial, a líder da Alemanha não aceitou a eleição do ministro-presidente.

“Foi um mau dia para a democracia. Foi um dia que rompeu com os valores e as convicções da CDU, e agora tudo deve ser feito para deixar claro que isso não pode de forma alguma ser compatível com o que a CDU pensa e faz”, disse Merkel.

Esta eleição de um ministro-presidente de um estado rompeu com uma convicção central da CDU e minha, ou seja, que nenhuma maioria deve ser conquistada com a ajuda da AfD.

Merkel concluiu: “Deve dizer-se que este é um ato imperdoável e, portanto, o resultado desta eleição deve ser anulado”, para logo a seguir mencionar a hipótese de novas eleições.

À tarde, o homem que fora eleito no dia anterior convocou uma conferência de imprensa e demitiu-se.

“Em conjunto com os meus colegas liberais da Turíngia,

  • decidimos solicitar a dissolução do Parlamento.
  • Deste modo, queremos novas eleições
  • de modo a remover a mancha do apoio da AfD ao governo do ministro-presidente do estado.”

 

 

Kemmerich fora eleito deputado estadual com a frase de campanha “Um careca que prestou atenção às aulas de História” e recusou ter um pacto com a AfD.

“Não houve, não há nem vai haver cooperação com a AfD. Ontem a AfD tentou subverter a democracia com um truque pérfido. Estamos a tentar demarcar-nos”, disse.

O líder nacional dos liberais, Christian Lindner, que viajou para Erfurt para se reunir com as estruturas regionais, disse que Kemmerich “chegou à única decisão correta e possível”.Na quarta-feira, Lindner mostrou-se surpreendido com o apoio da AfD, mas não condenou a jogada.

Ainda não se sabe se existirão eleições antecipadas. Apesar de ter sido essa a sugestão do ministro-presidente demissionário, cabe aos deputados decidirem, sendo necessário o voto de dois terços dos eleitos.

AfD rejeita comparações

A Alternativa para a Alemanha

  • nasceu há sete anos como partido populista eurocético
  • e foi-se transformando num partido anti-imigração, anti-islão
  • e com militantes com simpatias incompatíveis com os valores democráticos.

Hoje é o maior partido da oposição no Parlamento nacional, o Bundestag, com 89 eleitos em 709, e tem representantes em todos os parlamentos estaduais.

As comparações com a ascensão do nazismo foram mal recebidas

“Estas comparações com os nazis tresandam. Nós na AFD somos

  • a favor de um Estado de direito, democracia, pluralismo político
  • e pela vida judaica no nosso país.
  • Somos contra toda a violência e a censura de opinião. Acabem com as provocações!”,

leu-se na conta oficial do Twitter.

Estes desenvolvimentos políticos acontecem numa altura em que uma das mais controversas figuras do partido perdeu a imunidade parlamentar. Alexander Gauland, líder da bancada parlamentar e ex-líder do partido, está a ser investigado por evasão fiscal.

O caso não deve estar relacionado com o financiamento ilegal do partido, um processo que levou à aplicação de uma multa de mais de 400 mil euros.

Gauland ganhou notoriedade internacional

  • graças a comentários controversos,
  • como os seus elogios aos soldados das forças armadas nazis,
  • ou quando minimizou a ditadura e os crimes do regime hitleriano ao compará-lo a um “excremento de pássaro” face a “mil anos de história alemã de sucesso”.

 

César Avó

Fontehttps://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-fev-2020/desta-vez-merkel-impediu-pactos-de-poder-com-a-extrema-direita-ate-quando-11793738.html

 

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1 comment to Desta vez Merkel impediu pactos de poder com a extrema-direita. Até quando?

  • Irene Cacais

    Muito bom artigo. Mas infelizmente Kemmerich ainda não se demitiu segundo constava ontem no noticiário da Deutsche Welle.

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