Os policiais mascarados do Brasil: saldo de cadáveres e de medo

No ano passado, a polícia matou uma média de 17 pessoas por dia. Mas agentes rebeldes, fora do horário de serviço, estão matando mais suspeitos.

El Wanda’s bar en Belém, una ciudad portuaria junto al río Amazonas en Brasil, ha estado cerrado desde mayo, cuando hombres armados asesinaron ahí a once personas.

Por Azam Ahmed – 26 de dezembro de 2019

O Wanda’s Bar em Belém, cidade portuária à margem do rio Amazonas, no Brasil, está fechado desde maio, quando homens armados mataram onze pessoas.  Crédito…Tyler Hicks / The New York Times

BELÉM, Brasil – Os homens armados e mascarados chegaram ao Wanda’s Bar às 3:49 da tarde do dia 19 de maio e começaram a atirar assim que saíram dos seus veículos.

Duas pessoas, incluindo a própria Wanda, morreram na calçada.

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Lá dentro, os homens armados trabalharam em silêncio: dois na frente, que abriram fogo contra os clientes desarmados no bar e na sala principal do local, e um terceiro, que os seguia mais atrás com uma arma em cada mão, dando tiros de misericórdia na cabeça dos que ainda estavam vivos.

Quando o massacre terminou, onze pessoas estavam mortas. Derrubadas sobre o balcão, nas cadeiras ou amontoadas no chão. Apenas duas pessoas sobreviveram. Uma delas escondeu- se sob o corpo de um amigo, segundo referem os relatórios do caso.

Mais uma vez, como já o vinham fazendo há quase uma década, homens armados e mascarados realizaram um ataque na cidade brasileira de Belém, onde eles circulam pelas ruas e desafiam a lei de maneira descarada.  Roubam, extorquem e assassinam sem remorsos.

Estas pessoas, no entanto, não pertenciam a uma das muitas gangues que traficam drogas ou armas no Brasil. Eram policiais.

 

El grupo de élite de la policía brasileña es conocido por su cultura militar y el uso de la violencia excesiva.

O grupo de elite da polícia brasileira é conhecido por sua cultura militar e pelo uso excessivo de violência. Crédito …Tyler Hicks / The New York Times

 

A matança chamou a atenção do país para as milícias policialescas que há muito tempo assolam Belém, uma decadente cidade portuária à margem do rio Amazonas. Por um lado, esquadrões  da morte, por outro, organizações  criminosas, as milícias estão cheias de policiais aposentados ou fora de serviço que matam à vontade, frequentemente com total impunidade.

De fato, o que diferenciou o massacre no Wanda’s Bar não foi o fato de policiais fora de serviço terem disparado contra civis sem justa causa. O que fez com que este caso se destacasse foi a resposta do governo, que desta vez decidiu investigar o crime.

Das sete pessoas que foram acusadas do crime, quatro eram policiais fora de serviço, entre os quais os três supostos atiradores.

“Descobrimos um câncer dentro da polícia”, disse Armando Brasil, um dos promotores. “Agora estamos vendo o quanto ele se espalhou”.

As milícias

  • operam à sombra de uma estratégia de mão dura no combate ao crime por parte do governo brasileiro,
  • que declarou guerra aberta contra as gangues, os ladrões e os traficantes de drogas que afligem o país.
  • Os assassinatos pelas mãos da polícia dispararam nos últimos anos,
  • à medida que uma força conhecida desde há muito pela sua letalidade conseguiu superar a si mesma.

No ano passado, o número oficial de pessoas mortas pela polícia atingiu o seu índice mais alto em cinco anos, subindo para 6.220, uma média de 17 pessoas por dia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que compila dados do governo. Este ano, os assassinatos pelas mãos da polícia poderão até aumentar como consequência das declarações do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que disse que os criminosos deveriam “morrer como baratas”.

 

Algunos vecinos en Belém observan el lugar donde un joven fue asesinado.
Alguns vizinhos observam o local onde um jovem foi assassinado, em Belém.  Crédito …Tyler Hicks / The New York Times

As mortes provocaram um debate inédito no Brasil.

  • Os defensores dos direitos humanos denunciam o enfoque da mão dura como uma medida desumana e ineficiente,
  • ao passo que os que a propuseram afirmam que é a única maneira de enfrentar uma onda criminosa que coloca em risco o país inteiro.

Mas até os policiais reconhecem que as estatísticas oficiais são apenas uma parte do panorama.

Existe

  • uma forma paralela de violência policialesca, escondida do público e levada a cabo por milícias ilegais que enchem as suas fileiras de agentes policiais
  • com pouca paciência e escasso respeito pelo devido processo,

de acordo com entrevistas com membros das milícias aqui em Belém.

Os integrantes das milícias reconhecem que

  • grupos de policiais fora de serviço e aposentados
  • realizam regularmente execuções extrajudiciais contra pessoas que eles consideram criminosos, ladrões e assassinos de policiais apresentarem sequer um mandado de prisão.

Do seu ponto de vista, os membros das milícias prestam um serviço público, pois eliminam ameaças à sociedade.

“Eu matei mais de oitenta criminosos na minha carreira como policial”, disse outro líder da milícia. “Eu sou um herói para a minha gente. Eles me adoram”.

A América Latina está no meio de uma crise de homicídios.

  • Ocorrem mais assassinatos nas cinco nações mais violentas da região
  • do que em todas as principais zonas de guerra combinadas,

segundo o Instituto Igarapé, que faz o registro da violência no mundo.

Os responsáveis por estas mortes são frequentemente os suspeitos comuns:

  • cartéis de drogas e gangues;
  • o excesso de armas, frequentemente vindas dos Estados Unidos;
  • sistemas judiciais paralisados.

No entanto, a violência estatal é outro fator importante no derramamento de sangue, motivada pela crença firme de que os países devem combater a força com força impiedosa para obter a paz.

Un joven mató con dos disparos a un agresor en Belém.
Credit…Tyler Hicks/The New York Times

Os pesquisadores alertam que n

  • o Brasil, em El Salvador, no México e em outros países,
  • o uso letal da força por parte das autoridades – e a aprovação ou até a celebração popular dessa abordagem –
  • está tão difundido que até as estatísticas públicas apontam um excesso de execuções extrajudiciais.

Em muitos lugares perigosos, mesmo quando as gangues e o crime organizado estão muito bem armados, não é surpreendente que os criminosos morram em maior número do que os policiais ou os militares  que enfrentam, disseram os investigadores.

No entanto,

  • quando essa proporção está muito alterada
  • – e dez ou mais suspeitos morrem por cada policial ou soldado morto –
  • os especialistas costumam considerar isso como uma indicação clara do uso excessivo da força pelas autoridades.

Em El Salvador, essa proporção é espantosa – quase 102 para 1 – de acordo com Monitor Força Letal, um grupo de investigação.  Em outras palavras, para cada policial morto em El Salvador, morrem quase 102 supostos criminosos, dez vezes o nível que os investigadores consideram já suspeitamente alto.

No Brasil, o número também chama a atenção: segundo os analistas, morrem 57 suspeitos por cada policial assassinado.

 

El entierro de Vinicius Santos Lobo, quien tenía 18 años cuando fue asesinado por un hombre no identificado en Belém.

O funeral de Vinicius Santos Lobo, que tinha 18 anos quando foi morto por um homem não identificado, em Belém. Crédito…Tyler Hicks / The New York Times

 

Porém as execuções extrajudiciais são muitas vezes uma medida extrema por parte de agentes fanatizados em cidades como Belém e Rio de Janeiro, e alguns integrantes das milícias são francos a respeito das suas motivações criminosas.

Para encher os bolsos, alguns membros das milícias disseram que

  • cobravam das empresas por serviços de segurança,
  • com o que obtinham grandes somas de dinheiro
  • em troca de promessas, ao estilo da máfia, de manter a paz.

As milícias também extorquem criminosos e matam os que não pagam, uma operação que não é muito diferente das que eles supostamente combatem.

Atualmente, em Belém,

  • centenas de milicianos operam em mais de uma dúzia de facções diferentes,
  • geralmente com a ajuda de policiais fora de serviço,
  • de acordo com os próprios agentes e membros das milícias.

Até recentemente, disseram os agentes, o governo raramente os perseguia ou investigava de maneira rigorosa.

O governo do estado do Pará, cuja capital é Belém, declarou que a maioria dos policiais “não se desvia dos seus deveres”, mas reconhece que alguns, sim, fazem isso. O governo anunciou que prendeu cerca de cinquenta agentes neste ano.

 

Miembros de la ROTAM, los grupos de élite de la policía brasileña, custodian un lugar después de que su unidad matara a un presunto narcotraficante en Belém.

Membros da ROTAM, o grupo de elite da polícia brasileira, vigiam um local depois que a sua unidade matou um suposto traficante de drogas em Belém. Crédito…Tyler Hicks / The New York Times

O promotor que investiga o massacre no Wanda’s Bar, Armando Brasil, associou as milícias a, pelo menos, cem assassinatos nos últimos três anos, mas acredita que o número real é muito maior.

“Eles mataram muito mais pessoas”,

disse Armando Brasil, que anda com guarda-costas devido ao seu trabalho de combate às milícias.

“O número está mais para centenas de vítimas”.

 

‘Senti-me como um instrumento da justiça’

 Acabou com uma vida pela primeira vez em 2010, alguns anos depois de sair da academia de polícia, logo depois que uma gangue do chamado Comando Vermelho assassinou seu colega.

Ele e outros agentes

  • tiraram os uniformes,
  • puseram máscaras
  • e mataram umas dez pessoas que consideraram responsáveis, disse ele.

Depois disso, disse ele, toda vez que um policial era assassinado, ele e os seus companheiros matavam, por represália, pelo menos dez membros suspeitos de gangues.

Os moradores perceberam isso, disse ele, e

  • em 2012, um pai morador do seu bairro pediu-lhe ajuda.
  • Um homem tinha estuprado a sua filha e ainda estava em liberdade.
  • Ele pediu ao policial que matasse o homem para acabar com o pesadelo que atormentava a sua família.

Quando o fez e o suspeito estava morto, o pai chorou de gratidão e ofereceu dinheiro a ele, disse o policial. No começo ele rejeitou,  mas depois aceitou.

“Foi a primeira vez que me senti como um herói”, confessou o policial. “Senti-me como um instrumento da justiça”.

A partir daí, bastou um pequeno salto para tornar-se um assassino de aluguel, disse o agente. Cada um dos passos seguintes para afastar-se da lei foi ficando mais fácil.

Por volta de 2014, disse o policial,

  • ele roubava os traficantes de drogas,
  • sequestrava-os e torturava-os quando resistiram.
  • O seu ódio pelos criminosos justificava quase tudo, até matar civis inocentes acidentalmente.
  • Admitiu que chegou a encarnar  o que mais odiava.

Naquela época, disse ele, as milícias operavam em toda a Belém.

  • Algumas dedicavam-se  especificamente a matar criminosos conhecidos.
  • A outras o que mais interessava era o dinheiro.

 

Os números letais de Belém

Segundo o registro oficial, a polícia do estado do Pará matou 626 pessoas no ano passado, mais de uma dúzia por semana.

Isso representa mais de 150 vezes o número de tiroteios policiais fatais que ocorreram na cidade de Nova York no ano passado, apesar de as duas cidades serem quase do mesmo tamanho. (Aqui o autor se engana gravemente: Belém tem menos de um quinto dos habitantes de Nova Iorque. Respectivamente: 1.500.000 e 8.500.00 – NdR: )

De maneira desproporcional, em Belém, a capital do Estado, as pessoas assassinadas pela polícia são negras e pobres, como em qualquer lugar do Brasil. Em todo o país, disseram os investigadores, 75% das pessoas baleadas e assassinadas pela polícia são negras.

 

Una mujer lamenta la muerte de Ramón Silva Oliveira, de 18 años, quien murió en un tiroteo policial en el barrio de Marituba en Belém.

Uma mulher chora  a morte de Ramón Silva Oliveira, 18 anos, que morreu num tiroteio policial no bairro de Marituba, em Belém. Crédito…Tyler Hicks / The New York Times

 

‘Deveriam permitir-nos matar qualquer um’

 As prisões começaram dias depois do massacre no Wanda’s Bar. Os investigadores usaram câmeras de vigilância da rua e encontraram o carro dos agressores numa oficina de reparos.O proprietário do local estava modificando o veículo, para disfarçá-lo.

Em pouco tempo, as autoridades prenderam quatro policiais – dois deles da força de elite, as Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (ROTAM) – e três outros suspeitos do crime.

Vincular os assassinatos à polícia foi relativamente fácil. Analistas forenses encontraram numerosas cápsulas calibre .40 na cena do crime, uma munição  à qual apenas a polícia militar tem acesso, disse um promotor.

Mas, num dos casos, um juiz disse acreditar que a evidência é relativamente fraca, em parte porque os promotores não descobriram o motivo dos assassinatos.

Enquanto isso, o bar está fechado e os moradores continuam apavorados. Alguns dos acusados moravam perto dali, e amigos deles ainda moram na zona.

O medo é tão palpável que nenhum dos familiares das vítimas aceitou ser entrevistado. Alguns mudaram, outros trocaram o seu número de telefone e aqueles que ainda estão lá recusaram- se a abrir a porta ou a responder às mensagens.

No entanto, um amigo próximo da família da dona do bar, Maria Ivanilza Pinheiro Monteiro – conhecida por muitos como Wanda –disse que todas as pessoas que estavam no bar eram inocentes. Eram todos amigos que estavam se divertindo, e o bar em si era um lugar que muitos membros das milícias frequentavam, disse ele, com a condição de ter mantido o seu anonimato porque teme pela sua vida.

É por isso que não se sabe qual foi o motivo, disse ele. Todos conheciam os membros das milícias ou até eram seus amigos. Algumas das pessoas que morreram no ataque apoiavam o trabalho das milícias, porque pensavam que era a única maneira de depurar a comunidade.

De fato, o amigo ainda acredita nisso. Ele acredita que os policiais rebeldes são a melhor maneira de combater o crime em Belém. Mesmo com muitos dos seus amigos agora mortos, ele ainda se apega à crença de que as milícias são um “mal necessário”.

“Tornam a vida mais simples para de pessoas de bem”, disse ele. “Em geral, ainda acho que são uma força para o bem”.

Todos os milicianos entrevistados para esta reportagem acharam que

  • os assassinatos no Wanda’s Bar foram injustificáveis​​,
  • mas defenderam as milícias em geral.
  • Para eles, a violência é a única solução, e a única questão é como usá-la.

“Há uma maneira de consertar isto, disse um dos líderes da milícia. “O governador deveria permitir-nos , a nós os bons policiais,  matar qualquer um. Somente as pessoas más, os criminosos e aqueles que se aproveitam dos mais vulneráveis​​”.

“Isso acabará com a violência de uma vez por todas”, disse ele.

 

Azam Ahmed

 Azam Ahmed  Yan Boechat

é o chefe do escritório do México, da América Central e do Caribe.  @azamsahmed

 Yan Boechat colaborou com as reportagens em Belém.

https://www.nytimes.com/es/2019/12/26/espanol/america-latina/policias-brasil-ejecuciones.html?te=1&nl=el-times&emc=edit_bn_20191227?campaign_id=42&instance_id=14811&segment_id=19893&user_id=3f2137740f967caa245164d1689c6790&regi_id=8651583020191227

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