Uma benção católica para os casais homossexuais. Seis teses teológicas e pastorais

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A página Gionata.org, 19-12-2019, publicou um trecho traduzido do texto de Georg Trettin contido no livro “Mit dem Segen der Kirche? Gleichgeschlechtliche Partnerschaft im Fokus der Pastoral” [Com a bênção da Igreja? As uniões homossexuais na ótica da pastoral],

organizado por Stephan LoosMichael Reitemeyer e o próprio Trettin (Ed. Herder, 2019, pp. 140-157).

Trettin, nascido em 1956, é um teólogo católico e revisor alemão casado.

(Foto: Divulgação)

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando duas pessoas estreitam um vínculo vitalício, ele nasce de uma decisão recíproca, livre e manifesta. Quando se trata de um homem e de uma mulher, a Igreja Católica reconhece na sua união a implementação do plano de Deus para a sua criação e um sinal que produz salvação, um sacramento. Mas, quando se trata de duas pessoas do mesmo sexo, a Igreja Católica não vê um sacramento na sua união: ela não está prevista pela ordem da criação. O que é, então?

Uma relação de ordem inferior, uma expressão do mal? Ou algo que não é possível, que não existe? Certamente, ela é interpretada como uma persistente violação da moral sexual.

Seja o que for, o vínculo é válido diante de Deus, porque tudo o que é sofrido ou realizado pelas pessoas tem valor diante de Deus. Portanto, isso também vale para o que acontece quando dois seres humanos se entregam um ao outro para se ajudar mutuamente. Nesse caso, Deus se alegra e espera com eles, porque Deus é amor e nos liberta para o amor. Portanto:

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Tese 1: O vínculo vitalício, mesmo entre duas pessoas do mesmo sexo, vale diante de Deus mesmo sem a bênção da Igreja.

No matrimônio tradicional, os ministros são os próprios esposos, que, mediante o seu consentimento, dão-se mutuamente o sacramento. No caso das uniões homossexuais, a promessa não pode ocorrer como sacramento; mas ocorre na consciência dos parceiros e, portanto, deve ser respeitada. Se uma bênção da Igreja não é possível, ela não é sequer necessária. Do que se precisa mais, então? Se o casal percebe, em consciência, a própria união como um casamento, a Igreja não tem o poder de cancelar essa fé.

Com efeito, para muitos casais, essa bênção seria importante: para celebrar a sua união, para compartilhar alegria com familiares e amigos, para agradecer a Deus e para receber o seu consentimento. Certamente, os parceiros podem pedir a sua bênção diretamente a Deus. Mas um gesto evidente e público tornaria a bênção ainda mais concreta. Seria um gesto de autoridade, alinhado com o espírito do Ritual de Bênçãos.

No caso de uma recusa, porém, a validade do vínculo não é posta em discussão, pois ela tem significado diante de Deus, e não diante dos homens. A presença de Deus não desaparece. Todavia, uma bênção seria um sinal relevante: de reconhecimento, consentimento, força, empatia e apoio. A transmissão visível do amor e da atenção de Deus.

Chega um casal e pede que a Igreja o abençoe; mais exatamente: pede que um assistente espiritual reze a Deus para que Ele sustente o casal, fortaleça o bem dessa relação, a fidelidade, o respeito, a atenção um pelo outro no seu caminho futuro. É um caminho de aliança, e a bênção traria força e consolação.

Negar a bênção seria humanamente gentil e espiritualmente sábio?

Tese 2: As objeções a uma bênção para os casais homossexuais são fracas demais para que a Igreja as leve em consideração.

Magistério, em busca de uma pureza fora do tempo, não consegue escutar as mulheres e os homens reais, que deveriam ser o lugar do encontro com Deus. A evolução das relações humanas produziu novas formas de vida social. Podemos imaginar uma criação divina que vê o ser humano como necessitado de uma ajuda (Gn 2,18) e, ao mesmo tempo, que nega perpétua e irrevogavelmente essa ajuda às pessoas concretas, na sua realidade pessoal e histórica?

Não seria coerente com o amor de Deus não acolher dois seres humanos que cuidam um do outro, que entendem a sua vida como um exercício de amor em crescimento. E o amor significa não apenas desejo, mas também amizade; não exploração egoísta, mas respeito e assistência; não instrumentalização, mas dedicação. A sexualidade aqui se torna expressão de acolhida recíproca.

Pedir a bênção de Deus é um sinal de fidelidade à criação e à relação com Deus, pois a bênção deveria reforçar o afeto e a capacidade de carregar os pesos uns dos outros; a bênção expressa nostalgia por uma reconciliação, até mesmo com a Igreja que sempre impediu as relações homossexuais, e louvor a Deus que ama e sustenta a nossa liberdade (p. 144).

Que Deus seria, se a Igreja não fosse livre de rezar a Ele para que abençoe duas pessoas, para que fortaleça o seu amor e a intenção de ser uma ajuda uma à outra? Negar a bênção de Deus equivale a negar a misericórdia do Deus-conosco, do Deus de Jesus (pp. 145-146). A Igreja Católica realmente precisa disso?

Tese 3: Nós abençoamos os casais homossexuais quando e porque eles nos pedem para fazê-lo.

Uma Igreja pronta para rezar a Deus para ajudar um casal homossexual e fortalecer o bem que vive nessa relação já carrega no seu coração a bênção esperada. Só poderia e deveria dar-lhe expressão. É surpreendente que um casal homossexual peça a benção no seio da Igreja Católica Romana. Ao longo da história, ela sempre desvalorizou, marginalizou, negou e perseguiu o amor homossexual. Essa história ainda não foi totalmente transcorrida, não foi superada nem contada a fundo. As feridas são numerosas, profundas e atuais.

Por isso, muitas pessoas LGBT abandonaram a Igreja Católica Romana. Portanto, se algumas pessoas homossexuais ainda a consideram digna e capaz de rezar a Deus por uma bênção, a Igreja Católica deveria ser apenas sinceramente grata e buscar uma reconciliação, consciente da própria culpa e da misericórdia de Deus.

Oferecer aos casais homossexuais a possibilidade de uma bênção seria um grande sinal de conversão por parte da Igreja Católica devido à injustiça cometida. E ajudaria a restaurar tanto a Igreja Católica quanto as pessoas homossexuais.

Tese 4: A Igreja mostra – por meio da bênção – arrependimento e conversão.

Essa nova atitude pastoral deveria valer para todos os marginalizados e os excluídos. A busca da ovelha perdida e o caminho em direção às outras mudam tudo: mudam as outras ovelhas, mudam também o pastor, dão-lhe outra perspectiva e outra sensibilidade. Assim:

Tese 5: Uma Igreja aberta também a lésbicas, homossexuais, transexuais e intersexuais é uma Igreja mais próxima do Evangelho.

Ou seja, torna-se uma Igreja capaz de encontrar e de levar ao encontro com o Ressuscitado: a criação e o feliz anúncio crescem na ajuda mútua, na solidariedade, na identificação com as minorias. Nesse sentido, a bênção para os casais homossexuais se converte em uma bênção para a Igreja.

O medo ainda existente do contato com o tema LGBT pode diminuir por meio do contato e do diálogo com essas pessoas e com as suas experiências reais. De fato, o pastor deve “ir em busca” da ovelha perdida e carregá-la sobre seus ombros.

Tese 6: A bênção dos casais homossexuais será acompanhada, ainda por algum tempo, pela marginalização.

Está viva na Igreja a preocupação de que o ritual da bênção não seja confundido com o do sacramento do matrimônio. Essa preocupação, na realidade, esconde o medo de perder poder e é a resposta para perguntas que não são mais feitas pela sociedade. Para o ser humano de hoje, são importantes os valores da vida e da relação. Se a Igreja Católica Romana, devido às pressões dos grupos conservadores, resistir à misericórdia e à acolhida, permanecerá em uma posição de marginalização e de incoerência.

“Qual é a importância para a Igreja da posição – precária em muitos países – de lésbicas e homossexuais? Quando as preocupações e as demandas das pessoas LGBT vão se tornar as preocupações e as demandas da nossa Igreja?” (p. 150).

Certamente, para a Igreja Católica, as uniões homossexuais não podem ser equiparadas ao matrimônio. Mas a Amoris laetitia 123-125 estabelece que a essência do vínculo conjugal é de natureza ética e diz respeito à disponibilidade de fazer um projeto de vida juntos. O dom recíproco, também das pessoas homossexuais, concorda com os valores do Evangelho e, portanto, deve ser considerado um reflexo da presença de Deus na vida humana e um sinal de desenvolvimento e renovação da criação.

Em virtude disso, seria plausível pensar na bênção: sem impô-la a ninguém, sem excluir ninguém. Uma ocasião de alegria, reconhecimento e esperança. Um modo de restituir dignidade aos casais. Uma experiência de fé. A Igreja poderia abençoar uma união que já ocorreu em âmbito civil, sem que o matrimônio seja celebrado sacramentalmente (pp. 152-153).

A bênção comunica a companhia de Deus; ao mesmo tempo, o casal expressa o seu desejo de ser reconhecido e confirmado na Igreja, casa da fé própria e comum. Por parte da Igreja, a bênção seria um gesto de respeito, acolhida e fraternidade pelo vínculo de amor e de vida entre duas pessoas.

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Texto original: “Segen für gleichgeschlechtliche Paare. Sechs Thesen und ein Ausblick”.

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