Moro e Bolsonaro diante do abismo

A presença de Moro no Governo Bolsonaro nestes momentos críticos se torna duplamente importante, enigmática e até perigosa

Presidente da República, Jair Bolsonaro, e o ministro da Justiça, Sergio Moro, durante a final da Copa América 2019.JUAN ARIAS – 19 DEC 2019

As notícias dadas por todos os meios de comunicação com ênfase nas denúncias de suposta corrupção da família do presidente Jair Bolsonaro o colocam, assim como a seu ministro da Justiça, Sergio Moro, diante de um abismo.

Principalmente porque foi o próprio Bolsonaro quem alertou que podem ressuscitar novas notícias sobre o nunca resolvido “caso Marielle”, esse fantasma que se recusa a morrer e que, segundo ele, seus inimigos políticos tentam ressuscitar.

 

A presença de Moro no Governo Bolsonaro nestes momentos críticos se torna duplamente importante, enigmática e até perigosa. Há apenas alguns dias confessou que o presidente Bolsonaro é uma pessoa “muito digna” com quem tem uma boa relação de trabalho.

A impressão que se tinha é de que

  • Moro, que já não excluía que poderia se candidatar a vice-presidente nas próximas eleições,
  • seguindo suas ambições políticas cada vez menos negadas,
  • aparecia cada dia mais próximo do bolsonarismo mais duro.

E agora?

É verdade que pode dizer que

  • não é mais o temido juiz da Lava Jato
  • e apenas ministro da Justiça. Isso em teoria.

Na prática, sua figura e sua imagem de intransigência contra a corrupção o colocam agora em uma situação que poderia significar seu teste definitivo. Terá de escolher.

  • Continuará apostando em Bolsonaro e sua família diante dos novos acontecimentos?
  • Continuará brincando de avestruz como se isso já não lhe dissesse respeito?

Outra pergunta que se impõe é

  • até que ponto agora Bolsonaro continuará confiando em seu superministro
  • ou temerá que possa ser traído, apoiado no consenso popular que apresenta, maior que o do presidente.

Talvez tenha sido uma simples casualidade, mas, justamente neste momento

  • surgiu a notícia de que o presidente está pensando em desdobrar o Ministério da Justiça
  • para criar o Ministério da Segurança Pública, cuja missão é um dos êxitos de Moro no Governo, com a diminuição da criminalidade —

embora os especialistas digam que não há elementos confiáveis para atribuir a queda de mortes violentas às políticas implementadas neste ano.

  • Será que Bolsonaro está começando a duvidar da lealdade de seu ministro que também lhe servia de escudo e teme uma dessas traições das facas longas?
  • Estaria considerando sangrar os poderes de seu ministro que de escudo pode se tornar seu inferno?

Se é difícil decifrar o que a esfinge Moro pensa hoje sobre as nuvens cinzentas que pairam sobre a família do presidente Bolsonaro, da qual está sendo rasgada uma das bandeiras fortes de seu programa, como era a luta contra a corrupção a qualquer preço, não é menos enigmático o que Bolsonaro começa a pensar sobre ele e seus escândalos que já parecem ter rompido suas margens. O presidente poderá temer uma traição de Moro, com sua fama internacional de juiz duro, que não tremeu a mão ao colocar na cadeia o mítico ex-presidente Lula e que sabe ter muitos anos pela frente em sua ainda indecifrável vocação de poder?

O mais seguro é que as próximas semanas e meses, ou talvez apenas dias,

  • sejam definitivos nessa relação de amor e ódio que hoje une os dois personagens com maior poder no país e que, ao mesmo tempo,
  • são seguidos perigosamente em seus passos pelo governador do Rio, o ex-juiz Wilson Witzel, não menos duro e ambicioso do que os dois,
  • que não têm escrúpulos em anunciar desde já que poderá enfrentar Bolsonaro nas urnas.

Só Bolsonaro? E se o acaso fizesse que seu oponente na disputa pela presidência fosse Moro? Ambos foram juízes. Ambos ainda são jovens e têm fome de política. Dois duros que anunciaram ser a favor de mão forte contra o crime, o que lhes rende o aplauso das hostes bolsonaristas.

Talvez seja necessário, para tentar analisar o complexo panorama político aberto pelas investigações cada vez mais importantes e sombrias sobre a família do presidente,

  • desenterrar o mito da esfinge grega, que era um demônio destrutivo com asas manchadas de sangue e que Sófocles chamava de “cruel cantora”.
  • Esfinge e enigma, filha do rei Laio, cujo enigma, conhecido apenas pelos monarcas de Tebas, fora desvendado.

Para uma política correta e não destrutiva,

  • mais do que enigmas e segredos,
  • seriam necessários, como se dizia no jornalismo clássico, “luz e taquígrafos”,
  • transparência e respeito pela verdade.

Bolsonaro usa as palavras da Bíblia em seu lema de governo: “a verdade os libertará”. Essa verdade que desintoxica a política é o que o Brasil está precisamente necessitando nestas horas em que parece estar vivendo os fantasmas das pitonisas antigas.

 

 

Juan Arías

Fonte: https://brasil.elpais.com/opiniao/2019-12-19/moro-e-bolsonaro-diante-do-abismo.html

 

 

 

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