2020, um ano decisivo para a Igreja católica

Reforma da Cúria, da gestão das finanças do Vaticano, sacerdócio de homens casados… uma virada decisiva aguarda o papa.

 

Jean-Marie Guenois – LE FIGARO –  2/01/2020 – Tradução: Orlando Almeida

Foto:  O papa Francisco, por ocasião da sua homilia de 31 de dezembro em ação de graças pelo ano que terminou, na basílica de S. Pedro em Roma /  Andreas Solaro/AFP

O Papa Francisco festejou os seus 83 anos em 17 de dezembro de 2019 no final de um ano muito cheio para ele, pois fez nada menos que sete viagens internacionais para visitar onze países, notadamente o Panamá onde, em janeiro passado, se realizou a JMJ.

É preciso voltar ao ano de 1982 do pontificado de João Paulo II para encontrar uma tal densidade de deslocamentos.

 

Francisco também presidiu, durante o mês de outubro, um importante sínodo sobre a Amazônia, uma reunião mundial sobre a pedofilia, em fevereiro, e tantas outras audiências, sem contar  as visitas surpresa que ele gosta de fazer. Mas esta agenda sobrecarregada de um papa que não tira férias e que parece não querer parar nunca produziu  certa agitação em Roma, em meados de dezembro, quando a agenda oficial de 2020 ainda aparecia em branco.

Para alguns, este foi exatamente o sinal anunciado de uma renúncia iminente de Francisco…

  • Ainda mais por ele ter agradecido, em  26 de novembro,  a dois dos seus secretários particulares, Mons. Fabian Pedacchio e Mons. Yommis Lahzi Gaid.
  • E por ele ter nomeado, em 8 de dezembro, para o posto-chave de prefeito da Congregação para a Evangelização dos povos, aquele que muitos já veem como seu sucessor, o cardeal Luis Antonio Tagle, Arcebispo de Manila.

Mas, na realidade, nada de demissão papal à vista. No ano de 2020 estão previstas viagens significativas, ainda não confirmadas, mas em preparação:

Montenegro, Chipre, Hungria, Sudão do Sul, Iraque, Indonésia, Timor Leste, Papua Nova Guiné.

A França continua não fazendo parte do programa, como Francisco o confiou diretamente, em 16 de dezembro, ao novo presidente da Conferência Episcopal francesa, Mons. de Moulins-Beaufort, quando de uma entrevista no Vaticano.

Em termos de saúde, Francisco está objetivamente bastante bem para sua idade, mesmo que a transparência não seja a prática comum do Vaticano   sobre esta matéria.

A rodinha1 romana, no entanto, comoveu-se quando,  em 13 de dezembro, um vídeo do papa – dando um abraço em Fabiola Yana, a esposa do presidente argentino, em uma visita a Roma – revelou que ele trazia na cintura, sob o seu camal (capa pequena) branco de tipo médico, uma caixinha luminosa que nada tinha a ver com um microfone, uma vez que o encontro acontecia de forma reservada numa pequena sala.

Francisco sofre efetivamente

  • de um problema crônico no quadril, frequentemente muito doloroso para ele,
  • e de uma catarata,
  • mas ele está bastante em boa forma,

como ele demonstrou mais uma vez quando da exaustiva viagem à Tailândia e ao Japão no final de novembro.  Sem falar da sua combatividade intacta, ou talvez até superior à dos primórdios do seu pontificado.

Ele comprovou-o em 19 de dezembro, ao receber novamente no Vaticano 33 refugiados vindos de um campo na ilha grega de Lesbos. Ele pediu a eles que para colocarem, num corredor da Santa Sé, uma grande cruz de acrílico envolvendo os seus braços com um colete salva-vidas de cor laranja de uma vítima desconhecida, que morreu no Mediterrâneo.

  • A crueza dessa obra fez suscitou uma polêmica sobre o seu mérito,
  • porque a insistência do papa sobre a questão da imigração está sendo recebida cada vez pior nos meios católicos.
  • Mas também quanto à  forma pois, nesta obra, a representação de Cristo é substituída pelo colete salva-vidas.

 

 A abolição do segredo pontifício

Portanto Francisco continua a abalar os hábitos e as mentalidades, como ele gosta de fazer.

Ele quer sobretudo levar sua reforma da Igreja Católica até o fim. Deste ponto de vista, o ano de 2020 será decisivo.

  • O papa não vai apenas continuar a implementar as decisões tomadas quando da cúpula contra a pedofilia, organizada no Vaticano em fevereiro passado, como aconteceu em 17 de dezembro, ao  promulgar uma medida muito espetacular: a abolição do sigilo pontifício.
  • Mas vai também  continuar a reforma da gestão das finanças do Vaticano, uma questão de rara complexidade , mas para a qual nomeou, em 14 de novembro, alguém próximo, como prefeito do secretariado para a Economia. É o jesuíta espanhol Juan Antonio Guerreiro Alves, que portanto substitui o cardeal australiano Pell.

Dois outros temas substantivos, menos funcionais mas absolutamente decisivos para o futuro da Igreja católica, deveriam ser encaminhados em 2020:

  • a ordenação (sacerdotal – NdR) de diáconos permanentes casados, cujo princípio foi votado durante o sínodo na Amazônia,
  • e uma profunda reforma da cúria romana, a administração central da Igreja, que poderia assim mudar os atuais equilíbrios do exercício do poder dentro da Igreja católica.

O Sínodo da Amazônia, convocado para Roma em outubro passado para tratar da pastoral, mas também de todos os problemas sociais e ecológicos desta região do mundo, votou por maioria de dois terços dos votos desta assembleia de bispos uma medida espetacular para a Igreja romana latina: a possibilidade de ordenar como padres homens casados ​​em áreas muito remotas e com falta de padres.

Eles seriam escolhidos dentre os diáconos já permanentes já existentes. Padres casados ​​existem há séculos nas igrejas católicas de ritos orientais, no Oriente Médio e na diáspora. A “disciplina” do celibato, que não é um dogma, foi imposta pela primeira vez na Igreja latina pelo Papa Gregório VII, no século XI, e depois reforçada em 1545 quando do  Concílio de Trento, porque a prática do celibato sacerdotal sempre foi muito difícil de aplicar.

  • Se o Papa Francisco validasse esta medida votada pelo Sínodo da Amazônia,
  • ele abriria uma brecha no celibato sacerdotal,
  • mesmo que tenha prometido que nunca tocaria nisso.

De fato, essa medida seria limitada a situações específicas, decididas caso a caso pelas conferências episcopais envolvidas. Mas, na Europa, três conferências episcopais já estão preparando ativamente a implementação dessa reforma, que é todavia destinada à Amazônia: Alemanha, Suíça e Bélgica.

  • Esta reforma que deve ser completada no final de janeiro ou durante o mês de fevereiro,
  • pela publicação da exortação apostólica pós-sinodial que está em fase de tradução,
  • promete profundas divisões na Igreja.

“Não estamos mais na cristandade”

Quanto à reforma da administração central da Igreja, que chega agora à sua fase final, o papa, ao dirigir seus votos aos membros da cúria romana em 21 de dezembro, preferiu preparar os espíritos em vez de dar detalhes técnicos. Na ocasião ele insistiu sobre o espírito da reforma, fustigando aqueles que

  • por “rigidez” e “medo da mudança” não param de colocar “obstáculos”,
  • transformando a cúria em “campo minado de incomunicabilidade e de ódio”, o que é um “círculo vicioso”.

Ele até citou o famoso cardeal Martini, esse grande opositor teológico de João Paulo II e do cardeal Ratzinger:

“A Igreja ficou duzentos anos para trás. Como é possível que ela não se alvoroce?”.

 

Pois, afirmou o papa Francisco,

“não estamos mais na cristandade, não estamos mais! Não somos mais (…) os primeiros, nem os mais ouvidos”.

Então, “o que nós vivemos não é apenas uma época de mudanças, mas uma verdadeira mudança de época”.

É preciso portanto, prosseguiu ele,

“dar início a processos em vez de ocupar espaços”, porque “Deus se encontra no processo em curso” a fim de cumprir toda a “conversão” para “ser mais humano e mais cristão”.

A nova constituição apostólica, denominada Praedicate Evangelium”  (“Pregai o Evangelho”), deverá, portanto, vir à luz na primavera. Longe da “auto-preservação”, ela projeta um Vaticano “cada vez mais missionário”, prometeu Francisco.

 

Uma das medidas balizadoras consistiria em mudar a hierarquia dos ministérios do Vaticano.

  • A Congregação para a Doutrina da Fé, até agora a primeira em dignidade e em importância,
  • poderia ser simbolicamente destronada deste status
  • por uma nova entidade dedicada à evangelização e às questões sociais, sob a liderança do cardeal Tagle, recém-nomeado.

Nesta nova visão,

  • o Vaticano não seria mais a central romana que decide tudo e para a qual tudo converge,
  • mas antes uma plataforma de serviços dedicados às conferências episcopais
  • às quais seriam confiadas novas responsabilidades dentro do espírito de descentralização.

 

 

Jean-Marie Guenois

– jniguenois (wiefigaro.fr)

Fonte: https://www.lefigaro.fr/actualite-france/2020-annee-decisive-pour-l-eglise-catholique-20200101

 

 

NOTA:  1 Rodinha – em francês ‘landerneau’ – (termo pejorativo) pequena comunidade que compartilha valores comuns. Usado para criticar um grupo social específico. [https://www.linternaute.fr/dictionnaire/fr/definition/landerneau/]

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