Presépios de humor, políticos ou acusatórios: Jesus, Maria e José detidos como imigrantes, separados por um muro ou com a polícia à porta XY

 

Presépios que remetem para o humor, para tragédias ou para políticas imorais: a recriação da cena da Natividade procura trazer para a actualidade questões que estavam também presentes no nascimento de Jesus.

O 7MARGENS falou com dois dos artistas que criaram estes presépios provocadores.

Presépio da Igreja Metodista Unida (IMU) em Claremont, na Califórnia (EUA): “A política de detenção e separação familiar é imoral”, defende a IMU. Foto reproduzida da página da Igreja na internet.

Um presépio

  • apresentando Jesus, Maria e José em gaiolas de arame individuais,
  • como se se tratasse de uma família de refugiados detida separadamente
  • ao chegar à fronteira dos Estados Unidos da América.

Outro apresentando um muro que separa os pais e a criança.

Um terceiro

  • em que os pastores são socorristas
  • e os magos deram lugar à polícia;
  • ou ainda um em que restam a vaca e o burro,
  • porque lhes foram retirados os judeus, árabes, refugiados, estrangeiros e outros desconhecidos…

Estas são algumas das reconstruções da tradicional representação do presépio

  • com um claro objectivo de chamar a atenção para um dos aspectos da actual realidade mundial:
  • o drama dos refugiados ou daqueles que tentam uma vida mais digna e tranquila,
  • deixando o seu país de origem.

Uma afirmação política na medida em que

  • nos “pode confrontar com a nossa própria hipocrisia”
  • ou “uma crítica à velha Europa e em especial ao velho catolicismo”,

como dizem ao 7MARGENS os autores de dois dos desenhos.

O primeiro deles foi apresentado há dias pela Igreja Metodista Unida (IMU) em Claremont, na Califórnia (EUA). O diário The Washington Post disse que o presépio da congregação suburbana do leste de Los Angeles

  • está a suscitar tanta simpatia quanta fúria
  • por inserir a história bíblica da família de Jesus fugindo para o Egipto
  • no contexto das controversas políticas de imigração dos Estados Unidos da América.

 

“Política de detenção e separação familiar é imoral”

Na sua página na internet, a IMU de Claremont publicou na semana passada uma declaração, em espanhol e inglês

“sobre a multidão de respostas” acerca do presépio, na qual afirma que se trata de uma representação “para afirmar a humanidade de todas as pessoas”.

“O cristianismo é uma tradição carregada de paixão, que desafia e inspira ao mesmo tempo”,

afirma a Igreja. E acrescentando que todas as opiniões foram escutadas, os responsáveis da Igreja dizem

“que a política de detenção e separação familiar é imoral em qualquer administração”.

Já em 2009 e 2012, as representações do presépio tentaram

“criar uma consciência similar sobre as preocupações da política de imigração”.

Segundo o Washington Post, a pastora Karen Clark Ristine considera que

  • o presépio não é uma tomada de posição política;
  • o que se pretende é olhar para os requerentes de asilo e para o modo como estão a ser recebidos e tratados
  • “e sugerir que pode haver uma maneira mais compassiva de mostrar o amor de Deus”.

Considerando que

  • “um presépio é o equivalente teológico da arte pública”,
  • e que “o papel da arte pública é o de consciencializar”,

Karen Clark Ristine refere que Jesus nos ensinou

“a bondade, a misericórdia e o acolhimento radical de todas as pessoas”,

uma ideia que na Relevant Magazine também surge como conclusão, num artigo que discute se Jesus, Maria e José eram ou não refugiados.

O Washington Post recorda ainda que alguns estudiosos afirmaram que o primeiro presépio, criado por São Francisco de Assis no século XIII, era, ele próprio, uma afirmação política, porque Francisco pretendeu chamar a atenção para o sofrimento dos pobres.

 

“Deus sempre guiou quem fugiu à opressão”

“À espera dos homens sábios”, de Lee Silk Kaercher: o humor é “uma óptima maneira de desmascarar a hipocrisia”. Reprodução autorizada pelo autor.

Também nos Estados Unidos, Lee Silk Kaercher pintou um presépio em que os pais estão separados do filho por um muro.

“Pintei esse quadro há dois anos, no início da nossa angústia nacional por haver famílias separadas na fronteira sul dos EUA”, conta ao 7MARGENS.

“Para aqueles de nós que crescemos com as escrituras judaicas ou cristãs, podemos ver claramente (se quisermos) que Deus, ao longo das nossas amadas histórias, sempre guiou imigrantes e se preocupou com aqueles que fugiam da opressão”, recorda.

“Se a minha pintura é uma afirmação política, é porque ela nos pode confrontar com a nossa própria hipocrisia.”

E o humor – mesmo se trágico, como no quadro de Kaercher

“costuma ser uma óptima maneira de desmascarar a hipocrisia”,

afirma o autor de Waiting for the Wise Men (À espera dos homens sábios),

  • um título que joga na dupla referência à espera dos “sábios” do Oriente (os magos)
  • e à expectativa da sabedoria política.

O artista tem uma “esperança” para o novo ano:

“Que nós, como pessoas vivendo juntas neste planeta, possamos começar um caminho compassivo, generoso e honesto para todos aqueles que sofrem por serem deslocados e destroçados” nas suas vidas. Porque “as barreiras que erguemos não se limitam às fronteiras dos países”.

 

“Seguimos o Jesus histórico e esquecemos o Jesus actual”

“Portal Patera”, de Agustin de la Torre Zarazaga: “O que se passou em Belém há 2000 anos continua a ocorrer hoje de forma ainda mais dramática.” Reprodução autorizada pelo autor.

 

Em Portal/Patera (Gruta/Bateira) o sevilhano Agustin de la Torre Zarazaga criou uma ilustração em dois momentos: no primeiro, um presépio tradicional; no segundo, os pastores são substituídos poe socorristas e os magos por agentes da autoridade.

“Creio que o sentido é evidente: o que se passou em Belém há mais de 2000 anos continua a ocorrer e de forma ainda mais dramática, hoje em dia”, diz ao 7MARGENS, através de correio electrónico.

  • “Seguimos o Jesus histórico e esquecemos o Jesus actual.
  • Além disso, convertemos a gruta de Belém num adorno para as nossas casas
  • e, enquanto estamos (os cristãos) celebrando o Natal em mesas cheias de comida,
  • as pessoas mais miseráveis do mundo afogam-se junto às nossas costas, porque não têm futuro e têm fome.”

Sobre o uso do humor, Agustin de la Torre diz também que ele

é necessário: o mundo necessita de mais humor e a religião especialmente; eu faço humor, mas é um humor de refexão ou denúncia das cosas que vejo na Igreja que estão muito longe do evangelho”, afirma.

Casado, pai de dois filhos e professor numa escola de religiosas salesianas, o artista diz que não há muitos artistas cristãos a fazer este trabalho:

“Deveríamos ser mais, porque é uma forma maravilhosa de transmitir a mensagem de Jesus”. Mesmo assim, cita o “maior expoente do humor religioso” espanhol, José Luis Cortés, já retirado, além de outros que permanecem no activo: Patxi (Fano), Jesús Mario Lorente e Pilar Ramírez com “o rei dos Mindundis”.

O pequeno Aylan e o presépio sem judeus nem refugiados…

Presépio do pequeno Aylan Kurdi, na igreja de Santo Antão, em Madrid. Foto © António Marujo

A esta curta viagem podem acrescentar-se o presépio do pequeno Aylan, criado na Igreja de Santo Antão em 2015, no centro histórico de Madrid, para assinalar o naufrágio de uma criança síria na costa da Turquia, no início de Setembro desse ano.

Aylan Kurdi, de três anos, morreu afogado juntamente com um irmão de cinco anos e a mãe de ambos, além de outros doze sírios, que tentavam chegar à Grécia. A imagem real chocou o mundo, o presépio madrileno foi uma acusação às consciências.

A outra natividade que aborda o tema dos refugiados é de novo um desenho, também de 2015, neste caso da autoria da polaca Joanna (Asia) Wieruszewska, que circula igualmente em vários sítios de internet mas foi inicialmente publicado na sua página pessoal da rede social Facebook.

Um “presépio sem judeus, árabes ou africanos” é representado apenas pela manjedoura ladeada por um burro, uma vaca e uma ovelha.

“Na realidade, foi o meu irmão que teve a ideia, ele chamou-me uma noite e descreveu-me o que queria que eu desenhasse”, conta ela ao suplemento Indy100, do jornal britânico Independent.

“Era muito sobre o que acontecia nessa altura na Polónia, com o governo muito conservador e os seus sentimentos nacionalistas. E, ao mesmo tempo, os polacos são muito católicos e religiosos”, afirmava a artista.

“Presépio sem judeus, árabes e refugiados”, de Joanna (Asia) Wieruszewska. Reprodução da página da autora no Facebook.

António MarujoResultado de imagem para Eduardo Jorge Madureira

 

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